31 de dezembro de 2019

2020 vem aí! Veja as orientações da Astrologia Chinesa e da sabedoria oriental.

Todo troca de ano eu faço a leitura da Astrologia Chinesa para compartilhar com você, um convite a reflexão. Se você se interessa pela tema aproveite. 

E Feliz 2020!


Primeiro as reflexões sobre o ano vivido e logo abaixo as tradicionais orientações para 2020! 

Aos poucos nos despedimos do Porco de Terra!
2019 foi o ano do Porco de Terra, um porco a galope e instável, regido pela forma brincalhona, intuição e pelo desafio de voltar-se ao Nós.  Neste período cada discípulo foi intensamente desafiado a equilibrar suas polaridades. Isto, mais forte do que o normal,  por ser um período regido pelo elemento Terra. 
Por conta deste desafio não foi um ano fácil – equilibrar polaridades com tanta instabilidade é algo bastante difícil. Normalmente todos nós tentamos nos equilibrar agindo de forma a compensar faltas ou excessos e assim nos ajustamos criativamente para lidar com o que não é tão simples. Neste ultimo ano este foi o grande tema.  


Ano do Rato de Metal! 

Veja o que 2020 nos reserva e o que nos trará  de desafios e solicitações de aprendizados.

Estar sob a regência do Rato de Metal nos promete um ano mais regrado, com retorno a estabilidade – algo que as polaridades do ano anterior ainda não permitiam.  O Rato traz a influência da perseverança e da meticulosidade. Quem estiver com um projeto deve ter mais ânimo para sua continuidade e quem iniciar um novo projeto ou movimento, seja prático ou afetivo, tenderá a se manter neste processo. Vem aí um período Metal, este tende a favorecer o foco, a estabilidade e linearidade.

Porem este aspecto Metal tão valioso tem seu ponto negativo se vivido em excesso – lembre-se todo excesso é prejudicial – devemos então cuidar com a rigidez, o excesso de linearidade e da razão. Esteja atento para não abandonar a intuição e não se perder no excesso de ambição, que especialmente sobre a regência do Rato, nos leva a crescer mas pode fazer com que nos perdemos  em seu processo de ascensão, deixando as sutilezas e belezas da vida passarem despercebidas.

A colheita
O Elemento Metal é tradicionalmente conhecido pelo momento da colheita, uma colheita que vem com o tanto de dedicação ao investimento, seja ele de que gênero. Invista, esteja presente, mantenha-se regando que a colheita virá com certeza. Mas não esqueça de algo fundamental,  do conteúdo da sua plantação. O que isto quer dizer? Cuide do que estará plantando, analise bem e siga com firmeza.

A colheita do Metal estará valendo tanto para os negócios como para o amor. Atenção o que se iniciará tenderá a seguir.

Desta forma, não será um ano para casos passageiros e sim os duradouros, sejam quais forem. Nos relacionamentos amorosos se não desejar se apegar, tome cuidado o Rato não gosta de estar só e, em um ano Metal, o apego a continuidade é certa. Por outro lado, isto pode nos trazer algo positivo nestes dias de relações tão líquidas. Veremos.

Como sempre, esteja atento as suas tendências pessoais.

Se você tende a ser excessivamente meticuloso, detalhista, exigente consigo e com os outros fique de olho nestes seus aspectos para não se perder em seus próprios excessos e rigidezes.

Se tiver muita dificuldade de lidar com a estabilidade será bastante desafiado é ano de manutenção. Algumas pessoas poderão a sentir o tanto de Metal que vem ai como monótono outros mais “certinhos” e regrados estarão nas nuvens.

Se tende a ser  um tipo impulsivo, instável e pouco meticuloso e ambicioso, com certeza terá a oportunidade de se experimentar nestes aspectos que nos influenciarão no ano de Rato Metal.

Pois bem, é isso que teremos como influências neste próximo ciclo. Espero que possamos aprender com o que vem e saibamos lidar bem com uma energia mais estável. A estabilidade tem suas qualidades !


Em 2020 siga firme nos seus propósitos e tudo acontecera a seu tempo!!!

23 de dezembro de 2019

Festa natalina e seus desafios

A chegada do Papai Noel é um dos eventos mais esperados pelas crianças, a lenda do bom velhinho que carrega em seu trenó um saco cheio de presentes é encantadora e, se este senhor barbudo e até assustador, trouxer aquele brinquedo desejado o ano todo, isto será o máximo.

Para os cristãos o Natal comemora o nascimento de Jesus e os presentes representam a reverencia dos três magos ao menino que nascia para ajudar aos humanos a se reencontrar com seus sentidos espirituais.  Mas não esqueçamos de citar nisso tudo o que, para mim talvez seja o detalhe mais importante desta estória, o fato de que os três magos chegaram ao menino Jesus guiados pela luz que se refletia no céu em forma de estrela e indicava a sua localização. Um convite ao desenvolvimento da luz em todos nós.

Lindo não?  Sem dúvida uma inspiração que nos convida para a reflexão sobre as reais importâncias da festas natalinas. As vezes me parece que este espírito de luz passa um pouco despercebido, que a tendência a se deixar tomar pela ansiedade pré-natalina é gigante e a experiência de tensão e desentendimento toma a cena.

Mas o que acontece? Para algumas pessoas encontrar com a família pode não ser tão tranquilo, para outros a cobrança de perfeição não permite relaxar, outros ainda se prendem em acontecimentos que foram vividos como frustrantes, indesejados, inadequados ou algo do gênero.


Pois bem, família realmente pode não ser tão fácil como gostaríamos que fosse. E aqui não cabe discutir razões, certos, errados,  etc... A minha sugestão então é ver se é possível um ajuste criativo que ajude a lidar com as situações, este pode ser uma tentativa de revisão de importância ou uma atualização do sentimento, olhando sobre a ótica do presente da pessoa que você é hoje.
Estamos falando aqui do Natal, o evento de maior luz, paz e harmonia do ano, lembra? Talvez por isso o esforço.

