26 de abril de 2017

Acupuntura para Depressão - Respondendo

.
Sim, é possível usarmos a acupuntura no tratamento da depressão, tenho tido bons resultados com a combinação psicoterapia e acupuntura, com apoio ou não medicamentoso. O tratamento depende de um prévio diagnóstico, cada pessoa tem suas particularidades e suas necessidades.  É preciso avaliar os desencadeantes do desequilíbrio/adoecimento, o tipo de depressão e outras características e assim definir o uso da melhor técnica. Normalmente o diagnóstico conta com uma profunda escuta e uma avaliação da  MTC Constitucional. Dependendo do caso recorro ao apoio de um médico psiquiatra da minha equipe ou uma colega endocrinologista, para complementar.


O Tratamento da Depressão pela Acupuntura 

Para a acupuntura chinesa não existe uma doença, mas sim um doente que necessita de tratamento. O tratamento por pontos de acupuntura sistêmica e moxabustão, conforme sua função e localização, visa normalizar o sistema de canais energéticos, aliviar sintomas digestivos e extra digestivos, fortalecer energia fonte, expulsar fatores patogênicos e normalizar a circulação vital de Qi.

O presente estudo, da colega acupunturista Renata Marcondes, demonstrou que a acupuntura apresenta uma influência profunda sobre os problemas emocionais e mentais, sendo recomendável a combinação dessa técnica com outros tratamentos, mostrando um potencial promissor na utilização da acupuntura para depressão.

A depressão figura como uma das principais formas de manifestação do sofrimento psíquico presente na contemporaneidade, sendo comum a referência a este período como “era das depressões”, em comparação ao final do século XIX, que foi marcado pela histeria KAPLAN, HI; SODOCK, BJ; GREBB, JÁ (2003).

O termo depressão mental não existe em medicina chinesa. Ele é ocidental e não se origina de uma classificação específica segundo a dialética da (MTC) Medicina Tradicional Chinesa. Ele é associado à diferentes doenças tradicionais englobadas em um mesmo conceito Yu Zheng (síndrome depressiva).

De uma forma geral, as pessoas normalmente experimentam uma ampla faixa de humores, que podem variar entre normal, elevado ou deprimido e tem um repertório igualmente   variado de expressões  afetivas.   Elas sentem-se no controle de seus humores e afetos.   Os transtornos do humor constituem um grupo de condições clínicas caracterizadas pela perda deste senso de controle e uma experiência subjetiva de grande sofrimento. Guy (1998).

A Organização Mundial de Saúde (OMS), através da Classificação Internacional de Doenças (CID – 10), a depressão, em seus episódios   típicos, implica em um humor deprimido, perda de interesse   e prazer nas   atividades, energia diminuída e processos de culpa ou negativismo YAMAMURA (2001).

O quadro de depressão podem se impulsionar por problemas psicossociais como a perda de uma pessoa querida, do emprego ou o final de uma relação amorosa. No entanto, até um terço dos casos estão associados a condições médicas como câncer, dores crônicas, doença coronariana, diabetes, epilepsia, infecção pelo HIV, doença de Parkinson, derrame cerebral, doenças da tireóide e outras. Diversos medicamentos de uso continuado podem provocar quadros depressivos. Entre eles estão os anti-hipertensivos, as anfetaminas (incluídas em diversas fórmulas para controlar o apetite), os benzodiazepínicos, as drogas para tratamento de gastrites e úlceras (cimetidina e ranitidina), os contraceptivos orais, cocaína, álcool, antiinflamatórios e derivados da cortisona.

A Medicina Tradicional Chinesa entende que o bom funcionamento do ser (a saúde) depende do bom equilíbrio entre duas forças (o yin e o yang) que são antagônicas, porém sua oposição acaba por criar um equilíbrio dinâmico, tanto o yin como o yang tem, cada um, suas funções quando estão em mesmo nível energético, um controla o outro, porém quando um se sobressai em relação ao outro ocorre o desequilíbrio, ou seja, ocorre a doença, a acupuntura refaz o equilíbrio natural BALLONE (2008).
Neste sentido, o estado da mente afeta também o Qi e Essência, se a mente estiver perturbada por stress emocional, se tornando infeliz, deprimida, ansiosa ou instável, irá definitivamente afetar primeiramente o Qi e/ou a essência.

