27 de novembro de 2014

Falando de sexo


Um dos problemas mais comuns das pessoas com dificuldades sexuais esta relacionado a falta de desfrute pleno das diversas zonas erógenas do corpo. Nossos corpos nos oferecem muitas possibilidades de prazer erótico, porem estas são pouco exploradas, ou melhor, desfrutadas. 

Quem nunca ouviu falar nos poderes das preliminares? Hoje já se sabe que estas fazem uma enorme diferença na qualidade do encontro sexual e que podem inclusive ser o prazer suficiente para algumas pessoas.

Faz bastante tempo que me dedico a sexualidade, terminei meu curso de psicologia com um trabalho de conclusão na área da psicossomática. Pesquisei e analisei conteúdos e causas que envolviam algumas disfunções sexuais, desde então tenho batido na tecla da importância das preliminares. 

Porem, é verdade, que  são inúmeras as questões que envolvem as relação sexuais satisfatórias e prazerosas. Questões físicas, químicas, fatores de aprendizagem, crenças, valores e mais um montante de componentes que acompanham as fantasias e a possibilidade de "brincar". Tudo muito particular e único. 

Mas neste universo de tantas questões uma certeza você pode ter: em matéria de sexo não existe certo e errado e sim o que dá prazer e este pode ir muito alem da genitália. Experimente!

Abaixo trouxe um texto bem esclarecedor da colega Dra. Jaqueline Brendler. Ela escreve mensalmente para o caderno Vida do jornal Zero Hora e sempre traz coisas muito interessantes. 

"A anatomia, o prazer e as práticas sexuais"

O corpo humano é riquíssimo no seu potencial erótico, sendo muitas as formas de se obter prazer. São pré-requisitos para o prazer sexual a existência da permissão para viver essa experiência, a prática sexual habitar o imaginário erótico, haver saúde sexual, além de o outro ser percebido e comportar-se como um ser erótico. O prazer originado em áreas corporais distintas irá proporcionar diferentes sensações eróticas, sendo o efeito aditivo quando várias regiões forem simultaneamente estimuladas.

O pênis faz parte de três sistemas: o aparelho reprodutor, o urinário e o sexual/erótico. O corpo da mulher é o mais evoluído da espécie humana, não somente pela capacidade de gerar filhos, mas também porque possui um órgão exclusivamente com finalidade prazerosa, o clitóris. Este tem uma grande extensão interna, não visível. Contudo, a sua parte externa e menor — a glande — é a parte mais ricamente inervada do corpo humano.

 Se o objetivo da sexualidade fosse somente a reprodução ou o prazer ligado à penetração vaginal, única prática aceita por algumas religiões, a glande do clitóris, por sua riqueza em nervos que irão conduzir o estímulo erótico, estaria localizada no fundo da vagina, e não na genitália externa. Quais as vantagens de a glande do clitóris estar fora da vagina? Propicia à mulher apreciar e atingir o clímax com as carícias íntimas realizadas com a mão e por meio da boca (sexo oral). Se o clitóris externo for massageado durante o sexo anal, facilita a mulher ter prazer e erotizar essa prática, o mesmo pode ocorrer durante o coito vaginal. Em um contexto amplo, a presença do prazer na vida das mulheres tem marcos político, cultural e científico, mas não devemos menosprezar as possibilidades que a anatomia feminina nos oportuniza experienciar.

O autoconhecimento erótico lembra antigas práticas sexuais que aumentam a chance de ter prazer, ao passo que a curiosidade ajuda a revelar novas descobertas que irão enriquecer a vida sexual. Em mulheres, há relatos de orgasmos atípicos envolvendo outras áreas como as mamas ou os pensamentos, mas o modo mais fácil de atingir o clímax é por meio do estímulo do genital.

Em relacionamentos de longa duração, o uso de diferentes práticas e posições sexuais ajuda a manter o desejo sexual ativo em ambos do par, pois a variedade no ritual sexual é afrodisíaca. O oposto, um roteiro fixo e com restrições sexuais, um "mapa de áreas proibidas", empobrece a intimidade.

A anatomia feminina é perfeita. Sabemos que o prazer e a satisfação sexual do outro é objetivo da maioria dos parceiros, mas o sinal verde para usufruir a plenitude das possibilidades eróticas depende muito mais da mulher do que do outro, pois o homem desde criança aprendeu a ser mais livre sexualmente. Você nunca pensou em incorporar novas práticas a sua vida íntima? Bem, sempre é tempo de mudar.