É, mas eu sei... a preparação para o evento de luz pode ser dureza para alguns de nós. Se for assim, o desafio é se inspirar, se desapegar do ruim  e tentar olhar para os pequenos gestos de atenção vindos daqueles que lhe esperam com carinho ou com o jeito que conseguem mostrar o seus carinho. Quem sabe deste olhar pode vir o desfrute.

As vezes estes gestos aparecem em uma abraço mais apertado, um olhar afetuoso inesperado ou já conhecido, um presentinho simples, mas comprado pensando em agradar, um prato preparado sem o tempero que você não come, uma bebida que só você gosta, tente prestar atenção nisto, nas pequenas coisas.

Quanto ao Natal acho que a beleza do evento depende de um pouco de disposição para vivermos o evento com certa abertura para a luz, não esquecendo do seu real significado.

1 de setembro de 2019

Pensar é transgredir - de Lya Luft.

Não lembro em que momento percebi que viver deveria ser uma permanente reinvenção de nós mesmos – para não morrermos soterrados na poeira da banalidade embora pareça que ainda estamos vivos.

Mas compreendi, num lampejo: então é isso, então é assim. Apesar dos medos, convém não ser demais fútil nem demais acomodada. Algumas vezes é preciso pegar o touro pelos chifres, mergulhar para depois ver o que acontece: porque a vida não tem de ser sorvida como uma taça que se esvazia, mas como o jarro que se renova a cada gole bebido.
Para reinventar-se é preciso pensar: isso aprendi muito cedo. Apalpar, no nevoeiro de quem somos, algo que pareça uma essência: isso, mais ou menos, sou eu. Isso é o que eu queria ser, acredito ser, quero me tornar ou já fui.
Muita inquietação por baixo das águas do cotidiano. Mais cômodo seria ficar com o travesseiro sobre a cabeça e adotar o lema reconfortante: “Parar pra pensar, nem pensar!”
O problema é que quando menos se espera ele chega, o sorrateiro pensamento que nos faz parar. Pode ser no meio do shopping, no trânsito, na frente da tevê ou do computador.
Simplesmente escovando os dentes. Ou na hora da droga, do sexo sem afeto, do desafeto, do rancor, da lamúria, da hesitação e da resignação. Sem ter programado, a gente pára pra pensar.
Pode ser um susto: como espiar de um berçário confortável para um corredor com mil possibilidades. Cada porta, uma escolha. Muitas vão se abrir para um nada ou para algum absurdo. Outras, para um jardim de promessas. Alguma, para a noite além da cerca. Hora de tirar os disfarces, aposentar as máscaras e reavaliar: reavaliar-se.
Pensar pede audácia, pois refletir é transgredir a ordem do superficial que nos pressiona tanto. Somos demasiado frívolos: buscamos o atordoamento das mil distrações, corremos de um lado a outro achando que somos grandes cumpridores de tarefas.
Quando o primeiro dever seria de vez em quando parar e analisar: quem a gente é, o que fazemos com a nossa vida, o tempo, os amores. E com as obrigações também, é claro, pois não temos sempre cinco anos de idade, quando a prioridade absoluta é dormir abraçado no urso de pelúcia e prosseguir, no sono, o sonho que afinal nessa idade ainda é a vida.
Mas pensar não é apenas a ameaça de enfrentar a alma no espelho: é sair para as varandas de si mesmo e olhar em torno, e quem sabe finalmente respirar.
Compreender: somos inquilinos de algo bem maior do que o nosso pequeno segredo individual. É o poderoso ciclo da existência. Nele todos os desastres e toda a beleza têm significado como fases de um processo.
Se nos escondermos num canto escuro abafando nossos questionamentos, não escutaremos o rumor do vento nas árvores do mundo. Nem compreenderemos que o prato das inevitáveis perdas pode pesar menos do que o dos possíveis ganhos.
Os ganhos ou os danos dependem da perspectiva e possibilidades de quem vai tecendo a sua história. O mundo em si não tem sentido sem o nosso olhar que lhe atribui identidade, sem o nosso pensamento que lhe confere alguma ordem.
Viver, como talvez morrer, é recriar-se: a vida não está aí apenas para ser suportada nem vivida, mas elaborada. Eventualmente reprogramada. Conscientemente executada. Muitas vezes, ousada.
Parece fácil: “escrever a respeito das coisas é fácil”, já me disseram. Eu sei. Mas não é preciso realizar nada de espetacular, nem desejar nada excepcional. Não é preciso nem mesmo ser brilhante, importante, admirado.
Para viver de verdade, pensando e repensando a existência, para que ela valha a pena, é preciso ser amado; e amar; e amar-se. Ter esperança; qualquer esperança. Questionar o que nos é imposto, sem rebeldias insensatas mas sem demasiada sensatez. Saborear o bom, mas aqui e ali enfrentar o ruim. Suportar sem se submeter, aceitar sem se humilhar, entregar-se sem renunciar a si mesmo e à possível dignidade.
Sonhar, porque se desistimos disso apaga-se a última claridade e nada mais valerá a pena. Escapar, na liberdade do pensamento, desse espírito de manada que trabalha obstinadamente para nos enquadrar, seja lá no que for.
E que o mínimo que a gente faça seja, a cada momento, o melhor que afinal se conseguiu fazer.
 ‘Pensar é transgredir”, de Lya Luft, do livro ‘Pensar é transgredir’. Rio de Janeiro: Editora Record,  2004
Saiba mais sobre Lya Luft:

18 de agosto de 2019

"Pode deixar que eu resolvo!" Retroflexão e contemporaneidade.


Olhem que interessante esta reflexão sobre o pacto secreto, que muitos de nós fazem, para lidar com o vazio existencial vindo de faltas experimentadas em suas histórias. 

