29 de fevereiro de 2016

Ao ser inquieto, insatisfeito ...

Ando pensando muito nas questões que trago abaixo no texto 4 Teses da Esquizoanálise, de Rafael Trindade. Este ano devo me dedicar a um dos temas que mais trazem pessoas ao meu consultório, os aprisionamentos realizados por nós mesmos. Em 2015 falei bastante sobre escolhas e desejo, agora vou mergulhar no que os alimentam. Nossas ações e movimentos de vida tendem a responder mais ao “dever” do que nos damos conta. Tratar desta questão olhando para ela e suas interfaces com profundidade, fazendo compreensões e me empenhando em conseguir traduzi-las de forma simples será um desafio agradável e, tão libertador quanto a própria proposta do tema.    

Quando seu ser inquieto ou insatisfeito se pergunta: essa escolha seria a minha ou estaria mais contemplando o esperado, o “normal”, responde ao meu desejo ou a vontade de agradar, ser validado, respeitado ou amado por alguém?  Você tem ai uma pequena força que lhe habita querendo se fazer presente, quem sabe ansiando por vida, sentido ou simplesmente pelo resgate de alguma forma de se afetar.    

Quando nos distanciamos de nós mesmos tendemos a nos sentir fracos, preguiçosos e até medíocres... Perder a capacidade de se afetar, de vibrar, de sentir, de se satisfazer tende a nos adormecer e nos mecanizar.  Mas sempre temos a chance de rever coisas e, quem sabe, reinventar.  

Questionar, avaliar, ser curioso e fazer experiências é mais simples do que pode parecer e, não necessariamente, pede abandonos do conquistado – nosso grande medo. Neste movimento os passos podem ser sutis e longos, assim vão se consolidando aos pouco e promovendo pequenas e grandes mudanças.

Abaixo temos um texto que, para quem não está familiarizado com a teoria da Esquizoanalise, pode ser difícil de entender. Fala da força e potência do desejo em nós e da possibilidade de nos libertarmos do que nos impede de experimentar esta força e nos sentirmos vivos.  Vivos por se permitir ser, sendo menos o esperado e mais o que pulsa, da vida, faz vibrar!  

4 Teses da Esquizoanálise - Rafael Trindade

É por desejo que se quer e se faz revolução, não por dever” – D&G, Anti-Édipo, p. 457

A primeira tarefa a qual a esquizoanálise se propõe é a destruição do “eu normal”, desmontar as máquinas familistas e desfazer-se das representações. Depois de limpar o terreno, tarefa necessária e imprescindível, a esquizoanálise começa suas tarefas positivas, a primeira é a mecânica, consiste em encontrar suas máquinas desejantes, a segunda se faz com quatro teses:

1o. Todo desejo é investimento molar e social
As máquinas desejantes não existem fora das máquinas molares e as máquinas sociais são povoadas pelas máquinas desejantes. Uma está dentro da outra, uma constitui a outra. Por todo lado os fluxos se cortam, estrangeiros, invasores. O molar estremece frente as vibrações das molaridades que a constituem. Claro, não poderia ser diferente, as máquinas molares são feitas de máquinas moleculares, e as pequenas máquinas moleculares são feitas por sua vez, de outras máquinas ainda menores. O esmagamento na produção desejantes acontece quando o desejo molecular investe nas grandes representações molares, instituições: Estado, Homem, Deus. O socius codificas as relações e impede que as linhas de fuga aconteçam, impede que os fluxos escapem. É aqui onde a grande fábrica de neuróticos nasce.

A coragem está em aceitar fugir em vez de viver quieta e hipocritamente em falsos refúgios” – D&G, Anti-Édipo, p. 453

Tarefa: Subordinar o molar ao molecular, subordinar os grandes fluxos aos pequenos fluxos. Fugir é fazer fugir esta realidade, é remanejar os caminhos que o desejo percorre. O que é revolucionário é produzir realidades, em vez de esperar religiosamente uma mudança que vem de cima. Servir-se do molar para fazer passar fluxos do desejo (como um Cavalo de Troia). A fuga não é manter-se à margem do social, na verdade, ela faz fugir o próprio social, a máquina molecular faz o molar entrar em devir, deslizar, o social escorre pelas multiplicidade de buracos e fissuras abertas pelos investimentos desejantes. Fugir não é escapar, a fuga é um investimento social! Onde aparentemente há uma oposição existe uma coexistência, mas quem subordina quem? É aqui onde se decide entre o sedentarismo e o nomadismo.