12 de novembro de 2014

A sabedoria chinesa do cuidado: o Feng Shui

Uma das vantagens da globalização que não é só econômico-financeira mas também cultural, é permitir-nos colher valores pouco desenvolvidos em nossa cultura ocidental. No caso, temos a ver com o Feng-Schui chinês. Literalmente significa vento (feng) e água (shui). O vento leva o Chi, a energia universal e a água o retem. Personalizado significa “o mestre das receitas”: o sábio que, a partir de sua observação  da natureza e da fina sintonia com o Chi indicava  o rumo dos ventos e o veios d’água e assim como bem montar a moradia.

         Beatriz Bartoly,  em sua brilhante tese em filosofia na UERJ, da qual fui orientador, escreve: “o Feng Shui nos remete para uma forma de zelo  carinhoso” – nós diríamos cuidadoso e terno – “com o banal de nossa existência, que no Ocidente, por longo tempo, tem sido desprestigiado e menosprezado: cuidar das plantas, dos animais, arrumar a casa, cuidar da limpeza, da manutenção dos aposentos, preparar os alimentos, ornamentar o cotidiano com a prosaica, e, ao mesmo tempo, majestosa beleza da natureza. Porém mais do que as construções e as obras humanas é a sua conduta e a sua ação que é alvo maior desta filosofia de vida,  pois mais do que os resultados, o Feng-Shui visa o processo. É o exercício de embelezamento que importa, mais do que o belo cenário que se quer construir.  O valor está na ação e não no seu efeito, na conduta e não na obra.” 

         Como se depreende, a filosofia Feng-Shui visa antes o sujeito que o objeto,  mais a pessoa do que ambiente e a casa em si.  A pessoa precisa envolver-se no  processo, desenvolver a percepção do ambiente, captar os fluxos energéticos e os ritmos da natureza. Deve assumir uma conduta em harmonia com os outros, com o cosmos e com os processos rítmicos da natureza. Quando tiver criado essa ecologia interior, está capacitado para organizar, com sucesso, sua ecologia exterior.

      Mais que uma ciência e arte, o Feng Shui é fundamentalmente uma sabedoria, uma ética ecológico-cósmica de como cuidar da correta distribuição do Chi em nosso ambiente inteiro.
          Nas suas múltiplas facetas o Feng Shui representa uma síntese acabada do cuidado na forma como se organiza o jardim, a casa ou o apartamento, com harmoniosa integração dos elementos presentes. Podemos até dizer que os chineses como os gregos clássicos são os incansáveis buscadores do equilíbrio dinâmico em todas as coisas.
         O supremo ideal da tradição chinesa que encontrou no   budismo e no taoismo sua melhor expressão,  representada por Laotse (do V-VI século a.C.)  e por  Chuang Tzu (século IV-V a.C.), consiste em procurar a unidade mediante um processo de integração  das diferenças, especialmente das conhecidas polaridades de yin/yang, masculino/feminino, espaço/tempo, celestial/terrenal entre outras. O Tao representa essa integração, realidade inefável com a  qual a pessoa busca se unir.
         Tao significa caminho e método, mas também a Energia misteriosa e secreta que produz todos os caminhos e projeta todos os métodos. Ele é inexprimível em palavras,  diante dele vale o nobre silêncio. Subjaz na polaridade do yin e do yang  e através deles se manifesta. O ideal humano é chegar a uma união tão profunda  com o Tao que se produza o satori, a iluminação. Para os taoistas o bem supremo não se dá no além morte como para os cristãos, mas ainda no tempo e na história, mediante uma experiência de não-dualidade e de integração no Tao. Ao morrer a pessoa mergulha no Tao e se uni-fica  com ele.
        Para se alcançar esta união,  faz-se imprescindível a sintonia  com  a energia vital que perpassa o céu e a terra: o  Chi.  Chi é intraduzível, mas equivale ao ruah  dos judeus, ao pneuma dos gregos,  ao spiritus dos latinos e ao axé  dos yoruba/nagô, ao vácuo quântico dos cosmólogos: expressões  que designam a Energia suprema e cósmica que subjaz e sustenta todos os seres.
         É por força do Chi que todas as coisas se transformam (veja o livro I Ching, o livro das mutações) e se mantém permanentemente em processo. Flui no ser humano através dos meridianos da acupuntura. Circula na Terra  pelas veias telúricas subterrâneas, compostas pelos campos eletro-magnéticos distribuidos ao longo de meridianos da ecopuntura que entrecruzam a superfície terrestre. Quando o Chi se expande significa vida, quando se retrái, morte. Quando ganha peso, apresenta-se como matéria, quando se torna sutil, como espírito. A natureza é a combinação sábia dos vários estados do Chi, desde os mais pesados até os mais leves.
         Quando o Chi emerge num determinado lugar, surge uma paisagem aprazível com brisas suaves e águas cristalinas, montanhas sinuosas e vales verdejantes.  É um convite para o ser humano instalar ai  sua morada. Ou encontra um apartamento no qual se sente “em casa”.
         A visão chinesa  do mundo privilegia o espaço, à diferença do Ocidente que previlegia o tempo. O espaço para o taoismo é o lugar do encontro, do convívio, das interações de todos com todos, pois todos são portadores da energia Chi que empapa o espaço. A suprema expressão do espaço  se realiza na casa, no jardim ou no apartamento bem cuidado.
         Se o ser humano quiser ser feliz deve desenvolver a topofilia, o amor ao lugar onde mora e onde constrói sua casa e seu jardim ou mobilia seu apartamento. O Fen Shui é a arte e  técnica de bem construir a casa, o jardim e decorar o apartamento com sentido de harmonia e beleza.
         Face ao desmantelamento  do cuidado e à grave crise ecológica atual, a milenar sabedoria  do Feng-Shui nos ajuda a refazer a aliança de simpatia e de amor para com a natureza. Essa conduta  reconstrói a morada humana (que os gregos chamavam de ethos), assentada sobre o cuidado e a suas múltiplas ressonâncias como a ternura, a carícia e a cordialidade.

