27 de junho de 2017

Você quer que o outro seja só o que espera dele?


Eu faço minhas coisas, você faz as suas. Não estou neste mundo para viver de acordo com suas expectativas
E você não está neste mundo para viver de acordo com as minhas
Você é você, e eu sou eu
E se por  acaso nos encontrarmos, é lindo
Se  não, nada há a fazer
(Frederick Perls)

Pergunta:
Vera 47 anos.  Estou namorando um senhor que, no início do relacionamento parecia ser tudo que eu sempre quis. O problema é que com o passar do tempo ele começou a ser  desagradável e  não é mais o que eu imaginava. Será que sou muito exigente? Parece  que ninguém me agrada.

Respondendo:
Vera, você está vivendo algo que muitas pessoas vivem,  um primeiro encantamento e depois, com  a aproximação e a intimidade, o aparecimento das diferenças.  As pessoas não são só o que esperamos delas. Nós podemos  imaginá-las como gostaríamos, mas elas não podem ser tudo o que esperávamos.  E para você parece que isso vem se repetindo. Toda repetição merece muita atenção.

Nós nos apaixonamos por uma pessoa a partir do que vemos ou sentimos dela, determinadas qualidades e características. São coisas que nos preenchem, nos completam, nos motivam...  Porém, estas coisas que nos encantam não são o todo de uma pessoa, ela é muito mais que isso.

Quando permanecemos mais tempo com alguém as diferenças ficam mais marcantes e podem ser aceitas ou não. O amor passa a ir tomando conta da paixão quando a balança pesa para o positivo e as diferenças não interrompem o encantamento. Caso contrário, a relação pode se desfazer.

Neste  momento da sua relação é  bom discriminar, o que é expectativa sua e o que ele é realmente.   Generalizar uma pessoa é um erro. Ninguém é tudo o que esperamos e por isso tão bom. E também não é todo ruim, ao contrário.

Uma  pergunta a se fazer é: Ele é desagradável ou tem coisas desagradáveis? Esta resposta é muito importante.  Outras são: Estas coisas desagradáveis pesam mais que as agradáveis? Ou as agradáveis pesam mais? Ele deve ser o que você espera ou pode ser ele, com coisas que você espera e outras não? Como lidar com as características que você não gosta tanto assim, sem desrespeitar a autenticidade dele?

Lendo isto tudo, você pode despertar para a observação de identidades diferentes,  com possibilidades  de um encontro legal ou não, como diz lá no poema acima. E se não der para ser ok,  a vida segue em seu  colorido de pessoas e  experiências.




6 de junho de 2017

Fronteiras do pensamento - PoA 2017 - O vazio que leva ao adoecimento

Ontem estive no Fronteiras do Pensamento - Novas Ideias, Novas Escolhas – temporada Civilização, a sociedade e seus valores. Fui assistir ao debate de Eduardo Giannetti e Gilles Lipovetsky. Um encontro que me provocou expectativa, diante da necessidade atual do tema.

Confesso que vi certa dificuldade no estabelecimento de uma fala conjunta construtiva, percebi dois importantes pensadores colocando suas ideias em separado e, em alguns momentos, as tratando de forma defensiva. Uma pena.

Ao meu ver em qualquer tipo de encontro, é justamente no exercício do debate genuíno, com aceitação das diferentes ideias, que nossa sociedade terá chances de dar espaço a algo criativo, que a leve para possíveis mudanças.  Um desafio desta sociedade que estamos tentando repensar, já que o nosso momento histórico é de polarização.

Mas independente desta percepção, tivemos uma noite de importantes reflexões. Gostei muito da fala do economista Giannetti, por incrível que pareça mais existencialista que o próprio filosofo  Gilles. Ele tratou, entre muitas outras coisas, de algo que considero especialmente importante para a nossa reflexão. Fez uma relação do vazio existencial do homem pós-moderno com o que chamou de  vazio ecológico. Algo que se manifesta no intrapsíquico e no nosso atual jeito de lidar com o meio ambiente. Vazio ecológico tanto no mundo interno como no externo.

Isto se relaciona muito com o que venho estudando sobre o vazio que nos abate e que tem sido um dos nossos principais fatores de adoecimento. Vazio que vem de uma forma de vida desconectada de nossos valores primordiais e excessivamente conectada com as experiencias da pós modernidade.  Gerado, em primeira instância, pela dissociação homem e natureza. Quando não nos colocamos como parte da natureza e sim controladores e dominadores desta, tendemos a cair em um grave erro de distorção de valores. E, em segunda instância, pela crença no individualismo e sua gama de valores imensamente distorcidos.

Mas a minha questão aqui é: o que fazer? Este é o meu objeto de trabalho e toda a análise e estudo que realizo volta-se para um tipo de busca de possibilidades harmônicas que nos permitam mais plenitude. Algo fundamental, já que a maioria dos casos de depressão, os transtornos de ansiedade diversos e muitos adoecimentos psicossomáticos estão relacionados a um vazio, muitas vezes inexplicável para quem o sente. 

Bem, eu fiz uma pergunta aos palestrantes, mas esta não chegou a ser lida pelo mediador. Então saí com a contribuição do que ouvi para acrescentar a minha colcha de retalhos.

Portanto, proponho refletirmos sobre o que está sendo feito hoje para estarmos vivendo estes imensos vazios. E o pouco que podemos fazer, sem ter que ser um grande pensador, mas pessoas que podem se rever, se ressignificar e se reorganizar em suas vidas.

Deixo duas perguntas que podem estimular a sua reflexão:

Quem sou eu quanto a natureza? E se quiser aprofundar a questão recomendo a leitura do livro: "De repente, nas profundezas do bosque – Amós Oz. Próximo palestrante desta temporada. Um" romance querido, simples e profundo.
Quais são as minhas reais necessidades? Não desejos, necessidades. Um processo de observação de si, no aqui e agora pode ajudar a iniciar esta resposta. Comece se percebendo dentro deste fluxo mecanicista que somos a todo tempo estimulados a viver, esta correria automática do dia-a-dia. Uma forma mecânica de viver impulsionada pelo desejo de produção, pela comparação e consumo desenfreado.

É, deixo aqui perguntas difíceis e desafiadoras, mas que podem iniciar um processo de aproximação de si consigo mesmo e com a natureza “curadora” que existe em todos nós.