9 de novembro de 2015

O tédio sexual nos casamentos


Tenho me dedicado a entender o tédio que acompanha a vida sexual de casais de longa data, um vilão que faz com que muitas pessoas se sintam desmotivadas com seus casamentos. Meu interesse foi crescendo na medida que aumenta o número de pessoas procurando soluções para suas frustrações na vida sexual e sofrem com tristeza a falta de satisfação de viver com quem já foram tão satisfeitos.
   
Muitos chegam esgotados com a situação e as ideias para solucionar o problema passam pela separação ou busca de mais motivação e brilho em suas próprias vidas fora do casamento, a partir de relacionamentos extra-conjugais. Vejo nisso alguns equívocos, muita confusão e um tanto de consequências que necessariamente não tem sido positivas.

É verdade que nestes temos aqueles casais que o casamento acabou mesmo, cada caso é único e particular. Por isso o meu primeiro olhar volta-se para os reais motivos da falta de sexo e de animo em compartilhar a vida. As causas podem estar escondidas em inúmeras outras razões que não estão relacionadas a não gostar e não ter prazer com o parceiro, mas atingem o sexo e a boa vida a dois.
   
Sou psicóloga, mas também uma investigadora dos pequenos e grandes movimentos que atingem a vida das pessoas.  Gosto de pensar e estimular a busca de soluções criativas saudáveis para aqueles que acompanho e para isso é preciso entender o que acontece.  Ando conversado com a mulherada e com alguns corajosos homens, que falam de sexo, sempre em busca de depoimentos que me levem a estudos mais profundos sobre este comportamento que também é social.
   
O que tenho constatado em muitas mulheres é que elas tem pensado em buscar uma solução para o tédio dos seus casamentos a partir de um caso extra conjugal e cada vez mais.  Algumas relatam que já tentaram de tudo em casa, mas não tiveram sucesso e que não sabem o que fazer com o problema do distanciamento sexual e até afetivo.

Muitas destas pensam que seus companheiros já o fazem, pois é sabido que os homens, ao longo da nossa história, solucionavam o tédio sexual do casamento buscando sexo fora. Portanto elas querem fazer o mesmo, mas esta é uma novidade para as mulheres que atualmente se sentem mais autorizadas a prática, mas perdidas na vontade e na forma de fazer.
   
Mesmo com todas as conquistas que as mulheres tem conseguido em relação a igualdade de escolhas, direitos etc., é inegável que existem diferenças significativas no jeito de se relacionar de homens e mulheres. Estas sem dúvida se justificam quando olhamos para as nossas influencias culturais, especialmente do romantismo. Homens e mulheres ainda, digo ainda porque não sabemos o que vem das novas gerações, são diferentes em seus jeitos de fazer escolhas sexuais e relacionais.
   
Desta forma “trair” é algo muito diferente para ambos os sexos. Homens normalmente buscam sexo casual e o mais distanciado possível afetivamente; mulheres buscam casos que contemplem algo que falta além de sexo, algo que entendem que deva acompanhar o sexo. Para umas um tipo de encantamento perdido, para outras o que lhes façam sentir, desejadas, importantes, valorizadas ou a própria afetividade perdida “fora da cama”.
    
Portanto buscar saciar a vida sexual fora do relacionamento pode ser uma armadilha para algumas desavisadas que optam por “trair”, elegendo alguém que contemple suas faltas que não necessariamente são só sexuais. Há um grande risco de se envolver em uma enrascada, que por vezes acaba em término do casamento e, não necessariamente em uma nova relação. Gerando mais frustração.

Já os homens que tenho conversado me parecem muito preocupados em perder suas companheiras por não saber o que fazer com o tédio sexual que abate o casal. Pois suas companheiras não são as de antigamente e se queixam, brigam e querem mais. O fato é que quando estes se sentem ameaçados pela perda vão em busca de soluções, mas só quando o esgotamento já é imenso ou quando algo “grave” já aconteceu e aí é um pouco mais difícil de ajudar. Os homens parecem lidar melhor com a falta de sexo com suas esposas, mas andam perdidos tanto quanto elas e tendem a negar o problema.
Portanto buscar sexo fora de casa não soluciona o tédio sexual de um casal? Pode solucionar o tédio sexual de quem faz, por quanto tempo depende da forma que faz como, porem pode ser um risco para a relação.  Mas isto é muito particular.

O fato é que as pessoas querem satisfação, querem estar contempladas sexualmente e estão certas! As mulheres tem gritado o problema e estão certas. Então o que fazer com a falta de ânimo com o companheiro/a? Sendo este companheiro alguém que vale apena investir e seguir junto. 
Reforço, cada casal tem suas particularidades e dificuldades, mas tem solução para aqueles que percebem que vale a pena investir na relação e não querem arriscar a perder o todo restante de bom que tem com seus companheiros.

Tenho discutido bastante em meus bate-papos e na terapia individual e de casal com os que me procuram. Sugiro olhar os seguintes temas abaixo. Estes fazem parte das confusões comuns a muitos e acabam interferindo na manutenção do prazer a dois ao longo do tempo.

Fazer amor é diferente de fazer sexo! Amor se faz em qualquer momento: vendo um filme juntos, em saídas do casal, em cuidar um do outro, dar carinho, respeitar, ouvir, ser atencioso, etc., e alimenta a importância do outro, a afetividade. Se isto é feito fora da cama não precisa ser feito na “cama” e se pode fazer sexo.  Sexo é desfrute dos corpos, excitação e estímulo de prazer nos corpos, na ideia e na fantasia erótica, é brincar, se soltar e permitir sentir, é gozo individual ou a dois, que para muitos depende de se sentir bem com a pessoa, portanto amado. Entendem a diferença? E onde quero chegar?  Isto é mais fundamental do que possa parecer.

Outra questão fundamental para os casais de longa data é diferenciar desejo e excitação.  Desejo costuma acompanhar novidade, falta,  consumo até e é basicamente visual. Você deseja o que não tem, algo que quer ter e quando se tem este desejo tende a  desaparecer, por estar saciado ou diminuir muito. Por isso manter o desejo ardente em uma relação de longa data é algo quase impossível. Manter o desejo acesso já é difícil, quando o morar junto traz uma série de atravessamentos da convivência e rotina. Portanto aconselho aos casais a trocarem o foco. Pulemos para a valiosa excitação, esta é muito mais fácil de conseguir e tem um efeito tão poderoso quanto ao do desejo. A excitação é basicamente tátil e por isso muito estimulada no toque físico, para algumas pessoas na fala, no cheiro, nos sons. Cada pessoa tem seu estímulo de excitação e seu jeito de querer ser excitado que pode ser explorado criativamente. Pule o desejo e descubra o quanto tudo pode começar se permitindo excitar e ser excitado. Desta forma um casal pode ir longe.
   

Portanto quando se fala de sexo na vida a dois é preciso estar sempre descobrindo, outras formas, outras possibilidades, mesmo que sejam os mesmos atores. As pessoas mudam, mas se o saldo for positivo vale a pena tentar limpar a sujeira que o tédio trouxe e as mágoas provocadas. 

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