Leonardo Boff 
Leia também  Virtudes para um outro mundo possivel,3 vol. Vozes 2006.

11 de novembro de 2014

Eu, você e os modelos éticos


Outro dia ouvi no rádio uma entrevista que me fez pensar.

“Oito em cada dez brasileiros concordam com a afirmação de que é fácil desobedecer às leis. O mesmo percentual também tem a percepção de que, sempre que possível, o brasileiro escolhe "dar um jeitinho" para burlar alguma regra”.

A entrevista relatou os objetos da pesquisa, apontou percepções e resultados e o que me chamou mais a atenção foram os altos índices  de  descumprimentos de regras e  valorização do velho “jeitinho brasileiro” de burlar a lei.

Mas, para mim, o mais relevante foi a observação de  que muitos entrevistados se referiam a influência de modelos  de desonestidade no seu comportamento e por consequência da  sociedade. Modelos como os da nossa classe política e muitos dos nossos líderes, disse a pessoa que falava da pesquisa.  Parece que estes modelos reforçam a crença de que é esperto quem tira vantagem.

Outro dado foi que a pesquisa mostrou foi a descrença nos modelos éticos e na punição.   Algo como, se eles podem porque eu não?

Para mim, que sei pouco  de história do Brasil, mas o suficiente para me remeter a uma leitura sócio-cultural: um padrão historicamente alimentado, iniciado nos nossos primeiros dirigentes, reis e rainhas portugueses.

A pesquisa questiona sobre delitos, mas é claro as pessoas confessam seus “pequenos delitos”:  atravessar fora da faixa de segurança,  estacionar na vaga de idosos, furar filas, burlar os impostos, buscar benefícios próprios... mas que a mim envergonham muito.
 
Quem um dia não os cometeu? Eu sim, e você provavelmente também e esta talvez seja uma questão importante.  Por que os meus ou os seus são menos condenáveis?

Um tipo de comportamento que costuma me repudiar, especialmente ao perceber tentativas de tirar vantagens,  em situações que não as definem como as de direito.  Mas relativamente aceitáveis, dependendo do caso?

Bem eu sou psicóloga e o meu trabalho  é feito de leituras compreensivas e não pede, nem estimula julgamentos, deixo esta parte aos que se preparam para esta  tarefa.
 
Por isso o meu interesse com este texto é despertar. Para mim esta pesquisa serve para chamar a nossa atenção a questão e nos fazer pensar sobre a nossa parcela na manutenção destes comportamentos. Somos modelos também!

Teria eu mais direito de burlar a lei? Teria você, o seu filho e amigos o direito de ter mais vantagens?

Aqui o link para a pesquisa: