24 de março de 2020

Como lidar com o medo em tempos de crise - Fundação Elizabeth Kubler-Ross


Compartilho com vocês a transcrição de uma live, que a Fundação Elizabeth Kubler-Ross realizou com o intuito de ajudar a todos nós nestes dias de crise. Quem transcreveu foi a colega Psicóloga e Gestalt-terapeuta, Fernanda Zanette de Oliveira. Uma querida amiga de Criciúma – SC.


Vale a pena dedicar um tempinho a esta leitura, destaquei alguns trechos.


Aproveitem!! #todosemcasamasjuntos


Como lidar com o medo em tempos de crise


Precisamos compreender que na natureza tudo segue um movimento de contração e expansão. Basta pensarmos no próprio movimento do nascimento, o parto (contrair e expandir do útero), o movimento dos mares, o movimento da natureza...

Quando nos deparamos com uma situação de doença, também nos aproximamos deste movimento. Hora nos recolhemos, hora expandimos. É importante fazermos este movimento para irmos ganhando força, frente a estas situações.

Em momentos de crise, este movimento também se mostra. 
Podemos entender que a contração neste momento que estamos vivenciando, diz respeito a entrar em contato com o nosso íntimo, nosso interior, momentos de maior introspecção e contato conosco. Já o movimento de expansão é quando continuamos a planejar coisas, novas atividades, projetos numa perspectiva possível de futuro. 

O problema é quando ficamos conectados apenas com um desses modos de lidar com o mundo (pólos). 

Alguns níveis de stress e medo fazem parte da nossa experiência. É importante acolhermos e validarmos esses sentimentos.

Sobre a situação atual da pandemia do Coronavírus– COVID 19, não é bom ficarmos o tempo todo falando nisso. Obviamente, a situação não pode ser ignorada ou minimizada, porém é importante que possamos nos autorizar a também ficar bem em tempo de dificuldade. Fazer coisas que nos fazem bem, buscar um pouco de descontração. 

Transpondo para nosso momento uma das práticas utilizadas no tratamento de pacientes em cuidados paliativos, é importante que mesmo frente a uma situação de adoecimento ou crise, que algumas coisas de suas vidas consigam seguir de forma normal. Para isso, a importância de se manter uma certa rotina. Fazer uma rotina, organiza a nossa experiência. Ajuda a estabelecer um sentido de normalidade. Oferece uma sensação de que “Há alguma coisa em mim que ainda continua preservada”, mesmo frente a grandes mudanças. 

Algum nível de stress é importante para nos mantermos atentos, alertas. Porém, este stress precisa estar mediado por uma auto-compaixão infinita. 

Neste período de crise, também precisaremos lidar com os mecanismos de defesa dos outros. Quando formos lidar com pessoas que estão em negação, ou racionalizando, por exemplo, não tentar retirar ou confrontar estas defesas. Se confrontarmos essas defesas, elas só se fortalecerão ainda mais. 

Precisamos usar a defesa a favor. Por exemplo, com alguém que negue a situação e minimize o risco atual, vamos ajudando ela a pensar em qual é o melhor cenário possível e aos poucos vamos auxiliando ela a ir se adaptando a uma nova realidade, novas perspectivas mais realistas dentro deste cenário.

Frente a idosos, ou pessoas que estejam enfrentando a grandes aglomerações por conta de seu trabalho, importante usar de uma COMPAIXÃO PROFUNDA! Olhar para esta pessoa e validar seu sofrimento. Mostrar que você está vendo isto. “Nossa! Como esta pessoa pode estar sofrendo! Eu estou vendo isto!”

Portanto, é importante respeitar os mecanismos de defesa. Mecanismos de defesa, não são de todo ruim. São necessários para todos nós em certo nível e todos temos. O problema é quanto sua intensidade, frequência e rigidez. Ou, quando ficamos fixados somente em único mecanismo e temos dificuldade em alternar.

Um outro ponto importante quando trabalhamos com situações extremas é cultivamos nossa habilidade de manter a esperançaEsta esperança pode ser cultivada em doses diárias. “HOJE VOU TER A ESPERANÇA DE QUE?” 
É importante que tenhamos pelo menos uma esperança por dia. Ao acordar, pensar “Qual a minha esperança para hoje?” Esta esperança precisa estar não somente a algo de fora para dentro, mas de dentro para fora. Ou seja, coisas que eu posso fazer por mim naquele dia, não somente esperar dos outros ou do mundo. Esperanças pequenas e palpáveis. Se conseguir concretizar alguma por dia, como “hoje vou preparar um bolo”, ao fim de 7 dias terei 7 pequenas esperanças. 