Este texto faz parte de estudos e compreensões sobre mecanismos de interrupções de contatos saudáveis, conceitos básicos de Gestalt-terapia.  O termo retroflexão se refere a uma parte do ciclo de contato saudável e aqui aparece em sua forma interrompida. 

Apesar dos termos técnicos vale a pena a leitura sobre o mundo contemporâneo que se oferece a nós e tenta nos fisgar para um tipo de movimento que nem sempre é saudável.

Se você se pega com frequência repetindo a frase abaixo a ponto de se exaurir e se ressentir,  sugiro que dedique um tempinho a leitura. Quem sabe ela pode lhe ajudar. 


"Pode deixar que eu resolvo!"
Retroflexão e contemporaneidade. 
Mônica Botelho Alvim.

O Mundo Contemporâneo, Tempo-Espaço da Vida


Nesse ponto podemos desviar nosso olhar para o mundo contemporâneo para, a partir de uma perspectiva de campo, buscar identificar algumas das principais forças presentes e desenhar um pequeno esboço de nossa compreensão.


Marcado por um racionalismo arraigado, pela tecnocracia e pelo abandono da experiência e da sensibilidade, o mundo contemporâneo está atravessado por alguns vetores - importantes para a nossa discussão -, que vêm sendo debatidos por autores contemporâneos da filosofia e sociologia como, por exemplo, Zigmunt Bauman, Richard Sennett, Stuart Hall e Guy Debord, pesquisadores com obras extensas que se dedicam à temática da contemporaneidade. Nossa leitura sublinha os temas da supervalorização da imagem e da aparência, busca de eficácia e obsessão pelo fazer de modo robotizado, consumismo, massificação e falta de espaço para a diferença.


Uma das temáticas mais freqüentemente discutidas pelos teóricos, ao refletir sobre a contemporaneidade, é o status da imagem. Interessa-nos aqui destacar o fato de que, nos dias de hoje, há uma supervalorização da imagem e da aparência que gera nas pessoas um movimento frenético em direção à conquista e à adoção de valores socialmente desejáveis.

A vida passa a ser marcada pela exterioridade e pela ilusão. Essa é a essência da sociedade do espetáculo de Guy Debord. Nosso tempo é marcado pela preferência da imagem em detrimento do original e pela preferência da aparência ao ser (Alvim, 2006, p. 13).

O cerne da obra de Debord, no que tange à importância da imagem, está expresso no primeiro aforismo da paráfrase brasileira do livro "A sociedade do espetáculo": "Toda a vida das sociedades nas quais reinam as condições modernas de produção se anuncia como uma imensa acumulação de espetáculos. Tudo o que era diretamente vivido se esvai na fumaça da representação" (Debord, 2003, p. 13).


A obsessão pelo fazer - visando conquistar sempre mais - está orientada pela busca da eficácia, altamente valorizada pela sociedade, e do reconhecimento a ela associado. O trabalho - cujo cenário é configurado por exigência de produtividade, competitividade, individualismo e auto-suficiência - assume uma centralidade cada vez maior na vida das pessoas. Não há coletividade, mas isolamento do meio e elas se tornam algozes de si próprios, se obrigando a serem cada vez mais, melhores que o outro e sozinhas. Nessa direção, Alvim (2006, p. 127) discute o panorama contemporâneo do trabalho e afirma:

Passa-se a agir de modo retroflector. A retroflexão pode ser definida como uma interrupção do contato com o mundo, onde o indivíduo se divide e age manipulando a si próprio como se fosse o meio. O controle, que antes era exercido por outro, se internaliza. O poder disciplinar é produto das instituições coletivas, mas elas agem individualizando, isolando e vigiando o sujeito individual (Hall, 2003, p. 43). "Eu" passo a ser o meu próprio capataz, que "me" obrigo a correr, trabalhar, produzir, brilhar. Sinto-me necessário, importante, insubstituível, poderoso, independente. E sofro: depressão, DORT (Distúrbios Osteo-musculares Relacionados ao Trabalho), stress.

O mundo contemporâneo, ao mesmo tempo em que demanda esforço individual, empenho no trabalho e criatividade, valor proferido como "o grande diferencial" pela mídia especializada em gestão de recursos humanos como um negócio, não oferece espaço para as diferenças, para a ação espontânea e o exercício da agressividade. Vivemos uma espécie de pasteurização, um processo de massificação que nos iguala, transformando-nos em objetos que podem também ser consumidos. O diferente, errante, ambíguo, primitivo, sensual, representa ameaça ao instituído, sendo colocado na categoria do anormal. Num cenário competitivo e refratário às diferenças, não há acolhimento, não há espaço público em qualquer grau para a manifestação de fraquezas, de impossibilidades, tampouco de impotência, o que contribui para a geração nas pessoas de um movimento de isolamento e contenção que se reflete no corpo: adoecimento e sofrimento.


Ao nos sentirmos amedrontados diante de um mundo que não nos oferece espaço para ser com nossas diferenças, recuamos e evitamos o conflito, ao qual pacificamos prematuramente. Passamos a compartilhar exatamente os mesmos valores já instituídos. Nossa dimensão criativa, espontânea, genuína fenece aos poucos em nome da homogeneidade. O mundo, a cultura, a sociedade - representados por algumas figuras simbólicas de autoridade - funcionam como as referências paternas e maternas da criança e terminam introjetados.


Resta-nos competir e nutrirmo-nos das pequenas vitórias nas batalhas triviais do cotidiano, que assumem muitas vezes o centro de nossa existência vazia e dividida, anestesiados, sem corpo e sensibilidade. Alimentando patologias sociais como o isolamento e a violência, seguimos cada vez menos solidários e cada vez mais solitários.


O consumo se constitui como uma espécie de alternativa para a tão almejada "felicidade", como uma possibilidade de fazer parte de um coletivo - o da moda. Na sociedade atual, o consumo é um dos fenômenos de maior importância. Produtos e serviços têm significados e importância que transcendem sua utilidade e valor comercial, carregando consigo a capacidade de transmitir e comunicar significados culturais.

Por fim, o consumidor, último locus de significado, faz uso dos significados culturais a fim de se autodefinir socialmente. Através dos objetos e produtos é que o indivíduo adquire percepção da sua própria vida, já que a utilização ou exibição de um produto contribui para a construção da personalidade (D'Angelo, 2004, p. 31).

D'Angelo (2004) relaciona identidade e consumo quando faz referência aos estudos de Belk (2000, citado por D'Angelo, 2004, p. 32): "consideramos nossos pertences como partes de nós. Nós somos o que temos e possuímos". A partir de tal ponto de vista, nosso valor também é dado pela mercadoria que consumimos, tanto aos nossos olhos, quanto aos olhos da sociedade. Por isso também é importante que nossos pertences sejam aparentes e até exibidos a outrem.


Vivemos numa sociedade do espetáculo, assim denominada por Guy Debord (2003), que nos fala de uma degradação do ser em busca do ter, e atual substituição do ter pelo parecer. Até mesmo a mercadoria consumida perde sua função última, e passa a ser instrumento do espetáculo. A sociedade "espetaculista" confirma a ilusão de que é preciso presentear-se para ter satisfação e leva essa ilusão um passo além, convencendo-nos da importância de seus bens frente ao poderio social.


O poder fictício do ter e parecer distancia o homem do contato com o mundo apreensível e com outros homens, constituindo-se em elemento alienador que bloqueia toda a interação sincera.

Do automóvel à televisão, todos os bens selecionados pelo sistema espetacular são também as suas armas para o reforço constante das condições de isolamento das "multidões solitárias". O espetáculo reencontra cada vez mais concretamente os seus próprios pressupostos (Debord, 2003, p. 18).

As relações passam a ser mediatizadas por imagens construídas a partir do consumo, seja de entretenimento, informação ou mercadoria. Não vemos o outro e nem somos vistos pelo outro, enxergamos os pertences um do outro e nos relacionamos a partir desse ponto.


A pessoa que retroflete é confirmada em sua solidão pelo próprio comportamento do consumo nos moldes do espetáculo. O consumismo e a solidão são padrões que se retroalimentam, aprisionando-a a crenças introjetadas.


De fato, tal mundo convida para uma vivência fundada na evitação e na ilusão. A ilusão da imagem e da representação, de um espetáculo que se assiste com distância, que compomos sem perceber. Espectadores, atores, consumidores.


O espectador/consumidor - de modo retroflector - passa a comprar para si "o melhor que o dinheiro pode proporcionar". Deseja adquirir os melhores carros, as roupas mais caras, freqüenta os restaurantes mais finos. Essa atitude representa, de um lado, afirmação de independência, confirmando que ele é capaz de produzir e vencer com seu próprio esforço; a pessoa valorizada e admirada é aquela que saiu do nada e conquistou fama e fortuna sozinha - pelos próprios métodos e méritos. A sociedade contemporânea "exige", por exemplo, que uma pessoa na faixa de trinta anos já tenha casa própria, com carro na garagem, um emprego bem remunerado, prestígio, sucesso pessoal e profissional. A exigência reflete a cultura do ter. Por outro lado, é também a confirmação de sua condição solitária e do muro que a separa do contato legítimo pelo qual, de certa forma, anseia. E que envolve sensibilidade, inventividade, risco e diferença.


Aceitar o convite da cultura do ter pode parecer um caminho fácil ou cômodo. Pode significar um disfarce para a solidão a que ser inventivo pode nos levar. A aventura do ser implica em transgredir o status quo, aventura que pode nos fazer sentirmo-nos diferentes e sós, como afirmaram Perls et al. (1997).

A sociedade capitalista e competitiva que forja um tipo de individualismo, está cheia de slogans para serem introjetados: "faça você mesmo"; "olho no concorrente", "olho por olho, dente por dente"; "toma lá, dá cá"; "bateu, levou". Tais slogans são sintomas de desajuste social, materialismo e violência. Assim, a retroflexão pode ser considerada um sintoma do modelo de funcionamento do sistema atual.


Por analogia, diríamos que o mito de Fausto é atualizado na sociedade contemporânea, na medida em que a busca por sucesso e fama tem sido uma obsessão do indivíduo, condenando-o a vagar pelo mundo do trabalho vendendo sua alma na competição exaustiva do mercado.

O drama goethiano sempre ofereceu às diferentes épocas o modelo literário para a elucidação da respectiva auto-imagem mediante um questionamento tipicamente fáustico: quão longe podemos ir na satisfação de nossas necessidades? Haveria um limite à nossa aspiração por felicidade, riqueza e domínio? Caso haja esse limite, onde começaria o pacto demoníaco? (Jaeger, 2007, p. 90).

Ao aceitar o convite da sociedade do espetáculo, o homem pós-moderno também realiza a mesma trajetória fáustica. Faz seu pacto secreto com a entidade diabólica do consumismo, em busca dos prazeres da vida individualista e materialista, porém, entediado de si mesmo. A condição de ser finito, imperfeito e solitário não satisfaz o fausto pós-moderno que, simbolicamente, venderá a alma para apossar-se de valores individualistas, sacrificando a sua "alma": o SER, aos padrões do TER.


O pacto secreto, mais que com o consumismo, é com a imagem. "Reforçadores sociais como prestígio, ascensão profissional, conquista de cargos disputados, premiações, que atuam nos sentimentos de orgulho e vaidade pessoal" (Alvim, 2006, p. 13) conduzem a um investimento maciço de energia no trabalho, na luta para atender as expectativas sociais. Debord (2003) ressalta a questão da imagem, afirmando que quando o mundo transforma- se em imagens, elas se tornam seres reais que motivam um comportamento hipnótico. Para ele, "o espetáculo é o sonho mau da sociedade moderna aprisionada que só expressa afinal o seu desejo de dormir" (Debord, 2003, p. 13).