2a. Distinguir grupo sujeito do grupo sujeitado
O grupo sujeitado coloca suas máquinas desejantes ao dispor de grandes fluxos molares. Está subordinado, preso, capturado. É o indivíduo que luta por sua liberdade aumentando sua servidão. A pergunta é: por que alguns deveriam revoltar-se mas não o fazem? O desejo é levado a desejar sua própria repressão (veja aqui). As forças de criação são capturadas por uma máquina de repetição do mesmo: status quo, mesmice, cotidiano, conservação. Já o grupo sujeito é aquele que subverte esta relação e cria para além das estruturas constituídas. Quem decide como será a educação: os alunos ou os professores? Quem decide como será a produção nas fábricas: os operários ou o engravatado?

Tarefa: criar grupos sujeitos, fazer o desejo penetrar o campo social, encontrar agentes de ação que falam em nome próprio; estudar as linhas do desejo que escapam e abrem possibilidades, ocupar e resistir sem pedir licença, investir nas alianças produtivas.

E aqui é preciso tomar cuidado: O grupo sujeitado pode ter um investimento pré-consciente revolucionário, mas inconscientemente reacionário (a esquerda faz muito isso). Ser a favor de todas as lutas, mas no fundo apenas alimentar o fascismo e a escravidão. Ao mesmo tempo, é possível ter um investimento pré-consciente reacionário, mas com várias implicações revolucionárias inconscientes. Aquele que sem querer, procurando escravizar, acaba libertando. É possível ser anti-facista no nível molar, mas sendo fascista no nível molecular: lutar pela revolução mundial escravizando e oprimindo localmente.

3a. O desejo é social e não familiar
O investimento do desejo é social, amplo, ele voa por vários campos. Claro, a família faz parte do mapa que a criança cria. O pai, a mãe, o irmão, a casa também é investida pelas figuras familiares: o escritório do pai, a cozinha onde a mãe faz o jantar. Mas o investimento libidinal do campo social é primeiro em relação aos investimentos familiares, sempre temos um tio chega de uma viagem, a amiga da mãe que namora uma mulher, o vendedor que bate de porta em porta, a televisão, o cachorro do vizinho, o parque ao lado. É impossível liberar a sexualidade sem liberá-la também de seu território edipiano.

Não é o romance familiar que é um derivado de Édipo; este é que é uma deriva do romance familiar e, por isso, do campo social” – D&G, Anti-Édipo, p. 471
Édipo é interiorizado e espalhado aos sete ventos (veja aqui). A psicanálise não pode curar a neurose porque para ela curar significa uma conversa infinita, um acesso ao desejo pela castração. Tarefa: esquizofrenizar a psicanálise, o esquizo é aquele que escapa a toda referência edipiana, ele vai para além das figuras parentais e mostra o modo pelo qual o inconsciente funciona. Destruir o eu normal (tarefa negativa), descobrir o que pode suas máquinas desejantes (tarefa positiva) liberta das determinações do campo familiar. Toda psicanálise familista precisa de uma dose de esquizoanálise que faça explodir suas paredes burguesas.

4a. Paranoico-fascista X Esquizo-revolucionário
Existem dois polos do investimento libidinal social: um facista e o outro revolucionário. Foucault já havia dito, Anti-Édipo é um livro por uma Ética não fascista. Lê-lo é antes de mais nada encontrar-se com o micro-fascista dentro de cada um de nós, aquele que reprime os fluxos de desejo em si e nos outros. Só se investe naquilo que reprime porque se acredita nos objetivos últimos que são impostos de fora, exemplo: trabalhar para ficar rico, mas quem realmente enriquece com seu trabalho? Estudar para ser alguém, mas alguém quem? O Polo paranoico é reacionário! Ele tem medo das mudanças; é fascista, autoritário e violento; sedentário, ama o conforto do seu sofá e sua TV de tela plana; vive no porvir e aguarda o julgamento final. Uma sociedade paranoica é aquela que assujeita a produção das máquinas desejantes aos grandes conjuntos gregários, conjuntos molares. As estrutura esmagam as singularidades, linhas de integração e territorialização que estrangulam os fluxos, recortam segundo limites interiores ao sistema, criação contínua de grupos sujeitados.

Tarefa: tornar-se nômade, encontrar os fluxos esquizos, incitar os devires-revolucionários: subordinar o molar, fazê-lo passar pelos desejos moleculares, subverter a potência, rachar o muro das significações, encontrar fissuras, cavar, sair do buraco; criar multiplicidades moleculares, subjetividades singulares, novos modos de afetar e ser afetado; liberar linhas de fuga, permitir fluxos descodificados (e não axiomatizados), operar cortes próprios no socius, criar continuamente grupos sujeitos, incitar devires que experimentam em vez de esperar pelo dia da revolução anotado no calendário dos sedentários. A produção desejante reencontra sua liberdade quando consegue submeter o conjunto molar: soberania invertida, anarquia coroada.

Vimos como a tarefa negativa da esquizoanálise devia ser violenta, brutal: desfamiliarizar, desedipianizar, descastrar, desfalicizar, destruir teatro, sonho e fantasma, descodificar, desterritorializar — uma espantosa curetagem, uma atividade maldosa. Mas trata-se de fazer tudo ao mesmo tempo, pois é ao mesmo tempo que o processo se liberta, processo da produção desejante seguindo suas linhas de fuga moleculares que já definem a tarefa mecânica do esquizoanalista. E as linhas de fuga são ainda plenos investimentos molares ou sociais que atingem o campo social inteiro: de modo que a tarefa da esquizoanálise é, finalmente, descobrir em cada caso a natureza dos investimentos libidinais do campo social, seus conflitos possíveis interiores, suas relações com os investimentos pré-conscientes do mesmo campo, seus possíveis conflitos com estes, em suma, o jogo todo das máquinas desejantes e da repressão de desejo” – D&G, Anti-Édipo, p. 506


Fonte do texto: http://razaoinadequada.com/2016/02/24/4-teses-da-esquizoanalise/

11 de fevereiro de 2016

É bom lembrar!

A roda que gira 

É difícil entender o que leva alguns a considerar que nossa vida deva ser sempre um modelo interessante e original, quando, na verdade, vivemos sob o tacão do passado com raras oportunidades de sermos de fato criativos. E, para quem valoriza sossego, é melhor que seja assim, pois qualquer sinalização de novidade já provoca uma compreensível reação, às vezes francamente destemperada, dos que seguem a cartilha relaxante da mediocridade e não toleram comparações pretensamente humilhantes.

Então, se assumimos que somos meros copiadores dos modelos disponíveis, sem arroubos de genialidade desgastante, é importante que atentemos para os exemplos que passamos aos nossos filhos que, por afeto, proximidade e descendência, são os nossos plagiadores naturais e instintivos.

Pode ser que o modelo de afeto que dispensas aos teus pais não seja suficiente para sensibilizar teus filhos nos cuidados desvelados dos avós, mas não tenha dúvida de que esse modelo será ressuscitado no futuro quando tocar a eles decidirem que apreço merecerás na velhice. E não há nada de espetacular neste comportamento. É só a roda da vida que também não se preocupa em ser original.

Fiquei com pena quando visitei a dona Carolina, com 82 anos, boa saúde, alojada num cubículo improvisado numa extensão da garagem, com um ventilador pequeno e insuficiente no canto da parede, uma TV de tubo com imagem e chuvisco, e uma amostra escassa de céu espremida entre muro alto e um varal de roupas ao vento. Na estante, uma Bíblia de capa de couro marrom, Contos Fluminenses, de Machado de Assis, um livro de palavras cruzadas sem capa e uma cestinha com incontáveis prendedores de cabelo. De plástico barato. A nora que pedira a consulta, advertira que a dita alegava uma dor no tórax, mas que não levava muita fé nessa queixa porque ela tinha um raio-x de tórax do ano anterior que fora normal e, além disso, já não andava mais dizendo coisa com coisa. "De qualquer maneira, é melhor ter certeza que não tenha nada grave, ainda que estejamos preparados. Porque, nesta idade... o que esperar? É a roda da vida e ninguém vive para sempre, não é, doutor?". Pois é.
O exame físico era normal e ela nem lembrava de queixa nenhuma, mas queria mesmo era conversar, e como conversamos. Com uma memória prodigiosa e um senso de humor apurado, foi uma das entrevistas para não esquecer. Com espírito leve e debochado, não guardava nenhuma mágoa e só lamentava que todas as suas amigas preferidas já tivessem morrido e da pouca paciência que tinha de conquistar novas entre essas velhas estranhas que gostavam de Big Brother. Se pudesse fazer um pedido, seria o de trocar a TV velha sem imagem por um rádio. Se era para curtir só o som, que fosse sem o maldito chiado. Mas se prometera que esta seria uma negociação para o próximo Natal. Se houvesse.