Também é importante não nos frustrarmos se não conseguirmos realizar todos os nossos planos neste período. Se estamos tentando, estamos vivos!

Sobre a gratidão, ela pode também estar presente neste momento. Olhar para o teto pode ser o primeiro exercício de gratidão. Ajuda a nos conectarmos a uma alegria íntima de ainda estarmos aqui. 

Neste contexto, vale estarmos envoltos de uma preocupação amorosa pelos seres humanos.

Em momentos difíceis, olhar para o teto e sentir gratidão “eu ainda estou aqui. Então eu ainda tenho algo para fazer nesta vida.”

Outro ponto importante é “estar em contato conosco mesmos” (Traduzindo pra GT – awareness).  Ou seja, estar atento ao próprio corpo. A alma se expressa pelo nosso corpo.  O corpo é a casa da alma. Precisamos cuidar desta casa. Oferecer ao corpo repouso, movimento, alimento, àgua, ar, higiente... conforme suas necessidades. 

Um corpo que não recebe cuidado é mais suscetível ao stress. É importante que o corpo seja lugar de cuidado. Assim como é importante você se responsabilizar pelos cuidados do seu próprio corpo. Se você não consegue se responsabilizar por si, não conseguirá se responsabilizar pelos outros. 

Outro ponto importante, manter um sentido de espiritualidade.  Cuidar da nossa alma. Se conectar com aquilo que é sagrado para nós. “O que é sagrado para você?” Estabelecer tempos de silêncio e de oração. E cultivar momentos de conexão espiritual, que pode se dar através da arte, da música, jardinagem, contemplação da natureza... aquilo que faz mais sentido para cada um. 

Portanto, nosso trabalho diz respeito a auxiliar as pessoas a fazer o caminho de contração e expansão. 

Importante também que a gente não perca a capacidade de brincar com a vida. Sobre este ponto, é sugerida a leitura do livro – Em busca de sentido, de Viktor Frankl. Dentre outros pontos relevantes no que se refere ao sentido de sobrevivência frente a situações extremas, o autor menciona algo relacionado à importância de sabermos manejar as variáveis da vida. 

Ainda sobre stress, sabendo que em certo nível ele é importante para a vida, é fundamental termos alguns momentos em que possamos baixar um pouco este estado de vigilância. Em casa, por exemplo, podemos alternar esta responsabilidade com outras pessoas “hoje eu fico mais atento, amanhã você fica”. Dividir a carga de stress. 

Para quem vive sozinho, não esqueça de ser sua melhor companhia, seja você seu melhor amigo. E caso precise de auxílio, existem alguns canais de comunicação e apoio disponíveis para a população neste momento (atendimentos por telefone ou virtual). 

Temos em nós todos os recursos necessários para enfrentar esta situação! Nós damos conta!


28 de fevereiro de 2020

Em Abril - Grupo Adolescentes em Contato


Um grupo que convidará o seu filho a sair das suas interrupções para que possa se desenvolver. Montado com muito cuidado, para que seja um espaço leve e criativo, porem profundo e com muito suporte para que cada jovem possa ir trazendo e trabalhando suas dificuldades e dilemas.

A ideia é que seu filho adolescente possa ir se reencontrando – em seu emaranhado de confusões e conflitos - por estar saindo da infância sem ainda se entender direito como adolescente e toda a gama de novidade deste momento. Mudanças corporais e tudo que vem com isto trazendo um universo de novidades e temores; novas percepções e entendimentos das pessoas, da sociedade e mundo e todo os questionamentos associados a este novo olhar, que nem sempre é o mesmo da família; as pressões e resistências ao novo status adolescente e suas responsabilidades, escolhas; a confusão quanto ao desejo de liberdade e autonomia e ao mesmo tempo o medo e até pânico disso.

Estamos convidando o seu filho para que ele, junto conosco e com um grupo de outros com os dilemas semelhantes, reorganize o seu quebra-cabeças existencial! Consiga olhar para o que veio da infância e não serve mais, revise como está neste momento e possa se reorganizar em seu novo momento de vida, dando um especial significado aos seus novos tons de ser, a sua riqueza, o seu colorido único. Quando isso acontece o resultado são jovens confiantes em si e capazes no mundo.



Inicio: 24/04/2020  

Claudia Guglieri - Psisicóloga Maria Ester Vieira - Arte-terapeuta em formação.

