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"Pode deixar que eu resolvo!" Retroflexão e contemporaneidade.

Olhem que interessante esta reflexão sobre o pacto secreto, que muitos de nós fazem, para lidar com o vazio existencial vindo de faltas experimentadas em suas histórias. 

Este texto faz parte de estudos e compreensões sobre mecanismos de interrupções de contatos saudáveis, conceitos básicos de Gestalt-terapia.  O termo retroflexão se refere a uma parte do ciclo de contato saudável e aqui aparece em sua forma interrompida. 

Apesar dos termos técnicos vale a pena a leitura sobre o mundo contemporâneo que se oferece a nós e tenta nos fisgar para um tipo de movimento que nem sempre é saudável. Se você se pega com frequência repetindo a frase abaixo a ponto de se exaurir e se ressentir,  sugiro que dedique um tempinho a leitura. Quem sabe ela pode lhe ajudar. 

"Pode deixar que eu resolvo!"

Retroflexão e contemporaneidade. 

Mônica Botelho Alvim.


O Mundo Contemporâneo, Tempo-Espaço da Vida

Nesse ponto podemos desviar nosso olhar para o mundo contemporâneo para, a partir de uma perspectiva de campo, buscar identificar algumas das principais forças presentes e desenhar um pequeno esboço de nossa compreensão. Marcado por um racionalismo arraigado, pela tecnocracia e pelo abandono da experiência e da sensibilidade, o mundo contemporâneo está atravessado por alguns vetores - importantes para a nossa discussão -, que vêm sendo debatidos por autores contemporâneos da filosofia e sociologia como, por exemplo, Zigmunt Bauman, Richard Sennett, Stuart Hall e Guy Debord, pesquisadores com obras extensas que se dedicam à temática da contemporaneidade. Nossa leitura sublinha os temas da supervalorização da imagem e da aparência, busca de eficácia e obsessão pelo fazer de modo robotizado, consumismo, massificação e falta de espaço para a diferença. Uma das temáticas mais freqüentemente discutidas pelos teóricos, ao refletir sobre a contemporaneidade, é o status da imagem. Interessa-nos aqui destacar o fato de que, nos dias de hoje, há uma supervalorização da imagem e da aparência que gera nas pessoas um movimento frenético em direção à conquista e à adoção de valores socialmente desejáveis. A vida passa a ser marcada pela exterioridade e pela ilusão. Essa é a essência da sociedade do espetáculo de Guy Debord. Nosso tempo é marcado pela preferência da imagem em detrimento do original e pela preferência da aparência ao ser (Alvim, 2006, p. 13). O cerne da obra de Debord, no que tange à importância da imagem, está expresso no primeiro aforismo da paráfrase brasileira do livro "A sociedade do espetáculo": "Toda a vida das sociedades nas quais reinam as condições modernas de produção se anuncia como uma imensa acumulação de espetáculos. Tudo o que era diretamente vivido se esvai na fumaça da representação" (Debord, 2003, p. 13). A obsessão pelo fazer - visando conquistar sempre mais - está orientada pela busca da eficácia, altamente valorizada pela sociedade, e do reconhecimento a ela associado. O trabalho - cujo cenário é configurado por exigência de produtividade, competitividade, individualismo e auto-suficiência - assume uma centralidade cada vez maior na vida das pessoas. Não há coletividade, mas isolamento do meio e elas se tornam algozes de si próprios, se obrigando a serem cada vez mais, melhores que o outro e sozinhas. Nessa direção, Alvim (2006, p. 127) discute o panorama contemporâneo do trabalho e afirma: Passa-se a agir de modo retroflector. A retroflexão pode ser definida como uma interrupção do contato com o mundo, onde o indivíduo se divide e age manipulando a si próprio como se fosse o meio. O controle, que antes era exercido por outro, se internaliza. O poder disciplinar é produto das instituições coletivas, mas elas agem individualizando, isolando e vigiando o sujeito individual (Hall, 2003, p. 43). "Eu" passo a ser o meu próprio capataz, que "me" obrigo a correr, trabalhar, produzir, brilhar. Sinto-me necessário, importante, insubstituível, poderoso, independente. E sofro: depressão, DORT (Distúrbios Osteo-musculares Relacionados ao Trabalho), stress. O mundo contemporâneo, ao mesmo tempo em que demanda esforço individual, empenho no trabalho e criatividade, valor proferido como "o grande diferencial" pela mídia especializada em gestão de recursos humanos como um negócio, não oferece espaço para as diferenças, para a ação espontânea e o exercício da agressividade. Vivemos uma espécie de pasteurização, um processo de massificação que nos