24 de fevereiro de 2019

Luz sobre o tema solidão

Quem acompanha os meus posts já deve ter notado o quanto eu gosto dos textos  do Rubem Alves, eles me encantam  pelo aprofundamento no  humano. Hoje compartilho mais um com vocês.  

Este fala de solidão, mas mais que isso, nos chama a atenção para a consciência do tanto de fantasias que podem  surgir  ao estarmos sós.

Lá pelas tantas deste texto você vai se deparar com algumas perguntas: Que tipo de fantasias lhe vem quando está só? Ao que estão ligadas estas fantasias?  Como se comporta a sua solidão?

São questões que surgem no consultório  e que, com frequência,   são trabalhadas com as  pessoas que acompanho. Quase sempre ajudando a trazer luz e um tanto de tranquilidade. 


Foto: Marcelo Figueiredo

A solidão amiga

A noite chegou, o trabalho acabou, é hora de voltar para casa. Lar, doce lar? Mas a casa está escura, a televisão apagada e tudo é silêncio. Ninguém para abrir a porta, ninguém à espera. Você está só. Vem a tristeza da solidão... O que mais você deseja é não estar em solidão...

Mas deixa que eu lhe diga: sua tristeza não vem da solidão. Vem das fantasias que surgem na solidão. Lembro-me de um jovem que amava a solidão: ficar sozinho, ler, ouvir, música... Assim, aos sábados, ele se preparava para uma noite de solidão feliz. Mas bastava que ele se assentasse para que as fantasias surgissem. Cenas. De um lado, amigos em festas felizes, em meio ao falatório, os risos, a cervejinha. Aí a cena se alterava: ele, sozinho naquela sala. Com certeza ninguém estava se lembrando dele. Naquela festa feliz, quem se lembraria dele? E aí a tristeza entrava e ele não mais podia curtir a sua amiga solidão. O remédio era sair, encontrar-se com a turma para encontrar a alegria da festa. Vestia-se, saía, ia para a festa... Mas na festa ele percebia que festas reais não são iguais às festas imaginadas. Era um desencontro, uma impossibilidade de compartilhar as coisas da sua solidão... A noite estava perdida.

Faço-lhe uma sugestão: leia o livro A chama de uma vela, de Bachelard. É um dos livros mais solitários e mais bonitos que jamais li. A chama de uma vela, por oposição às luzes das lâmpadas elétricas, é sempre solitária. A chama de uma vela cria, ao seu redor, um círculo de claridade mansa que se perde nas sombras. Bachelard  medita  diante da chama solitária de uma vela. Ao seu redor, as sombras e o silêncio. Nenhum falatório bobo ou riso fácil para perturbar a verdade da sua alma. Lendo o livro solitário de Bachelard eu encontrei comunhão. Sempre encontro comunhão quando o leio. As grandes comunhões não acontecem em meio aos risos da festa. Elas acontecem, paradoxalmente, na ausência do outro. Quem ama sabe disso. É precisamente na ausência que a proximidade é maior. Bachelard, ausente: eu o abracei agradecido por ele assim me entender tão bem. Como ele observa, "parece que há em nós cantos sombrios que toleram apenas uma luz bruxoleante. Um coração sensível gosta de valores frágeis". A vela solitária de Bachelard iluminou meus cantos sombrios, fez-me ver os objetos que se escondem quando há mais gente na cena. E ele faz uma pergunta que julgo fundamental e que proponho a você, como motivo de meditação: "Como se comporta a Sua Solidão?" Minha solidão? Há uma solidão que é minha, diferente das solidões dos outros? A solidão se comporta? Se a minha solidão se comporta, ela não é apenas uma realidade bruta e morta. Ela tem vida.

Entre as muitas coisas profundas que Sartre disse, essa é a que mais amo: "Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você." Pare. Leia de novo. E pense. Você lamenta essa maldade que a vida está fazendo com você, a solidão. Se Sartre está certo, essa maldade pode ser o lugar onde você vai plantar o seu jardim.

Como é que a sua solidão se comporta? Ou, talvez, dando um giro na pergunta: Como você se comporta com a sua solidão? O que é que você está fazendo com a sua solidão? Quando você a lamenta, você está dizendo que gostaria de se livrar dela, que ela é um sofrimento, uma doença, uma inimiga... Aprenda isso: as coisas são os nomes que lhe damos. Se chamo minha solidão de inimiga, ela será minha inimiga. Mas será possível chamá-la de amiga? Drummond acha que sim: "Por muito tempo achei que a ausência é falta./ E lastimava, ignorante, a falta./ Hoje não a lastimo./ Não há falta na ausência. A ausência é um estar em mim./ E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,/ que rio e danço e invento exclamações alegres,/ porque a ausência, essa ausência assimilada,/ ninguém a rouba mais de mim.!"