Encontros quinzenais –  Sexta-feira, das 14:30 as 16:30. 
Sempre na segunda e na quarta sexta-feira do mês
Local:  Rua Felipe Neri 447/503 – Auxiliadora PoA
Investimento
Valor mensal incluindo dois encontros ao mês.
R$ 400,00 e  R$ 280,00 (para alunos de escola pública).

Inscrições e mais informações em: 
(51) 996757180 com Claudia Guglieri e (51) 999638932  com Maria Estes
Telefone e  WhatsApp

26 de fevereiro de 2020

Novos tempos, novas linguagens


Pois bem, tudo está mudando muito rápido e eu aqui vou acompanhando algumas destas mudanças. Hoje estou inaugurando uma nova fase, a do vídeo. É... quem diria? Ensaiando e me testando nesta forma de me comunicar com você e, quem sabe, plantando as minhas sementinhas do bem.


Espero que goste! E peço os devidos descontos para a iniciante!!! Seja gentil com o meu processo de aprendizagem kkk

O vídeo está no meu Instagram profissional: claudiapsicologa.gestalt e na minha página profissional do Facebook: claudiapsicologa.gestalt

Aprecie sem moderação, curta e me acompanhe se achar que vale! Estarei tentando falar de uma forma leve, fácil, mas com toda a propriedade que venho desenvolvendo. 

Abraço! 




Muita gente ainda não sabe para quem a terapia é indicada. Vamos ver algumas situações? 

A terapia é indicada para quem perdeu o seu sentido, não tem tão claro quem é hoje, para quem não reconhece suas vontades e necessidades, para quem se paralisa diante de medos, se interrompe em seus desejos e nas suas satisfações...

Veja alguns exemplos: 
Muitas vezes nós temos medo de mexer na nossa vida, pois acreditamos já ter conseguido muito, mas mesmo assim não estamos satisfeitos. 
Outras vezes temos medo de não saber o que fazer e seguir de um jeito ruim sempre. 

Ou temos medo de desagradar a aqueles que são próximos, de deixar de ser amada, respeitada, admirada... 
Terapia é indica nestas e outras inúmeras situações.


Se identificou? Então sim, a terapia pode ajudar você.

31 de dezembro de 2019

2020 vem aí! Veja as orientações da Astrologia Chinesa e da sabedoria oriental.

Todo troca de ano eu faço a leitura da Astrologia Chinesa para compartilhar com você, um convite a reflexão. Se você se interessa pela tema aproveite. 

E Feliz 2020!


Primeiro as reflexões sobre o ano vivido e logo abaixo as tradicionais orientações para 2020! 

Aos poucos nos despedimos do Porco de Terra!
2019 foi o ano do Porco de Terra, um porco a galope e instável, regido pela forma brincalhona, intuição e pelo desafio de voltar-se ao Nós.  Neste período cada discípulo foi intensamente desafiado a equilibrar suas polaridades. Isto, mais forte do que o normal,  por ser um período regido pelo elemento Terra. 
Por conta deste desafio não foi um ano fácil – equilibrar polaridades com tanta instabilidade é algo bastante difícil. Normalmente todos nós tentamos nos equilibrar agindo de forma a compensar faltas ou excessos e assim nos ajustamos criativamente para lidar com o que não é tão simples. Neste ultimo ano este foi o grande tema.  


Ano do Rato de Metal! 

Veja o que 2020 nos reserva e o que nos trará  de desafios e solicitações de aprendizados.

Estar sob a regência do Rato de Metal nos promete um ano mais regrado, com retorno a estabilidade – algo que as polaridades do ano anterior ainda não permitiam.  O Rato traz a influência da perseverança e da meticulosidade. Quem estiver com um projeto deve ter mais ânimo para sua continuidade e quem iniciar um novo projeto ou movimento, seja prático ou afetivo, tenderá a se manter neste processo. Vem aí um período Metal, este tende a favorecer o foco, a estabilidade e linearidade.

Porem este aspecto Metal tão valioso tem seu ponto negativo se vivido em excesso – lembre-se todo excesso é prejudicial – devemos então cuidar com a rigidez, o excesso de linearidade e da razão. Esteja atento para não abandonar a intuição e não se perder no excesso de ambição, que especialmente sobre a regência do Rato, nos leva a crescer mas pode fazer com que nos perdemos  em seu processo de ascensão, deixando as sutilezas e belezas da vida passarem despercebidas.

A colheita
O Elemento Metal é tradicionalmente conhecido pelo momento da colheita, uma colheita que vem com o tanto de dedicação ao investimento, seja ele de que gênero. Invista, esteja presente, mantenha-se regando que a colheita virá com certeza. Mas não esqueça de algo fundamental,  do conteúdo da sua plantação. O que isto quer dizer? Cuide do que estará plantando, analise bem e siga com firmeza.

A colheita do Metal estará valendo tanto para os negócios como para o amor. Atenção o que se iniciará tenderá a seguir.

Desta forma, não será um ano para casos passageiros e sim os duradouros, sejam quais forem. Nos relacionamentos amorosos se não desejar se apegar, tome cuidado o Rato não gosta de estar só e, em um ano Metal, o apego a continuidade é certa. Por outro lado, isto pode nos trazer algo positivo nestes dias de relações tão líquidas. Veremos.

Como sempre, esteja atento as suas tendências pessoais.

Se você tende a ser excessivamente meticuloso, detalhista, exigente consigo e com os outros fique de olho nestes seus aspectos para não se perder em seus próprios excessos e rigidezes.

Se tiver muita dificuldade de lidar com a estabilidade será bastante desafiado é ano de manutenção. Algumas pessoas poderão a sentir o tanto de Metal que vem ai como monótono outros mais “certinhos” e regrados estarão nas nuvens.

Se tende a ser  um tipo impulsivo, instável e pouco meticuloso e ambicioso, com certeza terá a oportunidade de se experimentar nestes aspectos que nos influenciarão no ano de Rato Metal.

Pois bem, é isso que teremos como influências neste próximo ciclo. Espero que possamos aprender com o que vem e saibamos lidar bem com uma energia mais estável. A estabilidade tem suas qualidades !


Em 2020 siga firme nos seus propósitos e tudo acontecera a seu tempo!!!

23 de dezembro de 2019

Festa natalina e seus desafios

A chegada do Papai Noel é um dos eventos mais esperados pelas crianças, a lenda do bom velhinho que carrega em seu trenó um saco cheio de presentes é encantadora e, se este senhor barbudo e até assustador, trouxer aquele brinquedo desejado o ano todo, isto será o máximo.

Para os cristãos o Natal comemora o nascimento de Jesus e os presentes representam a reverencia dos três magos ao menino que nascia para ajudar aos humanos a se reencontrar com seus sentidos espirituais.  Mas não esqueçamos de citar nisso tudo o que, para mim talvez seja o detalhe mais importante desta estória, o fato de que os três magos chegaram ao menino Jesus guiados pela luz que se refletia no céu em forma de estrela e indicava a sua localização. Um convite ao desenvolvimento da luz em todos nós.

Lindo não?  Sem dúvida uma inspiração que nos convida para a reflexão sobre as reais importâncias da festas natalinas. As vezes me parece que este espírito de luz passa um pouco despercebido, que a tendência a se deixar tomar pela ansiedade pré-natalina é gigante e a experiência de tensão e desentendimento toma a cena.

Mas o que acontece? Para algumas pessoas encontrar com a família pode não ser tão tranquilo, para outros a cobrança de perfeição não permite relaxar, outros ainda se prendem em acontecimentos que foram vividos como frustrantes, indesejados, inadequados ou algo do gênero.


Pois bem, família realmente pode não ser tão fácil como gostaríamos que fosse. E aqui não cabe discutir razões, certos, errados,  etc... A minha sugestão então é ver se é possível um ajuste criativo que ajude a lidar com as situações, este pode ser uma tentativa de revisão de importância ou uma atualização do sentimento, olhando sobre a ótica do presente da pessoa que você é hoje.
Estamos falando aqui do Natal, o evento de maior luz, paz e harmonia do ano, lembra? Talvez por isso o esforço.

É, mas eu sei... a preparação para o evento de luz pode ser dureza para alguns de nós. Se for assim, o desafio é se inspirar, se desapegar do ruim  e tentar olhar para os pequenos gestos de atenção vindos daqueles que lhe esperam com carinho ou com o jeito que conseguem mostrar o seus carinho. Quem sabe deste olhar pode vir o desfrute.

As vezes estes gestos aparecem em uma abraço mais apertado, um olhar afetuoso inesperado ou já conhecido, um presentinho simples, mas comprado pensando em agradar, um prato preparado sem o tempero que você não come, uma bebida que só você gosta, tente prestar atenção nisto, nas pequenas coisas.

Quanto ao Natal acho que a beleza do evento depende de um pouco de disposição para vivermos o evento com certa abertura para a luz, não esquecendo do seu real significado.

1 de setembro de 2019

Pensar é transgredir - de Lya Luft.

