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Recuperados ou sobreviventes?





Cada vez mais tenho recebido pessoas muito afetadas por estarem vivendo a “síndrome” pós covid-19. Com estas pessoas tenho acompanhado diferentes percursos que buscam retomar suas vidas lidando com o que ficou. Na maioria das vezes, o covid vai e as pessoas ficam se recuperando do que foi afetado, permanecem em tratamento. Podem ficar lesões físicas, cognitivas, emocionais, comportamentais... Sem falar de tudo que pode vir a partir do medo da fragilidade e da finitude.


Nos acompanhamentos em que as pessoas tiveram uma experiência muito forte, seja por agravamentos hospitalares, por permanecerem por muito tempo com sintomas importantes ou perdas relacionadas ao tipo de adoecimento que tiveram, vejo que estas passam por um processo significativo emocional. Isso acaba pedindo revisões de questões importantes das suas vidas, para muitas pessoas tornando as revisões necessárias para continuarem bem.


Quando vivemos uma situação muito forte, seja ela qual for, é muito provável que seja difícil continuarmos como vínhamos, agindo do jeito que agíamos antes. Então nos percebemos tendo que mudar, este “ter que” sempre é relativo é claro, mas é como se não tivéssemos escolha... Por exemplo: ficar sem olfato ou paladar por um longo período e ter que aprender a lidar com a imensa perda que isso pode significar. É difícil mesmo! Mas nesta situação será necessário mudar algumas coisas, caso contrário a perda da vitalidade e o adoecimento pode ser muito maior. Entendem do que falo? É necessário se ajustar, para viver bem novamente.


Na sequência trago a fala do Pedro, ele traz a sua contribuição a partir da experiência que teve e está tendo. Um relato pessoal corajoso, que nos convida a pensarmos sobre o que tem sido, para muitas pessoas, passar pelo Covid-19. Vale a pena ler, especialmente se você está aí tendo que lidar com o que ficou para ainda ser tratado.


Por: Pedro Fricla


Um ano de pandemia. Segui, ao máximo do meu alcance, o distanciamento, o uso de máscara, as medidas de higiene. Jamais duvidei que isso é o que deveria ser feito. Sou jovem, não tenho comorbidades. Mesmo assim, em algum momento de descuido, durante o mês de fevereiro de 2021, contraí o vírus. Havia chegado a minha vez de experienciar a covid-19. Diante do quadro avassalador que estamos vivendo, especialmente no Brasil, posso dizer que fui um privilegiado. Tive um quadro leve, não precisei ser hospitalizado. Tive medo? É evidente. Ter uma doença cujo curso é imprevisível e não há tratamento, é uma experiência assustadora. Teria muito mais medo se tivesse precisado ir para um hospital ou precisar de oxigênio ou ainda ser entubado. Passadas as duas semanas do ciclo do vírus, tudo indicava que eu poderia ser incluído na famigerada lista dos “recuperados”. Ao meu ver, essa lista deveria se chamar da lista dos sobreviventes. Inúmeras pesquisas apontam que as pessoas que tiveram covid-19 apresentam ao menos um dos sintomas da doença por um longo período após a fase aguda da infecção. A síndrome pós-covid. O cenário, então, não é apenas de um número macabro de vidas perdidas, como teremos uma legião de sequelados. E, dada a constelação de sintomas que essa doença é capaz de provocar, estamos diante da possibilidade de uma parcela significativa da população enfrentar problemas de saúde crônicos. Pessoas antes saudáveis, passam a conviver com uma diminuição considerável da sua qualidade de vida. Dentre as sequelas da covid, talvez eu esteja experienciando uma das quais pareça ser a menos preocupante da perspectiva da ameaça direta à vida de alguém. No meu 3º dia de sintomas, perdi o olfato e o paladar. Hoje, 46 dias após, recuperei apenas 20% dessa experiência sensorial. Ainda que do ponto de vista clínico essa perda seja preocupante por apresentar perigos de não ser capaz de perceber um incêndio iniciando, vazamento de gás ou contato com algum produto tóxico; da perspectiva psicológica o impacto é considerável. A sua relação com o mundo é alterada bruscamente. O mundo experienciado não parece ser mais o mesmo, tampouco a consciência de pertencimento ao mundo se sustenta intacta. Vive-se uma alienação. A experiência das coisas se torna fragmentada. A relação com a comida muda drasticamente. Comer não é mais uma fonte de prazer. Comer é frustrante. Comer é apenas nutrição. O que, por sua vez, está associado a quadros de ansiedade, depressão e distúrbios alimentares. Os estudos observacionais das pessoas que manifestaram essa perda sensória, indicam que a grande maioria recuperará a sua capacidade. Essa é a boa notícia. Um pequeno número, contudo, permanecerá com essa perda por um longo período e possivelmente permanentemente. Nesse momento, eu não sei de qual grupo eu farei parte. Isso é bastante assustador. Sinto que sobrevivi a covid-19, mas ela me deixou, espero que temporariamente, mutilado.


Sigam as orientações. Máscara. Lavar as mãos. Álcool. Distanciamento. Já temos vacina. Eu tive covid-19, você não quer passar por isso.




Chegando aqui me vem a pergunta que logo quero explorar:

E então o que vamos fazer, seremos sobreviventes ou vamos viver? Penso que existe uma diferença nisso, quero refletir com vocês. Me acompanhem.

Gratidão pela confiança e pela ajuda Pedro!



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