Atormentadas e hipnotizadas pelo espetáculo do qual fazem parte, as pessoas chegam a nossos consultórios. O espaço para a expressão e de acolhimento da diferença, tal como preconiza a Gestalt-terapia, - este sim - pode oferecer a segurança necessária para o resgate da capacidade inventiva e da agressividade que transforma.


Nesse espaço, o Ser pode se desvelar quando a pessoa pode ser olhada e acolhida, evento raro na sociedade espetacular. Tal olhar, quando sentido como aceitação é capaz de diminuir a sensação de inadequação e solidão frente suas próprias possibilidades criativas. Dessa forma, primeiramente no consultório, na relação de segurança entre cliente e terapeuta; e, talvez mais tarde no mundo, a pessoa permita-se iniciar a expressão de sua forma singular e criativa de estar no mundo.


Ao deparar-se com suas possibilidades, em situação de real acolhimento no qual a pessoa possa sentir e acreditar que não corre o risco ser novamente derrotada/ humilhada é possível descansar da implacável tarefa da autoconquista e experimentar o labor da criação. A aceitação do cliente de sua totalidade, incluindo sua força e fragilidade, sua criatividade e diferença, são grandes e importantes passos na mudança do Ter para o Ser, da retroflexão para o contato legítimo e da transformação do campo e da cultura.

Leia todo o artigo em: 
http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1809-68672010000200008




25 de julho de 2019

Carta ao Senhor Medo!

Esta linda carta fez parte de um exercício terapêutico,  escrita por uma pessoa que venceu! Venceu medos, dores, mágoas e muito mais... 

E se tornou uma mulher capaz de "curar como foi curada"!
Maria Ester hoje se empenha em sua formação em Arte-terapia, seu desejo é poder oferecer cuidado, apoio e o estímulo da arte a aqueles que precisam passar por jornadas de crescimento pessoal. 







Senhor Medo

De hoje em diante não vou mais deixar você me atrapalhar.
Desde que eu era criança, você povoa meus pensamentos, não me deixando fazer o que gosto ou penso que possa ser bom para mim.
Por deixar você estar presente, não aprendi muitas coisas, tais como andar de bicicleta.
Também eu fazia o que os outros mandavam, mesmo que eu não concordasse. Tinha medo de ser repreendida, ficar de castigo e às vezes apanhar.
De ser excluída dos grupos.
Você me paralisava.
Agora eu cresci e aprendi a lidar com você.
Sei que muitas vezes existem fatos que podem intimidar, que são reais.
Mas também sei que a minha coragem e os aprendizados que a vida me trouxe, me proporcionam sabedoria e discernimento para enfrentar você, fazendo o que é necessário para resolver a situação ou situações surgidas no momento.
Cresci, sei que a vida nos trás o que é necessário para o nosso crescimento e a fluidez que é necessária no momento.
Que quando eu olhei nos olhos de meu pai e disse a ele como me sentia, que não gostei da atitude abusiva dele quando eu era criança, eu me libertei.
Libertei para a vida, para lidar com você MEDO.
Libertei-me também para perdoá-lo entende-lo, percebendo que assim como eu ele carregou dores, sofrimentos, medos de não saber como agir.
Hoje estou em PAZ comigo, com ele e sei que quando você vier eu usarei a sabedoria e a coragem que tenho.

 Maria Ester Vieira

11 de junho de 2019

Aos enamorados... por alguém, por algo, por si!

AS RAZÕES DO AMOR

Os místicos e os apaixonados concordam em que o amor não tem razões. Angelus Silésius, místico medieval, disse que ele é como a rosa : “A rosa não tem “porquês”. Ela floresce porque floresce.”
Drummond repetiu a mesma coisa no seu poema As Sem-Razões do Amor. É possível que ele tenha se inspirado nestes versos mesmo sem nunca os ter lido, pois as coisas do amor circulam com o vento.
“Eu te amo porque te amo…” – sem razões… “Não precisas ser amante, e nem sempre sabes sê-lo.” Meu amor independe do que me fazes. Não cresce do que me dás. Se fosse assim ele flutuaria ao sabor dos teus gestos. Teria razões e explicações. Se um dia teus gestos de amante me faltassem, ele morreria como a flor arrancada da terra.
“Amor é estado de graça e com amor não se paga.” Nada mais falso do que o ditado popular que afirma que “amor com amor se paga”. O amor não é regido pela lógica das trocas comerciais. Nada te devo. Nada me deves. Como a rosa que floresce porque floresce, eu te amo porque te amo.
“Amor é dado de graça, é semeado no vento, na cachoeira, no eclipse. Amor foge a dicionários e a regulamentos vários… Amor não se troca… Porque amor é amor a nada, feliz e forte em si mesmo…”
Drummond tinha de estar apaixonado ao escrever estes versos. Só os apaixonados acreditam que o amor seja assim, tão sem razões. Mas eu, talvez por não estar apaixonado (o que é uma pena…), suspeito que o coração tenha regulamentos e dicionários, e Pascal me apoiaria, pois foi ele quem disse que “o coração tem razões que a própria razão desconhece”. Não é que faltem razões ao coração, mas que suas razões estão escritas numa língua que desconhecemos.
Destas razões escritas em língua estranha o próprio Drummond tinha conhecimento, e se perguntava: “Como decifrar pictogramas de há 10 mil anos se nem sei decifrar minha escrita interior? A verdade essencial é o desconhecido que me habita e a cada amanhecer me dá um soco.” O amor será isto: um soco que o desconhecido me dá?
Ao apaixonado a decifração desta língua está proibida, pois se ele a entender, o amor se irá. Como na história de Barba Azul: se a porta proibida for aberta, a felicidade estará perdida. Foi assim que o paraíso se perdeu: quando o amor – frágil bolha de sabão – não contente com sua felicidade inconsciente, se deixou morder pelo desejo de saber. O amor não sabia que sua felicidade só pode existir na ignorância das suas razões. Kierkegaard comentava o absurdo de se pedir aos amantes explicações para o seu amor. A esta pergunta eles só possuem uma resposta: o silêncio. Mas que se lhes peça simplesmente falar sobre o seu amor – sem explicar. E eles falarão por dias, sem parar…
Mas – eu já disse – não estou apaixonado. Olho para o amor com olhos de suspeita, curiosos. Quero decifrar sua língua desconhecida. Procuro, ao contrário do Drummond, as cem razões do amor…