Não lembro em que momento percebi que viver deveria ser uma permanente reinvenção de nós mesmos – para não morrermos soterrados na poeira da banalidade embora pareça que ainda estamos vivos.

Mas compreendi, num lampejo: então é isso, então é assim. Apesar dos medos, convém não ser demais fútil nem demais acomodada. Algumas vezes é preciso pegar o touro pelos chifres, mergulhar para depois ver o que acontece: porque a vida não tem de ser sorvida como uma taça que se esvazia, mas como o jarro que se renova a cada gole bebido.
Para reinventar-se é preciso pensar: isso aprendi muito cedo. Apalpar, no nevoeiro de quem somos, algo que pareça uma essência: isso, mais ou menos, sou eu. Isso é o que eu queria ser, acredito ser, quero me tornar ou já fui.
Muita inquietação por baixo das águas do cotidiano. Mais cômodo seria ficar com o travesseiro sobre a cabeça e adotar o lema reconfortante: “Parar pra pensar, nem pensar!”
O problema é que quando menos se espera ele chega, o sorrateiro pensamento que nos faz parar. Pode ser no meio do shopping, no trânsito, na frente da tevê ou do computador.
Simplesmente escovando os dentes. Ou na hora da droga, do sexo sem afeto, do desafeto, do rancor, da lamúria, da hesitação e da resignação. Sem ter programado, a gente pára pra pensar.
Pode ser um susto: como espiar de um berçário confortável para um corredor com mil possibilidades. Cada porta, uma escolha. Muitas vão se abrir para um nada ou para algum absurdo. Outras, para um jardim de promessas. Alguma, para a noite além da cerca. Hora de tirar os disfarces, aposentar as máscaras e reavaliar: reavaliar-se.
Pensar pede audácia, pois refletir é transgredir a ordem do superficial que nos pressiona tanto. Somos demasiado frívolos: buscamos o atordoamento das mil distrações, corremos de um lado a outro achando que somos grandes cumpridores de tarefas.
Quando o primeiro dever seria de vez em quando parar e analisar: quem a gente é, o que fazemos com a nossa vida, o tempo, os amores. E com as obrigações também, é claro, pois não temos sempre cinco anos de idade, quando a prioridade absoluta é dormir abraçado no urso de pelúcia e prosseguir, no sono, o sonho que afinal nessa idade ainda é a vida.
Mas pensar não é apenas a ameaça de enfrentar a alma no espelho: é sair para as varandas de si mesmo e olhar em torno, e quem sabe finalmente respirar.
Compreender: somos inquilinos de algo bem maior do que o nosso pequeno segredo individual. É o poderoso ciclo da existência. Nele todos os desastres e toda a beleza têm significado como fases de um processo.
Se nos escondermos num canto escuro abafando nossos questionamentos, não escutaremos o rumor do vento nas árvores do mundo. Nem compreenderemos que o prato das inevitáveis perdas pode pesar menos do que o dos possíveis ganhos.
Os ganhos ou os danos dependem da perspectiva e possibilidades de quem vai tecendo a sua história. O mundo em si não tem sentido sem o nosso olhar que lhe atribui identidade, sem o nosso pensamento que lhe confere alguma ordem.
Viver, como talvez morrer, é recriar-se: a vida não está aí apenas para ser suportada nem vivida, mas elaborada. Eventualmente reprogramada. Conscientemente executada. Muitas vezes, ousada.
Parece fácil: “escrever a respeito das coisas é fácil”, já me disseram. Eu sei. Mas não é preciso realizar nada de espetacular, nem desejar nada excepcional. Não é preciso nem mesmo ser brilhante, importante, admirado.
Para viver de verdade, pensando e repensando a existência, para que ela valha a pena, é preciso ser amado; e amar; e amar-se. Ter esperança; qualquer esperança. Questionar o que nos é imposto, sem rebeldias insensatas mas sem demasiada sensatez. Saborear o bom, mas aqui e ali enfrentar o ruim. Suportar sem se submeter, aceitar sem se humilhar, entregar-se sem renunciar a si mesmo e à possível dignidade.
Sonhar, porque se desistimos disso apaga-se a última claridade e nada mais valerá a pena. Escapar, na liberdade do pensamento, desse espírito de manada que trabalha obstinadamente para nos enquadrar, seja lá no que for.
E que o mínimo que a gente faça seja, a cada momento, o melhor que afinal se conseguiu fazer.
 ‘Pensar é transgredir”, de Lya Luft, do livro ‘Pensar é transgredir’. Rio de Janeiro: Editora Record,  2004
Saiba mais sobre Lya Luft:

18 de agosto de 2019

"Pode deixar que eu resolvo!" Retroflexão e contemporaneidade.


Olhem que interessante esta reflexão sobre o pacto secreto, que muitos de nós fazem, para lidar com o vazio existencial vindo de faltas experimentadas em suas histórias. 

Este texto faz parte de estudos e compreensões sobre mecanismos de interrupções de contatos saudáveis, conceitos básicos de Gestalt-terapia.  O termo retroflexão se refere a uma parte do ciclo de contato saudável e aqui aparece em sua forma interrompida. 

Apesar dos termos técnicos vale a pena a leitura sobre o mundo contemporâneo que se oferece a nós e tenta nos fisgar para um tipo de movimento que nem sempre é saudável.

Se você se pega com frequência repetindo a frase abaixo a ponto de se exaurir e se ressentir,  sugiro que dedique um tempinho a leitura. Quem sabe ela pode lhe ajudar. 


"Pode deixar que eu resolvo!"
Retroflexão e contemporaneidade. 
Mônica Botelho Alvim.

O Mundo Contemporâneo, Tempo-Espaço da Vida


Nesse ponto podemos desviar nosso olhar para o mundo contemporâneo para, a partir de uma perspectiva de campo, buscar identificar algumas das principais forças presentes e desenhar um pequeno esboço de nossa compreensão.


Marcado por um racionalismo arraigado, pela tecnocracia e pelo abandono da experiência e da sensibilidade, o mundo contemporâneo está atravessado por alguns vetores - importantes para a nossa discussão -, que vêm sendo debatidos por autores contemporâneos da filosofia e sociologia como, por exemplo, Zigmunt Bauman, Richard Sennett, Stuart Hall e Guy Debord, pesquisadores com obras extensas que se dedicam à temática da contemporaneidade. Nossa leitura sublinha os temas da supervalorização da imagem e da aparência, busca de eficácia e obsessão pelo fazer de modo robotizado, consumismo, massificação e falta de espaço para a diferença.


Uma das temáticas mais freqüentemente discutidas pelos teóricos, ao refletir sobre a contemporaneidade, é o status da imagem. Interessa-nos aqui destacar o fato de que, nos dias de hoje, há uma supervalorização da imagem e da aparência que gera nas pessoas um movimento frenético em direção à conquista e à adoção de valores socialmente desejáveis.

A vida passa a ser marcada pela exterioridade e pela ilusão. Essa é a essência da sociedade do espetáculo de Guy Debord. Nosso tempo é marcado pela preferência da imagem em detrimento do original e pela preferência da aparência ao ser (Alvim, 2006, p. 13).

O cerne da obra de Debord, no que tange à importância da imagem, está expresso no primeiro aforismo da paráfrase brasileira do livro "A sociedade do espetáculo": "Toda a vida das sociedades nas quais reinam as condições modernas de produção se anuncia como uma imensa acumulação de espetáculos. Tudo o que era diretamente vivido se esvai na fumaça da representação" (Debord, 2003, p. 13).


A obsessão pelo fazer - visando conquistar sempre mais - está orientada pela busca da eficácia, altamente valorizada pela sociedade, e do reconhecimento a ela associado. O trabalho - cujo cenário é configurado por exigência de produtividade, competitividade, individualismo e auto-suficiência - assume uma centralidade cada vez maior na vida das pessoas. Não há coletividade, mas isolamento do meio e elas se tornam algozes de si próprios, se obrigando a serem cada vez mais, melhores que o outro e sozinhas. Nessa direção, Alvim (2006, p. 127) discute o panorama contemporâneo do trabalho e afirma:

Passa-se a agir de modo retroflector. A retroflexão pode ser definida como uma interrupção do contato com o mundo, onde o indivíduo se divide e age manipulando a si próprio como se fosse o meio. O controle, que antes era exercido por outro, se internaliza. O poder disciplinar é produto das instituições coletivas, mas elas agem individualizando, isolando e vigiando o sujeito individual (Hall, 2003, p. 43). "Eu" passo a ser o meu próprio capataz, que "me" obrigo a correr, trabalhar, produzir, brilhar. Sinto-me necessário, importante, insubstituível, poderoso, independente. E sofro: depressão, DORT (Distúrbios Osteo-musculares Relacionados ao Trabalho), stress.

