16 de março de 2019

Massacre do humano


Estamos todos chocados com os eventos carregados de violência  ocorridos nos últimos dias. Em uma escola,  jovens atentam contra a vida de outros jovens e matam dez pessoas, atentado em uma mesquita na Nova Zelândia, com inúmeras  mortes  e o acompanhamento de um julgamento de um crime, onde os próprios familiares mataram um menino. Eventos carregados de violência e desumanidade!

O quanto estamos adoecidos? O que está acontecendo?

Pois bem, para tratar do que percebo sobre este adoecimento vou abordar o caso do massacre da escola de Suzano.

E gostaria de lhe convidar, para junto comigo, aprofundarmos um pouquinho o olhar sobre o pano de fundo que envolvem este cenários tão tristes.  Pois reflexões são necessárias visto que, em maior ou menor grau, estes conflitos não estão tão distantes de nós.  

De onde estou e pude alcançar, em Suzano, vi jovens  aos  gritos! Gritando e denunciando faltas. De presença, afetividade, escuta,  trocas, acompanhamento e olhos atentos ao que necessitavam.  Jovens que manifestaram urgências  em práticas e manejos quanto a confusão que pode ocorrer  quando as  famílias  não dão conta  do seu papel.

Ligado a isso, vejo uma sociedade que se perde em seus valores essenciais e permite que o humano possa estar em segundo plano. Vejo instituições como a da escola,  perdidas  na profundidade do humano no educar. Por certo por falta de apoio, falta de investimentos, faltas, inúmeras faltas...

Um jovem não tem uma ação tão desequilibrada como esta sem ter passado por situações de  maus-tratos, bullying ou algo significativo de dor e opressão.  Uma tragédia que clama e reclama  humanização, pois a forma de gritar mostra o resultado de uma imensa incapacidade de se colocar no lugar do outro.

Que estes jovens tinham problemas não há dúvidas, mas é preciso pensar estes  problemas com profundidade, nos perguntando qual o pano de fundo para que estas ações limites cheguem a acontecer? O que passa no universo deles?  Que fenômenos psicossociais estimulam estes gritos de alerta? 

Se eles, ao menos, tivessem tido alguma presença afetiva de alguém da família ou da sua rede de contatos  as chances disto ter acontecido seriam infinitamente menores. Mas será que haviam contatos?

Se tivessem tido voz para trabalhar suas desorganizações, suas dores, seus conflitos, muito poderia ter sido feito. “O ser humano não é essencialmente ruim, ele pode se tornar ruim”. 


Pais e educadores  precisam estar atentos a como seus jovens  estão se sentindo, como se percebem no mundo, o que almejam.  E isso não é um ideal inatingível, é algo que precisa estar no foco e espalhado por aí.  Não é tão difícil aliviar angústias, as vezes basta estar presente, acolher, ouvir. Um jovem que tem suporte pode mais do que imaginamos.

Para quem quer ir além
O que podemos  fazer?
Em primeira instância  nos perguntarmos: o quanto estamos atentos ao essencial?   Em que lugar está a nossa humanização? Como estamos alimentando a nossa sociedade? Nós? Sim, nós também! Nós somos a sociedade, nós a alimentamos e, querendo ou não colhemos coisas como esta que aconteceu.

É urgente pensarmos  em políticas sociais que contemplem e reforcem diferentes formas de humanização, sim! Mas aqui estou lhe convidando para se olhar.  Eu estou fazendo isso!

Como anda o seu papel em sua família?  O quanto você está disponível  e atento? Há estímulo ao respeito ao outro? E a  gentileza? O que significar cuidar para vocês?

E a escola? O que seus filhos estão aprendendo por lá? Como se relacionam? Existe humanização nesta escola? O que é possível fazer quanto a isto?

Não é muito confortável nos perguntarmos tudo isso.  Mas se você está tentando responder e refletindo,  saiba  que está no caminho da prevenção e entenda que o seu possível  já será bastante.


Para ampliar a compreensão – de Sheila Antony.

As psicopatologias reinantes denunciam o modo adoecido de viver de uma sociedade e da humanidade. O transtorno de conduta é fundamentalmente oriundo de disfunções relacionais no campo indivíduo/ambiente, que prepondera sobre as predisposições genéticas. O adolescente com transtorno de conduta apresenta sérias dificuldades em fazer contato consigo e com o outro. Evita conectar-se com sentimentos e experiências que expõe a sua vulnerabilidade e fragilidade. Vê o outro como ameaçador e desprezível, de forma que vai perdendo a capacidade de empatizar e de mostrar-se sensível.  A conduta desse adolescente pretende desafiar as leis, ele age com a intenção consciente de inverter a ordem social, a vida de seus semelhantes, de destruir vínculos e a autoestima alheia. Os relacionamentos com adultos detentores de autoridade tendem a discórdia, hostilidade e ressentimento, uma vez que a figura paterna não é modelo de respeito e admiração. Esse adolescente, em sua maioria, apresenta um pobre rendimento acadêmico (alguns tem muitas reprovações) devido a um desinteresse com as questões acadêmicas da escola, como forma de negar ser cooperativo com o outro e a sociedade. Observa-se um frágil vínculo afetivo entre o adolescente e os seus familiares, que é facilmente posto a prova, quando age infringindo normas da casa, desobedecendo aos pais, instituindo as próprias regras e valores. Age sob os efeitos de um eu todo poderoso que busca dominar, tomar posse do outro e, acima de tudo, prima por ocultar um autoconceito depreciativo, uma carência afetiva, sentimentos de insegurança e de rejeição que marcaram a sua vida familiar na infância. O transtorno de conduta é uma patologia da ausência de ética, da falta de valores morais no indivíduo cujo cerne é a inexistencia do sentimento empático com o outro humano.
Do capitulo "O adolescente com transtorno de conduta: a carencia por trás da violencia", do livro A clinica gestáltica com adolescentes: caminhos clinicos e institucionais, publicado pela Ed. Summus, em 2013.


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