Vou a Santo Agostinho, em busca de sua sabedoria. Releio as Confissões, texto de um velho que meditava sobre o amor sem estar apaixonado. Possivelmente aí se encontre a análise mais penetrante das razões do amor jamais escrita. E me defronto com a pergunta que nenhum apaixonado poderia jamais fazer: “Que é que eu amo quando amo o meu Deus?” Imaginem que um apaixonado fizesse essa pergunta à sua amada: “Que é que eu amo quando te amo?” Seria, talvez, o fim de uma estória de amor. Pois esta pergunta revela um segredo que nenhum amante pode suportar: que ao amar a amada o amante está amando uma outra coisa que não é ela. Nas palavras de Hermann Hesse, “o que amamos é sempre um símbolo”. Daí, conclui ele, a impossibilidade de fixar o seu amor em qualquer coisa sobre a terra.
Variações sobre a impossível pergunta:“Te amo, sim, mas não é bem a ti que eu amo. Amo uma outra coisa misteriosa, que não conheço, mas que me parece ver aflorar no seu rosto. Eu te amo porque no teu corpo um outro objeto se revela. Teu corpo é lagoa encantada onde reflexos nadam como peixes fugidios… Como Narciso, fico diante dele… No fundo de tua luz marinha nadam meus olhos, à procura… Por isto te amo, pelos peixes encantados…”(Cecília Meireles)

Mas eles são escorregadios, os peixes. Fogem. Escapam. Escondem-se. Zombam de mim. Deslizam entre meus dedos. Eu te abraço para abraçar o que me foge. Ao te possuir alegro-me na ilusão de os possuir. Tu és o lugar onde me encontro com esta outra coisa que, por pura graça, sem razões, desceu sobre ti, como o Vento desceu sobre a Virgem Bendita. Mas, por ser graça, sem razões, da mesma forma como desceu poderá de novo partir. Se isto acontecer deixarei de te amar. E minha busca recomeçará de novo…"

Esta é a dor que nenhum apaixonado suporta. A paixão se recusa a saber que o rosto da pessoa amada (presente) apenas sugere o obscuro objeto do desejo (ausente). A pessoa amada é metáfora de uma outra coisa. “O amor começa por uma metáfora”, diz Milan Kundera. “Ou melhor: o amor começa no momento em que uma mulher se inscreve com uma palavra em nossa memória poética.

Temos agora a chave para compreender as razões do amor: o amor nasce, vive e morre pelo poder – delicado – da imagem poética que o amante pensou ver no rosto da amada…

(Rubem Alves)
(Crônica publicada no “Correio Popular”, Campinas, em 14/05/92)


27 de maio de 2019

Parábola dos potes de barro

Haviam dois grande e belos potes que, num canto do quintal, falavam entre si:

- Ah, que tédio! Que vida! Viver aqui, exposto a tudo, sol, vento, chuva, calor... Por mais que eu me proteja, como sobreviverei? Aqui estou perfeitamente tampado, lacrado para proteger-me e ainda assim sinto-me ameaçado, vazio. Não vejo graça em estar aqui.


Tranquilamente, retrucava o outro pote:

- Veja, eu encontro-me aqui, aberto, nada me protege a boca, ou melhor, o meu interior. Cai a chuva, eu recebo-a. Vem o vento, eu sinto-o bem dentro de mim. Vem o sol e me leva as gotinhas que retornam para o céu. E nem por isso sinto-me ameaçado...

- Ora, grande vantagem! Seu interior não guarda mais a cor original como o meu, sua cor é cada vez mais diferente. Você não é mais o mesmo...

- Sim, e isso me alegra! O meu interior transforma-se a cada dia, à medida em que novas coisas penetram-me. Posso sentir cada criatura que me visita e cada uma delas deixa algo de si para mim, assim como deixo para elas, pouco a pouco, a minha cor.

- É, mas você não tem mais paz, a todo instante você é solicitado, carregam você todo o dia para levar água, ao passo que eu permaneço no meu lugar. Ninguém me incomoda, quando aproximam-se, já sei que é a você que eles querem.

- Sim, se solicitam-me é porque tenho algo a dar e o que dôo não é diferente do que você pode dar. Deixo-me encher pela água da chuva, que cai tanto sobre mim quanto sobre você. Encho-me até transbordar. Outros seres precisam desta água e eu os sirvo. Esvazio-me e deixo-me encher de novo, assim minha vida é um constante dar e receber. Enquanto isso, desinstalo-me, saio do meu pequeno mundo e vou ao encontro de outros mundos. Já conheci potes diversos, animais, pessoas, tantas coisas e seres! E cada uma faz-me perceber ainda mais o pote que eu sou.

- Não sei, se continuar assim, brevemente serás um pote quebrado, gasto, e então de que adiantará tudo isso?

- Creio que se me desgasto a cada dia é para ser possível levar vida a outros seres. Vejo que o mais importante não é ser um pote intacto tal como fui feito, mas um pote de valor como estou tornando-me. Se vou durar pouco tempo não importa, se o pouco que eu viver tiver sentido trouxer-me alegrias e fizer-me sentir cada vez mais o que é ser pote, isso me basta....

Já era tarde, o sol já havia escondido-se quando os dois cansaram-se de falar. O pote aberto, sentido-se cansado logo adormeceu, o que não foi possível para o outro pote, ele não conseguira dormir, pois algumas palavras ditas pelo companheiro viam-lhe à mente e não o deixavam em paz.

