19 de setembro de 2018

O valor dos relacionamentos


Quem conhece o meu trabalho sabe o quanto dou valor as questões relacionais e não é por menos. Somos seres relacionais, construímos nossa identidade a partir dos relacionamentos. Do início ao fim da vida. Neste texto explico um pouco sobre isto.

Nossos corações anseiam por contato e diálogo genuíno. Sem diálogo estamos sós, isolados não só do outro, mas de nós mesmos.  A partir do encontro relacional temos a oportunidade de deixar emergir nossa singularidade. Sem o outro  não é  possível  nos percebermos, observarmos nossas diferenças e riquezas pessoais.
  
No  fundo, todos nós precisamos  ser confirmados, validados, ter nosso colorido qualificado, reconhecido e,  por consequência,   diferenciado.  Nossa singularidade se  constrói a partir destes movimentos  e é aí que vamos qualificando o que  entendemos ser.

Queremos ser  percebidos  em nossas potenciais, mas também em nossas vulnerabilidades e, desta forma “suportados” ,  apoiados para irmos  adiante,  crescendo. Quando validados e reconhecidos nos sentimos aptos e potentes, quando suportados e apoiados nos sentimos dignos de sermos amados.

Neste sentido, se relacionar é fundamental, quase como se alimentar.  “O paradoxo do espirito humano é que: não sou completamente eu mesmo, até que seja reconhecido em minha singularidade pelo outro – esse outro precisa do meu reconhecimento a fim de se tornar a pessoa única que é. Somos inextrincavelmente entrelaçados. Nossa validação pelo outro traz valor a nós mesmos”.  Erving Polster

É mais fácil entendermos isso quando pensamos no processo de construção de singularidades solicitado por um recém nascido. Enquanto o bebê  cresce, vai desenvolvendo sua singularidade, se diferenciando  e verificando  o quanto a sua presença solicita o outro... Primeiro ele percebe o ambiente e o qualifica, se “qualificando” junto. Depois os cuidadores vão tomando forma e a medida que esta forma vai se  detalhando o bebê se dá conta de si, se diferencia e vai fazendo contato, qualificando este  contato e a sí mesmo.  Junto com isto a mãe e cuidadores  se ressignificam, alterando sua singularidade para responder ao que é pedido.  Agora cuidar e se qualificar quanto a isso.

É lindo de ver!  Para o bebê serão os  primeiros exercícios  relacionais e estes marcarão a sua forma de se relacionar  e  para os cuidadores a revisão deste exercício é a possibilidade de se reinventar.

Isto é algo profundo e ao mesmo tempo simples,  pelo fato de acontecer naturalmente. Nós  simplesmente vamos exercitando nossas construções de singularidade sem que precisemos nos dar conta do que estamos realizando. Mas, como pais e cuidadores,  é bom termos clareza do que acontece no todo do cuidar.
 
Quando eu atendo adolescentes em seus movimentos de revisão do que foi organizado até então,  trabalho bastante as questões quanto a confiança no mundo e em sí, as bases da famosa autoestima, e aí muitas questões do vivido lá atrás se fazem presentes.  O bom é que muito pode ser trabalhado e ressignificado.  E é maravilhoso poder ser quem os suporta nestas revisões e quem os ajuda a se qualificar novamente, se preciso de forma diferente da vivida. E então temos ai as novas construções de um futuro adulto seguro e confiante.

Tudo isso como? Com muita atenção as necessidades e a partir do exercício de um encontro relacional atento e, no caso dos grupos, de muitos encontros relacionais!