Nietzsche também tinha a solidão como sua companheira. Sozinho, doente, tinha enxaquecas terríveis que duravam três dias e o deixavam cego. Ele tirava suas alegrias de longas caminhadas pelas montanhas, da música e de uns poucos livros que ele amava. Eis aí três companheiras maravilhosas! Vejo, frequentemente, pessoas que caminham por razões da saúde. Incapazes de caminhar sozinhas, vão aos pares, aos bandos. E vão falando, falando, sem ver o mundo maravilhoso que as cerca. Falam porque não suportariam caminhar sozinhas. E, por isso mesmo, perdem a maior alegria das caminhadas, que é a alegria de estar em comunhão com a natureza. Elas não vêem as árvores, nem as flores, nem as nuvens e nem sentem o vento. Que troca infeliz! Trocam as vozes do silêncio pelo falatório vulgar. Se estivessem a sós com a natureza, em silêncio, sua solidão tornaria possível que elas ouvissem o que a natureza tem a dizer. O estar juntos não quer dizer comunhão. O estar juntos, frequentemente, é uma forma terrível de solidão, um artifício para evitar o contato conosco mesmos. Sartre chegou ao ponto de dizer que "o inferno é o outro." Sobre isso, quem sabe, conversaremos outro dia... Mas, voltando a Nietzsche, eis o que ele escreveu sobre a sua solidão:

"Ó solidão! Solidão, meu lar!... Tua voz - ela me fala com ternura e felicidade!

Não discutimos, não queixamos e muitas vezes caminhamos juntos através de portas abertas.

Pois onde quer que estás, ali as coisas são abertas e luminosas. E até mesmo as horas caminham com pés saltitantes.

Ali as palavras e os tempos/poemas de todo o ser se abrem diante de mim. Ali todo ser deseja transformar-se em palavra, e toda mudança pede para aprender de mim a falar."

E o Vinícius? Você se lembra do seu poema O operário em construção? Vivia o operário em meio a muita gente, trabalhando, falando. E enquanto ele trabalhava e falava ele nada via, nada compreendia. Mas aconteceu que, "certo dia, à mesa, ao cortar o pão, o operário foi tomado de uma súbita emoção ao constatar assombrado que tudo naquela casa - garrafa, prato, facão - era ele que os fazia, ele, um humilde operário, um operário em construção (...) Ah! Homens de pensamento, não sabereis nunca o quando aquele humilde operário soube naquele momento! Naquela casa vazia que ele mesmo levantara, um mundo novo nascia de que nem sequer suspeitava. O operário emocionado olhou sua própria mão, sua rude mão de operário, e olhando bem para ela teve um segundo a impressão de que não havia no mundo coisa que fosse mais bela. Foi dentro da compreensão desse instante solitário que, tal sua construção, cresceu também o operário. (...) E o operário adquiriu uma nova dimensão: a dimensão da poesia."

Rainer Maria Rilke, um dos poetas mais solitários e densos que conheço, disse o seguinte: "As obras de arte são de uma solidão infinita." É na solidão que elas são geradas. Foi na casa vazia, num momento solitário, que o operário viu o mundo pela primeira vez e se transformou em poeta.

E me lembro também de Cecília Meireles, tão lindamente descrita por Drummond:

"...Não me parecia criatura inquestionavelmente real; e por mais que aferisse os traços positivos de sua presença entre nós, marcada por gestos de cortesia e sociabilidade, restava-me a impressão de que ela não estava onde nós a víamos... Distância, exílio e viagem transpareciam no seu sorriso benevolente? Por onde erraria a verdadeira Cecília..."

Sim, lá estava ela delicadamente entre os outros, participando de um jogo de relações gregárias que a delicadeza a obrigava a jogar. Mas a verdadeira Cecília estava longe, muito longe, num lugar onde ela estava irremediavelmente sozinha.

O primeiro filósofo que li, o dinamarquês Soeren Kiekeggard, um solitário que me faz companhia até hoje, observou que o início da infelicidade humana se encontra na comparação. Experimentei isso em minha própria carne. Foi quando eu, menino caipira de uma cidadezinha do interior de Minas, me mudei para o Rio de Janeiro, que conheci a infelicidade. Comparei-me com eles: cariocas, espertos, bem falantes, ricos. Eu diferente, sotaque ridículo, gaguejando de vergonha, pobre: entre eles eu não passava de um patinho feio que os outros se compraziam em bicar. Nunca fui convidado a ir à casa de qualquer um deles. Nunca convidei nenhum deles a ir à minha casa. Eu não me atreveria. Conheci, então, a solidão. A solidão de ser diferente. E sofri muito. E nem sequer me atrevi a compartilhar com meus pais esse meu sofrimento. Seria inútil. Eles não compreenderiam. E mesmo que compreendessem, eles nada podiam fazer. Assim, tive de sofrer a minha solidão duas vezes sozinho. Mas foi nela que se formou aquele que sou hoje. As caminhadas pelo deserto me fizeram forte. Aprendi a cuidar de mim mesmo. E aprendi a buscar as coisas que, para mim, solitário, faziam sentido. Como, por exemplo, a música clássica, a beleza que torna alegre a minha solidão...

A sua infelicidade com a solidão: não se deriva ela, em parte, das comparações? Você compara a cena de você, só, na casa vazia, com a cena (fantasiada ) dos outros, em celebrações cheias de risos... Essa comparação é destrutiva porque nasce da inveja. Sofra a dor real da solidão porque a solidão dói. Dói uma dor da qual pode nascer a beleza. Mas não sofra a dor da comparação. Ela não é verdadeira.