TRANSFORMAR O INTERIOR! ...PAZ!...ESVAZIAR-SE!..DEIXAR-SE ENCHER! DEIXAR ALGO DE SI! ...SER POTE!...DESINSTALAR-SE!...SER FELIZ!... SER ÚTIL.. LEVAR ALEGRIA... HUMILDADE! PACIÊNCIA...MANSIDÃO.. SENTIR... 

Na manhã seguinte, enquanto um pote acordava, outro dormia, porque fora grande o seu esforço para tirar a tampa que o acompanhava por tanto tempo.


Do livro: As mais belas Parábolas de todos os tempos - 
Alexandre Rangel. 



22 de maio de 2019

Bate-papo – Escola das Famílias na Casa do Bem


Primeiro encontro
Queremos cuidar ou queremos proteger? 

Neste encontro a ideia é clarear a diferença entre a ação que cuida e a ação que protege e o quanto a escolha de uma forma mais cuidadosa do que protetiva faz diferença para um tranquilo desenvolvimento. 
Para esclarecermos  esta questão,  estaremos contando  como  a atitude  de cuidar, ao logo das fases do desenvolvimento, pode  estimular um livre desabrochar da confiança. Algo tão básico e fundamental  para  um livre despertar de muitas outras aquisições e habilidades dos nossos filhos.  
Muito pode ser feito  para que estes anos sensíveis sejam  bem desfrutados e abram espaço para que a criança de hoje seja o adulto saudável e pleno de amanhã.  E é por este motivo que convido a pais e cuidadores para virem debater comigo e com a minha colega Maria Ester Vieira – Arte terapeuta.

Onde: Rua Auxiliadora 210 – Auxiliadora - PoA
Data: 24/05 as 17hs
Custo:  R$ 30,00 para pais da Aldeia encantada e meus pacientes
            R$ 50,00 publico em geral



Cada vez mais vejo o quanto pais atentos buscam informações que contribuam para um bom desenvolvimento  de seus filhos e isso faz uma grande diferença.
Eu trabalho com adultos e adolescentes, mas a alguns anos venho me dedicando ao estudo mais aprofundado das fases do desenvolvimento infantil e fazendo links com o que aparece de dificuldades nas atuais experiencias dos meus pacientes. 
Nos acompanhamentos vejo inúmeras questões relacionadas a experiencias vividas ao longo do desenvolvimento. Como cada um chega a sua adolescência, e o que vai aparecer na crise normativa desta fase,  depende muito do vivido anteriormente.
Cada fase do desenvolvimento  promove uma serie aptidões e estas vão aprontando a criança para o desenvolvimento  e novas aquisições das próximas fases.
O bebê vai se formando, se desenvolvendo fisicamente e psiquicamente, dando nuances a qualidade do seu emocional. A criança vai dando  tchau ao bebê e dando tons ao seu colorido. A criança vai passando por cada fase e se desenvolvendo mais e mais, adquirindo mais coloridos e a experiencia da adolescência  permite a definição de um colorido próprio, único,  que se firmará no adulto.
Neste processo lindo, a família tem um grande papel, os cuidadores, os educadores  envolvidos são o suporte e também a fonte de estímulos que vai propiciando as aquisições.
Tudo isso vai acontecendo de uma forma tão natural. Haverão pequenos desafios que pedirão desabrochar de aptidões.
Para quem não está bem informado ficam mais visíveis as questões físicas, mas isto é um processo do todo  dos nossos filhos, que  vai se desenvolvendo em conjunto. Um desafio físico ou comportamental surge e se for vencido promoverá o desenvolvimento de uma habilidade emocional ou cognitiva. Está tudo ligado.

