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Como lidar com o medo em tempos de crise - Fundação Elizabeth Kubler-Ross

Compartilho com vocês a transcrição de uma live, que a Fundação Elizabeth Kubler-Ross realizou com o intuito de ajudar a todos nós nestes dias de crise. Quem transcreveu foi a colega Psicóloga e Gestalt-terapeuta, Fernanda Zanette de Oliveira. Uma querida amiga de Criciúma – SC.


Vale a pena dedicar um tempinho a esta leitura, destaquei alguns trechos.

Aproveitem!! #todosemcasamasjuntos












Como lidar com o medo em tempos de crise



Precisamos compreender que na natureza tudo segue um movimento de contração e expansão. Basta pensarmos no próprio movimento do nascimento, o parto (contrair e expandir do útero), o movimento dos mares, o movimento da natureza...

Quando nos deparamos com uma situação de doença, também nos aproximamos deste movimento. Hora nos recolhemos, hora expandimos. É importante fazermos este movimento para irmos ganhando força, frente a estas situações.

Em momentos de crise, este movimento também se mostra. 

Podemos entender que a contração neste momento que estamos vivenciando, diz respeito a entrar em contato com o nosso íntimo, nosso interior, momentos de maior introspecção e contato conosco. Já o movimento de expansão é quando continuamos a planejar coisas, novas atividades, projetos numa perspectiva possível de futuro. 

O problema é quando ficamos conectados apenas com um desses modos de lidar com o mundo (pólos). 

Alguns níveis de stress e medo fazem parte da nossa experiência. É importante acolhermos e validarmos esses sentimentos.

Sobre a situação atual da pandemia do Coronavírus– COVID 19, não é bom ficarmos o tempo todo falando nisso. Obviamente, a situação não pode ser ignorada ou minimizada, porém é importante que possamos nos autorizar a também ficar bem em tempo de dificuldade. Fazer coisas que nos fazem bem, buscar um pouco de descontração. 

Transpondo para nosso momento uma das práticas utilizadas no tratamento de pacientes em cuidados paliativos, é importante que mesmo frente a uma situação de adoecimento ou crise, que algumas coisas de suas vidas consigam seguir de forma normal. Para isso, a importância de se manter uma certa rotina. Fazer uma rotina, organiza a nossa experiência. Ajuda a estabelecer um sentido de normalidade. Oferece uma sensação de que “Há alguma coisa em mim que ainda continua preservada”, mesmo frente a grandes mudanças. 

Algum nível de stress é importante para nos mantermos atentos, alertas. Porém, este stress precisa estar mediado por uma auto-compaixão infinita. 

Neste período de crise, também precisaremos lidar com os mecanismos de defesa dos outros. Quando formos lidar com pessoas que estão em negação, ou racionalizando, por exemplo, não tentar retirar ou confrontar estas defesas. Se confrontarmos essas defesas, elas só se fortalecerão ainda mais. 

Precisamos usar a defesa a favor. Por exemplo, com alguém que negue a situação e minimize o risco atual, vamos ajudando ela a pensar em qual é o melhor cenário possível e aos poucos vamos auxiliando ela a ir se adaptando a uma nova realidade, novas perspectivas mais realistas dentro deste cenário.

Frente a idosos, ou pessoas que estejam enfrentando a grandes aglomerações por conta de seu trabalho, importante usar de uma COMPAIXÃO PROFUNDA! Olhar para esta pessoa e validar seu sofrimento. Mostrar que você está vendo isto. “Nossa! Como esta pessoa pode estar sofrendo! Eu estou vendo isto!”

Portanto, é importante respeitar os mecanismos de defesa. Mecanismos de defesa, não são de todo ruim. São necessários para todos nós em certo nível e todos temos. O problema é quanto sua intensidade, frequência e rigidez. Ou, quando ficamos fixados somente em único mecanismo e temos dificuldade em alternar.

Um outro ponto importante quando trabalhamos com situações extremas é cultivamos nossa habilidade de manter a esperança. Esta esperança pode ser cultivada em doses diárias. “HOJE VOU TER A ESPERANÇA DE QUE?” 

É importante que tenhamos pelo menos uma esperança por dia. Ao acordar, pensar “Qual a minha esperança para hoje?” Esta esperança precisa estar não somente a algo de fora para dentro, mas de dentro para fora. Ou seja, coisas que eu posso fazer por mim naquele dia, não somente esperar dos outros ou do mundo. Esperanças pequenas e palpáveis. Se conseguir concretizar alguma por dia, como “hoje vou preparar um bolo”, ao fim de 7 dias terei 7 pequenas esperanças. 

Também é importante não nos frustrarmos se não conseguirmos realizar todos os nossos planos neste período. Se estamos tentando, estamos vivos!

Sobre a gratidão, ela pode também estar presente neste momento. Olhar para o teto pode ser o primeiro exercício de gratidão. Ajuda a nos conectarmos a uma alegria íntima de ainda estarmos aqui. 

Neste contexto, vale estarmos envoltos de uma preocupação amorosa pelos seres humanos.

Em momentos difíceis, olhar para o teto e sentir gratidão “eu ainda estou aqui. Então eu ainda tenho algo para fazer nesta vida.”

Outro ponto importante é “estar em contato conosco mesmos” (Traduzindo pra GT – awareness).  Ou seja, estar atento ao próprio corpo. A alma se expressa pelo nosso corpo.  O corpo é a casa da alma. Precisamos cuidar desta casa. Oferecer ao corpo repouso, movimento, alimento, àgua, ar, higiente... conforme suas necessidades. 

Um corpo que não recebe cuidado é mais suscetível ao stress. É importante que o corpo seja lugar de cuidado. Assim como é importante você se responsabilizar pelos cuidados do seu próprio corpo. Se você não consegue se responsabilizar por si, não conseguirá se responsabilizar pelos outros. 

Outro ponto importante, manter um sentido de espiritualidade.  Cuidar da nossa alma. Se conectar com aquilo que é sagrado para nós. “O que é sagrado para você?” Estabelecer tempos de silêncio e de oração. E cultivar momentos de conexão espiritual, que pode se dar através da arte, da música, jardinagem, contemplação da natureza... aquilo que faz mais sentido para cada um. 

Portanto, nosso trabalho diz respeito a auxiliar as pessoas a fazer o caminho de contração e expansão. 

Importante também que a gente não perca a capacidade de brincar com a vida. Sobre este ponto, é sugerida a leitura do livro – Em busca de sentido, de Viktor Frankl. Dentre outros pontos relevantes no que se refere ao sentido de sobrevivência frente a situações extremas, o autor menciona algo relacionado à importância de sabermos manejar as variáveis da vida. 

Ainda sobre stress, sabendo que em certo nível ele é importante para a vida, é fundamental termos alguns momentos em que possamos baixar um pouco este estado de vigilância. Em casa, por exemplo, podemos alternar esta responsabilidade com outras pessoas “hoje eu fico mais atento, amanhã você fica”. Dividir a carga de stress. 

Para quem vive sozinho, não esqueça de ser sua melhor companhia, seja você seu melhor amigo. E caso precise de auxílio, existem alguns canais de comunicação e apoio disponíveis para a população neste momento (atendimentos por telefone ou virtual). 

Temos em nós todos os recursos necessários para enfrentar esta situação! Nós damos conta!

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