Mas essa conversa não acabou: vou falar depois sobre os companheiros que fazem minha solidão feliz.

(Rubem Alves) 

13 de fevereiro de 2019

A existência precede a essência


A palavra essência vem do latim "essentia", significa o que compõe uma coisa, as propriedades imutáveis que caracterizam sua natureza. Seria aquilo que corresponde ao mais básico, mais central e mais importante que caracteriza um ser ou uma coisa.

Jean-Paul Sartre (1905-1980), comenta sobre a diferença entre os objetos e as pessoas em seu livro “O Existencialismo é um Humanismo”. Segundo ele, um objeto é fabricado de acordo com um conceito de quem o fabricou, com um intuito, objetivo e utilidade definida.

A essência de um objeto precede a sua existência, pois ele é fabricado pensando no que irá se tornar. Porém, com o ser humano é diferente, ele não foi fabricado por alguém com um objetivo definido, ele surge no mundo e atribui a sua vida os sentidos que escolher, sua essência é constituída por sua existência.


“A existência precede a essência.” 
(Jean-Paul Sartre)

Não há uma essência, uma norma ou um Deus que predetermine a existência, mas somente possibilidades do que ela poderá se tornar. Nossa existência é o resultado das escolhas que fazemos em nossa vida.

O termo existência vem do latim "ex-sistere", que significa se projetar para fora, trazendo a ideia de sair de um domínio, de uma casca ou esconderijo, representando a ação de mostrar-se e colocar-se no mundo.

Quando nos colocamos, estamos expressando nossa existência, nosso modo de ser singular. Como não há uma essência prévia que determine o que vamos nos tornar, podemos escolher o que fazer de nossa vida. É a partir do modo como vivemos a nossa vida, que determinamos o que seremos.

Encarar a existência como fruto de nossas escolhas é nos perceber como seres livres, ao invés de determinados por uma essência prévia. E por sermos livres, somos responsáveis pelo que fazemos de nós mesmos.

A existência não é estática, ela se desenvolve e se transforma de acordo com as experiências e escolhas que fazemos, deste modo nossa identidade é continuamente criada e renovada. Cada pessoa desenvolve sua existência de acordo com suas experiências.



Estamos sempre em transformação, e isso nos possibilita fazer novas escolhas, buscar novos caminhos, reconstruir a nós mesmos a cada instante, criando e encontrando novos sentidos para a nossa vida.

"O homem primeiramente existe, se descobre, surge no mundo;
e só depois se define." 
(Jean-Paul Sartre)

Fonte: http://www.ex-isto.site/2017/06/existencia-precede-essencia.html 

3 de fevereiro de 2019

Diálogos que promovem encontros verdadeiros



 ...Então  tive de aprender a lição de “deixar acontecer”, 
a fim de possibilitar a ocorrência de um encontro verdadeiro.

O diálogo genuíno é mútuo. 
Não pode ser forçado, nem agarrado.  
Precisamos estar abertos para seu fluxo, 
semelhante ao das marés, de enchente e vazante:
 “... a beleza de sua chegada e a solene tristeza de sua partida...”
(Buber, 1958a, p. 33).

Algo fundamental para relacionamentos saudáveis é  dialogar. Em tempos de tanta urgência nas respostas, parar e ouvir tornou-se  um grande desafio. Tanto quanto estar realmente presente, quando passamos muito tempo preocupados em responder a demandas virtuais.

Dialogar pode ser uma ótima forma de  realizarmos trocas efetivas e crescermos, mas será que estamos dialogando mesmo?

Tenho acompanhado pessoas que  chegam achando que dialogam, mas não o fazem. Primeiro por não estarem realmente presentes, depois por não conseguirem dar espaço a escuta limpa de pré-conceitos. E por fim,  pelo mau hábito de tentar usar as interações para dar voz as suas necessidades. Um erro!   

Verdadeiros  diálogos promovem relacionamentos tranquilos, dão espaço para acordos sinceros, qualificam o que o outro está podendo ser,  confirma diferenças e  respeito.  Quem se abre para tal exercício passa a perceber o quanto isso dá qualidade as suas relações e possibilita encontros legítimos.

Difícil? Um pouco. Mas eu sempre  digo: pense no ideal,  realize o seu possível  e se gratifique por ter dado  mais um  passo.

Vejo que, quando as pessoas se tornam conscientes das suas dificuldades relacionais e de como a falta de diálogo contribui para isso, elas tendem a se esforçar para rever os seus maus hábitos. Basta querer e praticar.  

O principal pressuposto para o surgimento de um diálogo genuíno 
é que cada um deveria olhar seu parceiro como a pessoa que ele realmente é.  
Torno-me consciente dele, consciente de que ele é diferente, 
essencialmente diferente de mim, de uma maneira única e definida que lhe é própria;
 e aceito a quem assim vejo, de forma que eu possa plenamente dirigir o que digo a ele, 
como pessoa que é.
(Martin Buber)