26 de março de 2019

Solidarizar-se!!!

Vivemos tempos onde a palavra SOLIDARIEDADE se faz muito necessária. 
Lembrei desta reflexão da Lya Luft, tão importante em tempos atuais.

SOLIDARIEDADE
O gesto não precisa ser grandioso nem público, não é necessário pertencer a uma ONG ou fazer uma campanha. Sobretudo, convém não aparecer.
O gesto primeiro devia ser natural, e não decorrer de nenhum lema ou imposição, nem convite nem sugestão vinda de fora.
Assim devíamos ser nós habitualmente, e não somos, ou geralmente não somos: cuidar do que está do nosso lado. Cuidar não só na doença ou na pobreza mas no cotidiano, em que tantas vezes falta a delicadeza, a gentileza, a compreensão; esquecidos os pequenos rituais de respeito, de preservação do mistério, e igualmente da superação das barreiras estéreis entre pessoas da mesma casa, da família, das amizades mais próximas.
Dentro de casa, onde tudo deveria começar, onde se deveria fazer todo dia o aprendizado do belo, do generoso, do delicado, do respeitoso, do agradável e do acolhedor, mal passamos, correndo, tangidos pelas obrigações. Tão fácil atualmente desculpar-se com a pressa: o trânsito, o patrão, o banco, a conta, a hora extra... Tudo isso é real, tudo isso acontece e nos enreda e nos paralisa.
Mas, por outro lado, se a gente parasse (mas parar pra pensar pode ser tão ameaçador...) e fizesse um pequeno cálculo, talvez metade ou boa parte desses deveres aparecesse como supérfluo, frívolo, dispensável.
Uma hora a mais em casa não para se trancar no quarto, mas para conviver. Não com obrigação, sermos felizes com hora marcada e prazo pra terminar, mas promover desde sempre a casa como o lugar do diálogo, não do engolir quieto e apressado; o quarto como o lugar do afeto, não do cansaço.
Pois se ainda não começamos a ser solidários dentro de nós mesmos e dentro de nossa casa ou do nosso círculo de amigos, como querer fazer campanhas, como pretender desfraldar bandeiras, como desejar salvar o mundo – se estamos perdidos no nosso cotidiano?

Como dizer a palavra certa se estamos mudos, como escutar se estamos surdos, como abraçar se estamos congelados? Para mim, a solidariedade precisa ser antes de tudo o aprendizado da humanidade pessoal.
Depois de sermos gente, podemos – e devemos – sair dos muros e tentar melhorar o mundo. Que anda tão, e tão precisado. Melhor seria se conseguíssemos.
Lya Luft, São Paulo 2001.

16 de março de 2019

Massacre do humano


Estamos todos chocados com os eventos carregados de violência  ocorridos nos últimos dias. Em uma escola,  jovens atentam contra a vida de outros jovens e matam dez pessoas, atentado em uma mesquita na Nova Zelândia, com inúmeras  mortes  e o acompanhamento de um julgamento de um crime, onde os próprios familiares mataram um menino. Eventos carregados de violência e desumanidade!

O quanto estamos adoecidos? O que está acontecendo?

Pois bem, para tratar do que percebo sobre este adoecimento vou abordar o caso do massacre da escola de Suzano.

E gostaria de lhe convidar, para junto comigo, aprofundarmos um pouquinho o olhar sobre o pano de fundo que envolvem este cenários tão tristes.  Pois reflexões são necessárias visto que, em maior ou menor grau, estes conflitos não estão tão distantes de nós.  

De onde estou e pude alcançar, em Suzano, vi jovens  aos  gritos! Gritando e denunciando faltas. De presença, afetividade, escuta,  trocas, acompanhamento e olhos atentos ao que necessitavam.  Jovens que manifestaram urgências  em práticas e manejos quanto a confusão que pode ocorrer  quando as  famílias  não dão conta  do seu papel.

Ligado a isso, vejo uma sociedade que se perde em seus valores essenciais e permite que o humano possa estar em segundo plano. Vejo instituições como a da escola,  perdidas  na profundidade do humano no educar. Por certo por falta de apoio, falta de investimentos, faltas, inúmeras faltas...

Um jovem não tem uma ação tão desequilibrada como esta sem ter passado por situações de  maus-tratos, bullying ou algo significativo de dor e opressão.  Uma tragédia que clama e reclama  humanização, pois a forma de gritar mostra o resultado de uma imensa incapacidade de se colocar no lugar do outro.

Que estes jovens tinham problemas não há dúvidas, mas é preciso pensar estes  problemas com profundidade, nos perguntando qual o pano de fundo para que estas ações limites cheguem a acontecer? O que passa no universo deles?  Que fenômenos psicossociais estimulam estes gritos de alerta? 