O mundo contemporâneo, ao mesmo tempo em que demanda esforço individual, empenho no trabalho e criatividade, valor proferido como "o grande diferencial" pela mídia especializada em gestão de recursos humanos como um negócio, não oferece espaço para as diferenças, para a ação espontânea e o exercício da agressividade. Vivemos uma espécie de pasteurização, um processo de massificação que nos iguala, transformando-nos em objetos que podem também ser consumidos. O diferente, errante, ambíguo, primitivo, sensual, representa ameaça ao instituído, sendo colocado na categoria do anormal. Num cenário competitivo e refratário às diferenças, não há acolhimento, não há espaço público em qualquer grau para a manifestação de fraquezas, de impossibilidades, tampouco de impotência, o que contribui para a geração nas pessoas de um movimento de isolamento e contenção que se reflete no corpo: adoecimento e sofrimento.


Ao nos sentirmos amedrontados diante de um mundo que não nos oferece espaço para ser com nossas diferenças, recuamos e evitamos o conflito, ao qual pacificamos prematuramente. Passamos a compartilhar exatamente os mesmos valores já instituídos. Nossa dimensão criativa, espontânea, genuína fenece aos poucos em nome da homogeneidade. O mundo, a cultura, a sociedade - representados por algumas figuras simbólicas de autoridade - funcionam como as referências paternas e maternas da criança e terminam introjetados.


Resta-nos competir e nutrirmo-nos das pequenas vitórias nas batalhas triviais do cotidiano, que assumem muitas vezes o centro de nossa existência vazia e dividida, anestesiados, sem corpo e sensibilidade. Alimentando patologias sociais como o isolamento e a violência, seguimos cada vez menos solidários e cada vez mais solitários.


O consumo se constitui como uma espécie de alternativa para a tão almejada "felicidade", como uma possibilidade de fazer parte de um coletivo - o da moda. Na sociedade atual, o consumo é um dos fenômenos de maior importância. Produtos e serviços têm significados e importância que transcendem sua utilidade e valor comercial, carregando consigo a capacidade de transmitir e comunicar significados culturais.

Por fim, o consumidor, último locus de significado, faz uso dos significados culturais a fim de se autodefinir socialmente. Através dos objetos e produtos é que o indivíduo adquire percepção da sua própria vida, já que a utilização ou exibição de um produto contribui para a construção da personalidade (D'Angelo, 2004, p. 31).

D'Angelo (2004) relaciona identidade e consumo quando faz referência aos estudos de Belk (2000, citado por D'Angelo, 2004, p. 32): "consideramos nossos pertences como partes de nós. Nós somos o que temos e possuímos". A partir de tal ponto de vista, nosso valor também é dado pela mercadoria que consumimos, tanto aos nossos olhos, quanto aos olhos da sociedade. Por isso também é importante que nossos pertences sejam aparentes e até exibidos a outrem.


Vivemos numa sociedade do espetáculo, assim denominada por Guy Debord (2003), que nos fala de uma degradação do ser em busca do ter, e atual substituição do ter pelo parecer. Até mesmo a mercadoria consumida perde sua função última, e passa a ser instrumento do espetáculo. A sociedade "espetaculista" confirma a ilusão de que é preciso presentear-se para ter satisfação e leva essa ilusão um passo além, convencendo-nos da importância de seus bens frente ao poderio social.


O poder fictício do ter e parecer distancia o homem do contato com o mundo apreensível e com outros homens, constituindo-se em elemento alienador que bloqueia toda a interação sincera.

Do automóvel à televisão, todos os bens selecionados pelo sistema espetacular são também as suas armas para o reforço constante das condições de isolamento das "multidões solitárias". O espetáculo reencontra cada vez mais concretamente os seus próprios pressupostos (Debord, 2003, p. 18).

As relações passam a ser mediatizadas por imagens construídas a partir do consumo, seja de entretenimento, informação ou mercadoria. Não vemos o outro e nem somos vistos pelo outro, enxergamos os pertences um do outro e nos relacionamos a partir desse ponto.


A pessoa que retroflete é confirmada em sua solidão pelo próprio comportamento do consumo nos moldes do espetáculo. O consumismo e a solidão são padrões que se retroalimentam, aprisionando-a a crenças introjetadas.


De fato, tal mundo convida para uma vivência fundada na evitação e na ilusão. A ilusão da imagem e da representação, de um espetáculo que se assiste com distância, que compomos sem perceber. Espectadores, atores, consumidores.