iguala, transformando-nos em objetos que podem também ser consumidos. O diferente, errante, ambíguo, primitivo, sensual, representa ameaça ao instituído, sendo colocado na categoria do anormal. Num cenário competitivo e refratário às diferenças, não há acolhimento, não há espaço público em qualquer grau para a manifestação de fraquezas, de impossibilidades, tampouco de impotência, o que contribui para a geração nas pessoas de um movimento de isolamento e contenção que se reflete no corpo: adoecimento e sofrimento. Ao nos sentirmos amedrontados diante de um mundo que não nos oferece espaço para ser com nossas diferenças, recuamos e evitamos o conflito, ao qual pacificamos prematuramente. Passamos a compartilhar exatamente os mesmos valores já instituídos. Nossa dimensão criativa, espontânea, genuína fenece aos poucos em nome da homogeneidade. O mundo, a cultura, a sociedade - representados por algumas figuras simbólicas de autoridade - funcionam como as referências paternas e maternas da criança e terminam introjetados. Resta-nos competir e nutrirmo-nos das pequenas vitórias nas batalhas triviais do cotidiano, que assumem muitas vezes o centro de nossa existência vazia e dividida, anestesiados, sem corpo e sensibilidade. Alimentando patologias sociais como o isolamento e a violência, seguimos cada vez menos solidários e cada vez mais solitários. O consumo se constitui como uma espécie de alternativa para a tão almejada "felicidade", como uma possibilidade de fazer parte de um coletivo - o da moda. Na sociedade atual, o consumo é um dos fenômenos de maior importância. Produtos e serviços têm significados e importância que transcendem sua utilidade e valor comercial, carregando consigo a capacidade de transmitir e comunicar significados culturais. Por fim, o consumidor, último locus de significado, faz uso dos significados culturais a fim de se autodefinir socialmente. Através dos objetos e produtos é que o indivíduo adquire percepção da sua própria vida, já que a utilização ou exibição de um produto contribui para a construção da personalidade (D'Angelo, 2004, p. 31). D'Angelo (2004) relaciona identidade e consumo quando faz referência aos estudos de Belk (2000, citado por D'Angelo, 2004, p. 32): "consideramos nossos pertences como partes de nós. Nós somos o que temos e possuímos". A partir de tal ponto de vista, nosso valor também é dado pela mercadoria que consumimos, tanto aos nossos olhos, quanto aos olhos da sociedade. Por isso também é importante que nossos pertences sejam aparentes e até exibidos a outrem. Vivemos numa sociedade do espetáculo, assim denominada por Guy Debord (2003), que nos fala de uma degradação do ser em busca do ter, e atual substituição do ter pelo parecer. Até mesmo a mercadoria consumida perde sua função última, e passa a ser instrumento do espetáculo. A sociedade "espetaculista" confirma a ilusão de que é preciso presentear-se para ter satisfação e leva essa ilusão um passo além, convencendo-nos da importância de seus bens frente ao poderio social. O poder fictício do ter e parecer distancia o homem do contato com o mundo apreensível e com outros homens, constituindo-se em elemento alienador que bloqueia toda a interação sincera. Do automóvel à televisão, todos os bens selecionados pelo sistema espetacular são também as suas armas para o reforço constante das condições de isolamento das "multidões solitárias". O espetáculo reencontra cada vez mais concretamente os seus próprios pressupostos (Debord, 2003, p. 18). As relações passam a ser mediatizadas por imagens construídas a partir do consumo, seja de entretenimento, informação ou mercadoria. Não vemos o outro e nem somos vistos pelo outro, enxergamos os pertences um do outro e nos relacionamos a partir desse ponto. A pessoa que retroflete é confirmada em sua solidão pelo próprio comportamento do consumo nos moldes do espetáculo. O consumismo e a solidão são padrões que se retroalimentam, aprisionando-a a crenças introjetadas. De fato, tal mundo convida para uma vivência fundada na evitação e na ilusão. A ilusão da imagem e da representação, de um espetáculo que se assiste com distância, que compomos sem perceber. Espectadores, atores, consumidores. O espectador/consumidor - de modo retroflector - passa a comprar para si "o melhor que o dinheiro pode proporcionar". Deseja adquirir os melhores carros, as roupas mais caras, freqüenta os restaurantes mais finos. Essa atitude representa, de um lado, afirmação de independência, confirmando que ele é capaz de produzir e vencer