Se eles, ao menos, tivessem tido alguma presença afetiva de alguém da família ou da sua rede de contatos  as chances disto ter acontecido seriam infinitamente menores. Mas será que haviam contatos?

Se tivessem tido voz para trabalhar suas desorganizações, suas dores, seus conflitos, muito poderia ter sido feito. “O ser humano não é essencialmente ruim, ele pode se tornar ruim”. 


Pais e educadores  precisam estar atentos a como seus jovens  estão se sentindo, como se percebem no mundo, o que almejam.  E isso não é um ideal inatingível, é algo que precisa estar no foco e espalhado por aí.  Não é tão difícil aliviar angústias, as vezes basta estar presente, acolher, ouvir. Um jovem que tem suporte pode mais do que imaginamos.

Para quem quer ir além
O que podemos  fazer?
Em primeira instância  nos perguntarmos: o quanto estamos atentos ao essencial?   Em que lugar está a nossa humanização? Como estamos alimentando a nossa sociedade? Nós? Sim, nós também! Nós somos a sociedade, nós a alimentamos e, querendo ou não colhemos coisas como esta que aconteceu.

É urgente pensarmos  em políticas sociais que contemplem e reforcem diferentes formas de humanização, sim! Mas aqui estou lhe convidando para se olhar.  Eu estou fazendo isso!

Como anda o seu papel em sua família?  O quanto você está disponível  e atento? Há estímulo ao respeito ao outro? E a  gentileza? O que significar cuidar para vocês?

E a escola? O que seus filhos estão aprendendo por lá? Como se relacionam? Existe humanização nesta escola? O que é possível fazer quanto a isto?

Não é muito confortável nos perguntarmos tudo isso.  Mas se você está tentando responder e refletindo,  saiba  que está no caminho da prevenção e entenda que o seu possível  já será bastante.


Para ampliar a compreensão – de Sheila Antony.

As psicopatologias reinantes denunciam o modo adoecido de viver de uma sociedade e da humanidade. O transtorno de conduta é fundamentalmente oriundo de disfunções relacionais no campo indivíduo/ambiente, que prepondera sobre as predisposições genéticas. O adolescente com transtorno de conduta apresenta sérias dificuldades em fazer contato consigo e com o outro. Evita conectar-se com sentimentos e experiências que expõe a sua vulnerabilidade e fragilidade. Vê o outro como ameaçador e desprezível, de forma que vai perdendo a capacidade de empatizar e de mostrar-se sensível.  A conduta desse adolescente pretende desafiar as leis, ele age com a intenção consciente de inverter a ordem social, a vida de seus semelhantes, de destruir vínculos e a autoestima alheia. Os relacionamentos com adultos detentores de autoridade tendem a discórdia, hostilidade e ressentimento, uma vez que a figura paterna não é modelo de respeito e admiração. Esse adolescente, em sua maioria, apresenta um pobre rendimento acadêmico (alguns tem muitas reprovações) devido a um desinteresse com as questões acadêmicas da escola, como forma de negar ser cooperativo com o outro e a sociedade. Observa-se um frágil vínculo afetivo entre o adolescente e os seus familiares, que é facilmente posto a prova, quando age infringindo normas da casa, desobedecendo aos pais, instituindo as próprias regras e valores. Age sob os efeitos de um eu todo poderoso que busca dominar, tomar posse do outro e, acima de tudo, prima por ocultar um autoconceito depreciativo, uma carência afetiva, sentimentos de insegurança e de rejeição que marcaram a sua vida familiar na infância. O transtorno de conduta é uma patologia da ausência de ética, da falta de valores morais no indivíduo cujo cerne é a inexistencia do sentimento empático com o outro humano.
Do capitulo "O adolescente com transtorno de conduta: a carencia por trás da violencia", do livro A clinica gestáltica com adolescentes: caminhos clinicos e institucionais, publicado pela Ed. Summus, em 2013.


7 de março de 2019

Mulheres imperfeitas, mas cheias de vida!


Para este dia das mulheres eu trouxe um convite. Lhe convido a se olhar e pensar nas suas possibilidades em levar a vida com um pouquinho mais de leveza. Algo sábio, que todas nós deveríamos exercitar com muito empenho. Para tanto, lembrei deste texto que adoro. Seu vocabulário pode trazer um tanto de cor as nossas vidas! 

Descomplicando a vida 
(Rubem Alves)

   Se eu tivesse que escolher uma palavra – apenas uma – para ser item obrigatório no vocabulário da mulher de hoje, essa palavra seria um verbo de quatro sílabas: descomplicar.