O espectador/consumidor - de modo retroflector - passa a comprar para si "o melhor que o dinheiro pode proporcionar". Deseja adquirir os melhores carros, as roupas mais caras, freqüenta os restaurantes mais finos. Essa atitude representa, de um lado, afirmação de independência, confirmando que ele é capaz de produzir e vencer com seu próprio esforço; a pessoa valorizada e admirada é aquela que saiu do nada e conquistou fama e fortuna sozinha - pelos próprios métodos e méritos. A sociedade contemporânea "exige", por exemplo, que uma pessoa na faixa de trinta anos já tenha casa própria, com carro na garagem, um emprego bem remunerado, prestígio, sucesso pessoal e profissional. A exigência reflete a cultura do ter. Por outro lado, é também a confirmação de sua condição solitária e do muro que a separa do contato legítimo pelo qual, de certa forma, anseia. E que envolve sensibilidade, inventividade, risco e diferença.


Aceitar o convite da cultura do ter pode parecer um caminho fácil ou cômodo. Pode significar um disfarce para a solidão a que ser inventivo pode nos levar. A aventura do ser implica em transgredir o status quo, aventura que pode nos fazer sentirmo-nos diferentes e sós, como afirmaram Perls et al. (1997).

A sociedade capitalista e competitiva que forja um tipo de individualismo, está cheia de slogans para serem introjetados: "faça você mesmo"; "olho no concorrente", "olho por olho, dente por dente"; "toma lá, dá cá"; "bateu, levou". Tais slogans são sintomas de desajuste social, materialismo e violência. Assim, a retroflexão pode ser considerada um sintoma do modelo de funcionamento do sistema atual.


Por analogia, diríamos que o mito de Fausto é atualizado na sociedade contemporânea, na medida em que a busca por sucesso e fama tem sido uma obsessão do indivíduo, condenando-o a vagar pelo mundo do trabalho vendendo sua alma na competição exaustiva do mercado.

O drama goethiano sempre ofereceu às diferentes épocas o modelo literário para a elucidação da respectiva auto-imagem mediante um questionamento tipicamente fáustico: quão longe podemos ir na satisfação de nossas necessidades? Haveria um limite à nossa aspiração por felicidade, riqueza e domínio? Caso haja esse limite, onde começaria o pacto demoníaco? (Jaeger, 2007, p. 90).

Ao aceitar o convite da sociedade do espetáculo, o homem pós-moderno também realiza a mesma trajetória fáustica. Faz seu pacto secreto com a entidade diabólica do consumismo, em busca dos prazeres da vida individualista e materialista, porém, entediado de si mesmo. A condição de ser finito, imperfeito e solitário não satisfaz o fausto pós-moderno que, simbolicamente, venderá a alma para apossar-se de valores individualistas, sacrificando a sua "alma": o SER, aos padrões do TER.


O pacto secreto, mais que com o consumismo, é com a imagem. "Reforçadores sociais como prestígio, ascensão profissional, conquista de cargos disputados, premiações, que atuam nos sentimentos de orgulho e vaidade pessoal" (Alvim, 2006, p. 13) conduzem a um investimento maciço de energia no trabalho, na luta para atender as expectativas sociais. Debord (2003) ressalta a questão da imagem, afirmando que quando o mundo transforma- se em imagens, elas se tornam seres reais que motivam um comportamento hipnótico. Para ele, "o espetáculo é o sonho mau da sociedade moderna aprisionada que só expressa afinal o seu desejo de dormir" (Debord, 2003, p. 13).


Atormentadas e hipnotizadas pelo espetáculo do qual fazem parte, as pessoas chegam a nossos consultórios. O espaço para a expressão e de acolhimento da diferença, tal como preconiza a Gestalt-terapia, - este sim - pode oferecer a segurança necessária para o resgate da capacidade inventiva e da agressividade que transforma.


Nesse espaço, o Ser pode se desvelar quando a pessoa pode ser olhada e acolhida, evento raro na sociedade espetacular. Tal olhar, quando sentido como aceitação é capaz de diminuir a sensação de inadequação e solidão frente suas próprias possibilidades criativas. Dessa forma, primeiramente no consultório, na relação de segurança entre cliente e terapeuta; e, talvez mais tarde no mundo, a pessoa permita-se iniciar a expressão de sua forma singular e criativa de estar no mundo.


Ao deparar-se com suas possibilidades, em situação de real acolhimento no qual a pessoa possa sentir e acreditar que não corre o risco ser novamente derrotada/ humilhada é possível descansar da implacável tarefa da autoconquista e experimentar o labor da criação. A aceitação do cliente de sua totalidade, incluindo sua força e fragilidade, sua criatividade e diferença, são grandes e importantes passos na mudança do Ter para o Ser, da retroflexão para o contato legítimo e da transformação do campo e da cultura.

Leia todo o artigo em: 
http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1809-68672010000200008