com seu próprio esforço; a pessoa valorizada e admirada é aquela que saiu do nada e conquistou fama e fortuna sozinha - pelos próprios métodos e méritos. A sociedade contemporânea "exige", por exemplo, que uma pessoa na faixa de trinta anos já tenha casa própria, com carro na garagem, um emprego bem remunerado, prestígio, sucesso pessoal e profissional. A exigência reflete a cultura do ter. Por outro lado, é também a confirmação de sua condição solitária e do muro que a separa do contato legítimo pelo qual, de certa forma, anseia. E que envolve sensibilidade, inventividade, risco e diferença. Aceitar o convite da cultura do ter pode parecer um caminho fácil ou cômodo. Pode significar um disfarce para a solidão a que ser inventivo pode nos levar. A aventura do ser implica em transgredir o status quo, aventura que pode nos fazer sentirmo-nos diferentes e sós, como afirmaram Perls et al. (1997). A sociedade capitalista e competitiva que forja um tipo de individualismo, está cheia de slogans para serem introjetados: "faça você mesmo"; "olho no concorrente", "olho por olho, dente por dente"; "toma lá, dá cá"; "bateu, levou". Tais slogans são sintomas de desajuste social, materialismo e violência. Assim, a retroflexão pode ser considerada um sintoma do modelo de funcionamento do sistema atual. Por analogia, diríamos que o mito de Fausto é atualizado na sociedade contemporânea, na medida em que a busca por sucesso e fama tem sido uma obsessão do indivíduo, condenando-o a vagar pelo mundo do trabalho vendendo sua alma na competição exaustiva do mercado. O drama goethiano sempre ofereceu às diferentes épocas o modelo literário para a elucidação da respectiva auto-imagem mediante um questionamento tipicamente fáustico: quão longe podemos ir na satisfação de nossas necessidades? Haveria um limite à nossa aspiração por felicidade, riqueza e domínio? Caso haja esse limite, onde começaria o pacto demoníaco? (Jaeger, 2007, p. 90). Ao aceitar o convite da sociedade do espetáculo, o homem pós-moderno também realiza a mesma trajetória fáustica. Faz seu pacto secreto com a entidade diabólica do consumismo, em busca dos prazeres da vida individualista e materialista, porém, entediado de si mesmo. A condição de ser finito, imperfeito e solitário não satisfaz o fausto pós-moderno que, simbolicamente, venderá a alma para apossar-se de valores individualistas, sacrificando a sua "alma": o SER, aos padrões do TER. O pacto secreto, mais que com o consumismo, é com a imagem. "Reforçadores sociais como prestígio, ascensão profissional, conquista de cargos disputados, premiações, que atuam nos sentimentos de orgulho e vaidade pessoal" (Alvim, 2006, p. 13) conduzem a um investimento maciço de energia no trabalho, na luta para atender as expectativas sociais. Debord (2003) ressalta a questão da imagem, afirmando que quando o mundo transforma- se em imagens, elas se tornam seres reais que motivam um comportamento hipnótico. Para ele, "o espetáculo é o sonho mau da sociedade moderna aprisionada que só expressa afinal o seu desejo de dormir" (Debord, 2003, p. 13). Atormentadas e hipnotizadas pelo espetáculo do qual fazem parte, as pessoas chegam a nossos consultórios. O espaço para a expressão e de acolhimento da diferença, tal como preconiza a Gestalt-terapia, - este sim - pode oferecer a segurança necessária para o resgate da capacidade inventiva e da agressividade que transforma. Nesse espaço, o Ser pode se desvelar quando a pessoa pode ser olhada e acolhida, evento raro na sociedade espetacular. Tal olhar, quando sentido como aceitação é capaz de diminuir a sensação de inadequação e solidão frente suas próprias possibilidades criativas. Dessa forma, primeiramente no consultório, na relação de segurança entre cliente e terapeuta; e, talvez mais tarde no mundo, a pessoa permita-se iniciar a expressão de sua forma singular e criativa de estar no mundo. Ao deparar-se com suas possibilidades, em situação de real acolhimento no qual a pessoa possa sentir e acreditar que não corre o risco ser novamente derrotada/ humilhada é possível descansar da implacável tarefa da autoconquista e experimentar o labor da criação. A aceitação do cliente de sua totalidade, incluindo sua força e fragilidade, sua criatividade e diferença, são grandes e importantes passos na mudança do Ter para o Ser, da retroflexão para o contato legítimo e da transformação do campo e da cultura. Leia todo o artigo em:  http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1809-68672010000200008

 

©2020 por Kátia Debus.