Ao falarmos sobre as causas e mecanismos patológicos para a MTC, podemos citar a função do fígado que é facilitar a drenagem, a circulação fluida do Qi, do Sangue, das emoções no corpo todo. Além disso, ele abriga a Alma Etérea (Hun), a Consciência Espiritual. A dupla Fígado-Hun participa do dinamismo psíquico e espiritual do indivíduo.

A Alma Etérea (Hun) ama a vida e favorece o nosso impulso vital. É o instrumento que coloca em movimento nossos desejos nobres e nossas paixões. Ela governa nossas pulsões de vida, gerencia nossos reflexos de vida através de nossos pensamentos, nossas palavras, nossas ações. Ela permite a troca, a comunicação, a expressão de nossas vontades, de nossas idéias. Ela ativa nossas relações de vida.
A Alma Etérea (Hun) é o instrumento que o Shen utiliza para se manifestar e se exteriorizar em toda a sua amplitude: inteligência, espiritualidade, intuição, sonhos, instrospecção, criatividade, imaginação, respeito, amor à vida, entusiasmo pela vida, idéias, palavras.

O ser humano tem necessidade de viver em grupo e em sociedade. Este tipo de organização força o indivíduo a fazer concessões em relação ao resto do grupo. A educação nos impões limitações, regras que nos obrigam a controlar nossos impulsos para tornar possível nossa vida em comunidade. A sociedade com suas regras e suas leis, a educação com seus imperativos estão lá para refrear, atenuar e controlar o impulso vital, às vezes excessivo, da Alma Etérea (Hun) em relação ao projeto de viver em grupo.
Uma das principais consequências de um excesso de constrição da Alma Etérea (Hun) é que seu movimento ascendente inicial pode se tornar insuficiente, provocando uma estagnação do Qi do Fígado ou para ser mais exato na terminologia chinesa, uma sobre pressão do Fígado.

A repressão das emoções, as cóleras mantidas, as frustrações, as insatisfações, os ressentimentos que a vida em sociedade impõe pode levar, se forem muito intensos ou frequentes, à uma sobrepressão do Fígado. Este mecanismo pode também ser gerado por humilhações repetidas na vida a dois, no trabalho, na escola, etc. Isto provoca uma diminuição da fluidez  da circulação do Qi e, claro, das emoções no corpo todo. Disto resultam distúrbios psiquícos múltiplos e depressões mentais por insatisfação, frustração repressão das emoções.
A depressão que pode se desenvolver aqui não é provocada pela tristeza, nem pelo excesso de problemas aos quais não se chega a uma solução, nem por uma agitação do Shen que não está mais ancorado pelo Sangue do Coração, nem pela ruptura da comunicação entre Coração e Rim, nem pela insufuciencia de força de realização do Zhi. Ela advém de uma raiva interior que é consequência de um excesso de controle que bloqueia o impulso vital do Fígado-Alma Etérea, necessário ao movimento de expansão do Coração-Shen, gerador de otimismo, harmonia e felicidade. Organização Mundial de Saúde (2004).
Esta depressão por frustração, por ressentimento, por humilhação e por “castração educativa” freqüentemente encontrada na prática clínica é acompanhada de um raiva sub-jacente, dificuldade de se organizar, de planejar, de manter uma regularidade e de respostas emocionais exarcebadas e frequentemente fragilizadas.
A raiva, as crises de exteriorização durante estes estados depressivos ou nas depressões declaradas representam uma válvula de segurança quando a pressão interna é muito grande. Estes indivíduos interiorizam suas emoções, deixam-nas se acumular como ressentimentos (nem sempre de forma consciente), impedem que essas emoções escoem até o momento onde elas se tornam insuportáveis. Eles são então obrigados a deixar sair um pouco do vapor emocional pressurizado. Mas como o controle da Alma Etérea é um dominante neste terreno, este vapor não poderá ser lançado em qualquer lugar na vida social. Isso acontece no meio onde é mais fácil relaxar: a família, os íntimos. Este processo está na origem de muitas desarmonias de casais e por isso, as separações. AUTEROCHE (1992).