7 de abril de 2019

Sobre ouvir de verdade

O texto abaixo foi tema do meu curso de pós graduação em Gestalt Terapia deste fim de semana.  
ESCUTATÓRIA Rubem Alves 
Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir. Pensei em oferecer um curso de escutatória. Mas acho que ninguém vai se matricular.  
Escutar é complicado e sutil. Diz o Alberto Caeiro que “não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. É preciso também não ter filosofia nenhuma“. Filosofia é um monte de idéias, dentro da cabeça, sobre como são as coisas. Aí a gente que não é cego abre os olhos. Diante de nós, fora da cabeça, nos campos e matas, estão as árvores e as flores. Ver é colocar dentro da cabeça aquilo que existe fora. O cego não vê porque as janelas dele estão fechadas. O que está fora não consegue entrar. A gente não é cego. As árvores e as flores entram. Mas - coitadinhas delas - entram e caem num mar de idéias. São misturadas nas palavras da filosofia que mora em nós. Perdem a sua simplicidade de existir. Ficam outras coisas. Então, o que vemos não são as árvores e as flores. Para se ver e preciso que a cabeça esteja vazia.  
Faz muito tempo, nunca me esqueci. Eu ia de ônibus. Atrás, duas mulheres conversavam. Uma delas contava para a amiga os seus sofrimentos. (Contou-me uma amiga, nordestina, que o jogo que as mulheres do Nordeste gostam de fazer quando conversam umas com as outras é comparar sofrimentos. Quanto maior o sofrimento, mais bonitas são a mulher e a sua vida. Conversar é a arte de produzir-se literariamente como mulher de sofrimentos. Acho que foi lá que a ópera foi inventada. A alma é uma literatura. É nisso que se baseia a psicanálise...) Voltando ao ônibus. Falavam de sofrimentos. Uma delas contava do marido hospitalizado, dos médicos, dos exames complicados, das injeções na veia - a enfermeira nunca acertava -, dos vômitos e das urinas. Era um relato comovente de dor. Até que o relato chegou ao fim, esperando, evidentemente, o aplauso, a admiração, uma palavra de acolhimento na alma da outra que, supostamente, ouvia. Mas o que a sofredora ouviu foi o seguinte: “Mas isso não é nada...
“ A segunda iniciou, então, uma história de sofrimentos incomparavelmente mais terríveis e dignos de uma ópera que os sofrimentos da primeira.  Parafraseio o Alberto Caeiro: “Não é bastante ter ouvidos para se ouvir o que é dito. É preciso também que haja silêncio dentro da alma.“ 
Daí a dificuldade: a gente não agüenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor, sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer. Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração e precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor. 
No fundo somos todos iguais às duas mulheres do ônibus. Certo estava Lichtenberg - citado por Murilo Mendes: “Há quem não ouça até que lhe cortem as orelhas.
“ Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil da nossa arrogância e vaidade: no fundo, somos os mais bonitos...  
Tenho um velho amigo, Jovelino, que se mudou para os Estados Unidos, estimulado pela revolução de 64. Pastor protestante (não “evangélico“), foi trabalhar num programa educacional da Igreja Presbiteriana USA, voltado para minorias. Contou-me de sua experiência com os índios. As reuniões são estranhas. Reunidos os participantes, ninguém fala. Há um longo, longo silêncio. (Os pianistas, antes de iniciar o concerto, diante do piano, ficam assentados em silêncio, como se estivessem orando. Não rezando. Reza é falatório para não ouvir. Orando. Abrindo vazios de silêncio. Expulsando todas as idéias estranhas. Também para se tocar piano é preciso não ter filosofia nenhuma). Todos em silêncio, à espera do pensamento essencial. Aí, de repente, alguém fala. Curto. Todos ouvem. Terminada a fala, novo silêncio. Falar logo em seguida seria um grande desrespeito. Pois o outro falou os seus pensamentos, pensamentos que julgava essenciais. Sendo dele, os pensamentos não são meus. 
São-me estranhos. Comida que é preciso digerir. Digerir leva tempo. É preciso tempo para entender o que o outro falou. Se falo logo a seguir são duas as possibilidades. 
Primeira: “Fiquei em silêncio só por delicadeza. Na verdade, não ouvi o que você falou. Enquanto você falava eu pensava nas coisas que eu iria falar quando você terminasse sua (tola) fala. Falo como se você não tivesse falado.“ 
Segunda: “Ouvi o que você falou. Mas isso que você falou como novidade eu já pensei há muito tempo. É coisa velha para mim. Tanto que nem preciso pensar sobre o que você falou.“ 
Em ambos os casos estou chamando o outro de tolo. O que é pior que uma bofetada. O longo silêncio quer dizer: “Estou ponderando cuidadosamente tudo aquilo que você falou.“ 
E assim vai a reunião.  Há grupos religiosos cuja liturgia consiste de silêncio. Faz alguns anos passei uma semana num mosteiro na Suíça, Grand Champs. Eu e algumas outras pessoas ali estávamos para, juntos, escrever um livro. Era uma antiga fazenda. Velhas construções, não me esqueço da água no chafariz onde as pombas vinham beber. Havia uma disciplina de silêncio, não total, mas de uma fala mínima. O que me deu enorme prazer às refeições. Não tinha a obrigação de manter uma conversa com meus vizinhos de mesa. Podia comer pensando na comida. Também para comer é preciso não ter filosofia. Não ter obrigação de falar é uma felicidade. Mas logo fui informado de que parte da disciplina do mosteiro era participar da liturgia três vezes por dia: às 7 da manhã, ao meio-dia e às 6 da tarde. Estremeci de medo. Mas obedeci. O lugar sagrado era um velho celeiro, todo de madeira, teto muito alto. Escuro. Haviam aberto buracos na madeira, ali colocando vidros de várias cores. Era uma atmosfera de luz mortiça, iluminado por algumas velas sobre o altar, uma mesa simples com um ícone oriental de Cristo. Uns poucos bancos arranjados em “U“ definiam um amplo espaço vazio, no centro, onde quem quisesse podia se assentar numa almofada, sobre um tapete. Cheguei alguns minutos antes da hora marcada. Era um grande silêncio. Muito frio, nuvens escuras cobriam o céu e corriam, levadas por um vento impetuoso que descia dos Alpes. A força do vento era tanta que o velho celeiro torcia e rangia, como se fosse um navio de madeira num mar agitado. O vento batia nas macieiras nuas do pomar e o barulho era como o de ondas que se quebram. Estranhei. Os suíços são sempre pontuais. A liturgia não começava. E ninguém tomava providências. Todos continuavam do mesmo jeito, sem nada fazer. Ninguém que se levantasse para dizer: “Meus irmãos, vamos cantar o hino...“ Cinco minutos, dez, quinze. Só depois de vinte minutos é que eu, estúpido, percebi que tudo já se iniciara vinte minutos antes. As pessoas estavam lá para se alimentar de silêncio. E eu comecei a me alimentar de silêncio também. 
Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos. E aí, quando se faz o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia. Eu comecei a ouvir. 
Fernando Pessoa conhecia a experiência, e se referia a algo que se ouve nos interstícios das palavras, no lugar onde não há palavras. E música, melodia que não havia e que quando ouvida nos faz chorar. A música acontece no silêncio. É preciso que todos os ruídos cessem. 
No silêncio, abrem-se as portas de um mundo encantado que mora em nós - como no poema de Mallarmé, A catedral submersa, que Debussy musicou. A alma é uma catedral submersa. No fundo do mar - quem faz mergulho sabe - a boca fica fechada. Somos todos olhos e ouvidos. 
Me veio agora a idéia de que, talvez, essa seja a essência da experiência religiosa - quando ficamos mudos, sem fala. Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não havia, que de tão linda nos faz chorar. Para mim Deus é isto: a beleza que se ouve no silêncio. Daí a importância de saber ouvir os outros: a beleza mora lá também. Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto...  (O amor que acende a lua, pág. 65.) 
Fonte:http://rubemalves.locaweb.com.br/hall/ww pct3/newfiles/escutatoria.php