Quando saí, a nora mais velha quis saber o que achara da velha insuportável e ficou visivelmente chateada quando confessei que me apaixonara pela vózinha doce e bem-humorada.

E descarregou a irritação no filhote de uns 12 anos que brincava na terra, no jardim: "Carlos Eduardo, já para dentro! Não espere eu te pegar pelas orelhas, entendido?".

"Não enche, tá?" foi a resposta. Bati o portão convencido de que aquela roda estava começando a girar. À distância, até fiquei com a impressão que ouvira um rangido.

Dr. J.J. Camargo - 

Colunista de todas as edições do caderno Vida do Jornal Zero Hora

4 de fevereiro de 2016

Coco Chanel - acima de tudo inspirando possibilidades

É bom estar de volta à maquininha depois de um tempo de tanta ”falta de tempo”. O fato é que no final 2015 e inicio deste ano passei pelo turbilhão de quem tem um familiar com problemas de saúde. Agora, já com tudo estabilizado e iniciando as férias merecidas, volto a compartilhar com vocês minhas reflexões. Férias são ótimas para dar espaço aqueles temas que estavam guardados para o desfrute.

Eu, nas minhas, adoro colocar em dia os livros não técnicos que vão se acumulando no criado-mudo. Estou lendo “Dormindo com o inimigo – A guerra secreta de Coco Chanel”. De Hal Vauchan, um jornalista americano, correspondente estrangeiro em Paris, que pesquisou a história deste período da vida de Chanel, uma das minhas ilustres modelos na adolescência.

Gabrielle Coco Chanel me inspirou por muito tempo e ainda me inspira, não só por sua genialidade com relação a moda do menos é mais, ela literalmente lançou sementes a libertação feminina inaugurando a moda moderna. Através de suas criações teve coragem de mostrar que as mulheres não precisavam mais se colocar como princesas frágeis e dependentes. Ditou e conquistou seu sucesso na beleza associada a praticidade na indumentária feminina: retirou o espartilho liberando movimentos, usou e deu valor ao uso do cabelo curto e estimulou a roupa despojada e simples, através principalmente do pretinho básico.  Um passo a favor da mulher prática que teria mais com que se preocupar.

Lendo hoje este livro que fala de uma Chanel menos idealizada, desconstruo a heroína as avessas da minha juventude ou ao menos a mulher perfeita. Durante a ocupação alemã a França, na Segunda Guerra Mundial, Chanel é tida como colaboradora da Alemanha Nazista. Teria tido um romance com um agente da Gestapo, Hans Gunther von Dincklage, um homem mais jovem.  Um livro polêmico no que tange o papel de Chanel neste período e muito interessante em seu contexto histórico.

Mas meu maior interesse nesta história está no conteúdo relacional e no fantástico tom humano que chega aos meus olhos.  É fascinante, hoje mais madura, ver algumas das minhas heroínas como Chanel,  Frida Kahlo e até mesmo Simone de Beauvoir, em suas vidas como mulheres que expressaram suas genialidades e amaram, cometendo erros ou não, foram politicamente corretas ou não, mas escolheram e se responsabilizaram por suas escolhas.

Enfim meninas e mulheres leitoras, com as quais tenho tanto conversado sobre suas possibilidades, estas mulheres estão aí e continuam surgindo cada vez mais em diversas esferas da sociedade. Que elas possam continuar nos inspirando a “ser” seja lá o que for, a amar da forma que elegermos e a nos permitir sermos afetadas pela vida.