     Depois de infinitas (e imensas) conquistas, acho que está passando da hora de aprendermos a viver com mais leveza: exigir menos dos outros e de nós próprias, cobrar menos, reclamar menos, carregar menos culpa, olhar menos para o espelho. Descomplicar talvez seja o atalho mais seguro para chegarmos à tão falada qualidade de vida que queremos – e merecemos – ter.

     Mas há outras palavras que não podem faltar no kit existencial da mulher moderna. Amizade, por exemplo. Acostumadas a concentrar nossos sentimentos (e nossa energia...) nas relações amorosas, acabamos deixando as amigas em segundo plano. E nada, mas nada mesmo, faz tão bem para uma mulher quanto a convivência com as amigas. Ir ao cinema com elas (que gostam dos mesmos filmes que a gente), sair sem ter hora para voltar, compartilhar uma caipivodca de morango e repetir as histórias que já nos contamos mil vezes – isso, sim, faz bem para a pele. Para a alma, então, nem se fala. Ao menos uma vez por mês, deixe o marido ou o namorado em casa, prometa-se que não vai ligar para ele nem uma vez (desligue o celular, se for preciso) e desfrute os prazeres que só uma boa amizade consegue proporcionar.

    E, já que falamos em desligar o celular, incorpore ao seu vocabulário duas palavras que têm estado ausentes do cotidiano feminino: pausa e silêncio. Aprenda a parar, nem que seja por cinco minutos, três vezes por semana, duas vezes por mês, ou uma vez por dia – não importa – e a ficar em silêncio. Essas pausas silenciosas nos permitem refletir, contar até 100 antes de uma decisão importante, entender melhor os próprios sentimentos, reencontrar a serenidade e o equilíbrio quando é preciso.

    Também abra espaço, no vocabulário e no cotidiano, para o verbo rir. Não há creme anti-idade nem botox que salve a expressão de uma mulher mal-humorada. Azedume e amargura são palavras que devem ser banidas do nosso dia a dia. Se for preciso, pegue uma comédia na locadora, preste atenção na conversa de duas crianças, marque um encontro com aquela amiga engraçada – faça qualquer coisa, mas ria. O riso nos salva de nós mesmas, cura nossas angústias e nos reconcilia com a vida.

    Quanto à palavra dieta, cuidado: mulheres que falam em regime o tempo todo costumam ser péssimas companhias. Deixe para discutir carboidratos e afins no banheiro feminino ou no consultório do endocrinologista. Nas mesas de restaurantes, nem pensar. Se for para ficar contando calorias, descrevendo a própria culpa e olhando para a sobremesa do companheiro de mesa com reprovação e inveja, melhor ficar em casa e desfrutar sua salada de alface e seu chá verde sozinha.

    Uma sugestão? Tente trocar a obsessão pela dieta por outra palavra que, essa sim, deveria guiar nossos atos 24 horas por dia: gentileza. Ter classe não é usar roupas de grife: é ser delicada. Saber se comportar é infinitamente mais importante do que saber se vestir. Resgate aquele velho exercício que anda esquecido: aprenda a se colocar no lugar do outro, e trate-o como você gostaria de ser tratada, seja no trânsito, na fila do banco, na empresa onde trabalha, em casa, no supermercado, na academia.



    E, para encerrar, não deixe de conjugar dois verbos que deveriam ser indissociáveis da vida: sonhar e recomeçar. Sonhe com aquela viagem ao exterior, aquele fim de semana na praia, o curso que você ainda vai fazer, a promoção que vai conquistar um dia, aquele homem que um dia (quem sabe?) ainda vai ser seu. Sonhe até que aconteça. E recomece, sempre que for preciso: seja na carreira, na vida amorosa, nos relacionamentos familiares. A vida nos dá um espaço de manobra: use-o para reinventar a si mesma.

    Por último, agora sim encerrando, risque do seu Aurélio a palavra perfeição. O dicionário das mulheres interessantes inclui fragilidades, inseguranças, limites. Pare de brigar com você mesma para ser a mãe perfeita, a dona de casa impecável, a profissional que sabe tudo, a esposa nota mil. Acima de tudo, elimine de sua vida o desgaste que é tentar ter coxas sem celulite, rosto sem rugas, cabelos que não arrepiam, bumbum que encara qualquer biquíni. Mulheres reais são mulheres imperfeitas. E mulheres que se aceitam como imperfeitas são mulheres livres. Viver não é (e nunca foi) fácil, mas, quando se elimina o excesso de peso da bagagem (e a busca da perfeição pesa toneladas), a tão sonhada felicidade fica muito mais possível. A vida não pode ser economizada para amanhã.