Critérios diagnóstico de depressão, segundo o DSM-IV, Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, 4ª edição: (VARELLA2003).
Estado deprimido: sentir-se deprimido a maior parte do tempo; /  Nedônia: interesse diminuído ou perda de prazer para realizar as atividades de rotina; Sensação de inutilidade ou culpa excessiva; / Dificuldade de concentração: habilidade freqüentemente diminuída para pensar e concentrar-se; / Fadiga ou perda de energia; /  Distúrbios do sono: insônia ou hipersônia praticamente diárias; / Problemas psicomotores: agitação ou retardo psicomotor; / Perda ou ganho significativo de peso, na ausência de regime alimentar; / Idéias recorrentes de morte ou suicídio.

Os 6 principais tipos de depressão: 

1 – Depressão Maior: Os pacientes com este tipo de depressão apresentam pelo menos 5 dos sintomas listados a seguir, por um período não inferior a duas semanas:  Desânimo na maioria dos dias e na maior parte do dia (em adolescentes e crianças há um predomínio da irritabilidade). /  Falta de prazer nas atividades diárias. / Perda do apetite e/ou diminuição do peso. /  Distúrbios do sono – desde insônia até sono excessivo – durante quase todo o dia. /  Sensação de agitação ou languidez intensa. /  Fadiga constante. / Sentimento de culpa constante; / Dificuldade de concentração. - Idéias recorrentes de suicídio ou morte.
Devem ser observados outros pontos importantes: os sintomas citados anteriormente não devem estar associados a episódios maníacos (como na doença bipolar); devem comprometer atividades importantes (como o trabalho ou os relacionamentos pessoais); não devem ser causados por drogas, álcool ou qualquer outra substância; e devem ser diferenciados de sentimentos comuns de tristeza. Geralmente, os episódios de depressão duram cerca de vinte semanas (17).

2- Depressão Crônica (Distimia): A depressão crônica leve, ou Distimia, caracteriza-se por vários sintomas também presentes na Depressão Maior, mas eles são menos intensos e duram muito mais tempo – pelo menos 2 anos.
Os sintomas são descritos como uma “leve tristeza” que se estende na maioria das atividades. Em geral, não se observa distúrbios no apetite ou no desejo sexual, mania, agitação ou comportamento sedentário. Pensamentos suicidas não são comuns. Talvez devido à duração dos sintomas, os pacientes com depressão crônica não apresentam grandes alterações no humor ou nas atividades diárias, apesar de se sentirem mais desanimados e desesperançosos, e serem mais pessimistas. Os pacientes crônicos podem sofrer episódios de Depressão Maior (estes casos são conhecidos como depressão dupla. Organização Mundial de Saúde (2004)

3 – Depressão Atípica: as pessoas com esta variedade geralmente comem demais, dormem muito, sentem-se muito enfadadas e apresentam um sentimento forte de rejeição. Organização Mundial de Saúde (2004)

4 – Distúrbio Afetivo Sazonal (DAS): este distúrbio caracteriza-se por episódios anuais de depressão durante o outono ou o inverno, que podem desaparecer na primavera ou no verão – quando então tendem a apresentar uma fase maníaca. Outros sintomas incluem fadiga, tendência a comer muito doce e dormir demais no inverno, mas uma minoria come menos do que o costume e sofre de insônia. Organização Mundial de Saúde (2004).

5 – Tensão Pré-menstrual (TPM): há depressão acentuada, irritabilidade e tensão antes da menstruação. Afeta entre 3% e 8% das mulheres em idade fértil. O diagnóstico baseia-se na presença de pelo menos 5 dos sintomas descritos no tópico Depressão Maior na maioria dos ciclos menstruais, havendo uma piora dos sintomas cerca de uma semana antes da chegada do fluxo menstrual, melhorando logo após a passagem da menstruação. Organização Mundial de Saúde (2004).

6 – Pesar: os sintomas de pesar e da depressão possuem muito em comum. Na verdade, pode ser difícil diferenciá-los. O Pesar, contudo, é considerado uma reposta emocional saudável e importante quando se lida com perdas. Normalmente é limitado. Nas pessoas sem outros distúrbios emocionais, o sentimento de aflição dura entre três e seis meses. A pessoa passa por uma sucessão de emoções que incluem choque e negação, solidão, desespero, alienação social e raiva. O período de recuperação consome outros 3-6 meses. Após esse tempo, se o sentimento de pesar ainda é muito intenso, ele pode afetar a saúde da pessoa ou predispô-la ao desenvolvimento de uma depressão propriamente dita. DSM (2015).


Leia todo o estudo da colega Renata Marcondes em: http://www.centrobrasileiro.com.br/site/?p=3838