29 de outubro de 2014

Amor ideal e seu estado de permanência


Por que o “amor ideal” parece tão difícil de ser vivido nos dias de hoje? Porque o veneramos como a uma divindade, por ter se tornado, assim como a felicidade, o alfa e o ômega das sociedades ocidentais.

Esta pergunta está no livro: Fracassou o Casamento por Amor? de Pacal Bruckner . Ela questiona e nos ajuda a pensar no que está acontecendo com os nossos jeitos de nos  relacionar.

Eu acompanho e vejo por aí muitas pessoas que sofrem por amor. Seja por não terem vivido o "seu grande amor” ou por  já não o reconhecer em seus casamentos. E no contraponto moderno aqueles que nem se permitem se envolver, por conta do mesma primeira questão que os impede: a idealização.

Idealização do grande amor, idealização de um estado de permanência da intensidade em suas relações e idealização do seu ideal de companheiro. Um enrosco e tanto, que nem os antigos filósofos deram conta e nem a modernidade consegue dar.

Na minha opinião? Se não nos livrarmos dos aprisionamentos que as idealizações nos colocam estaremos, sendo românticos ou pós modernos, nos colocando em situações de sofrimento.

“Estabeleça um ideal e você imediatamente estará engendrando milhões de inadaptados, incapazes de alçar a esta atitude que se imaginam, então, deficientes”. Até mesmo o corpo tem que tomar seu lugar, ser demonstrado: a comoção se torna um aprendizado, um exercício.  Diz Bruckner.

Se seguirmos nesta ótica do perfeito, o que deveria gerar bem estar e momentos felizes se torna aflição e angustia. Existem inúmeras explicações para que tenhamos chegado a esta maneira de desejar a vida e pensar as relações tão idealizadas, para uns a compreensão ajuda, para outros é melhor deter-se em tentar observar as suas idealizações. Tudo pode ser revisto e mudar o conceito já pode ajudar bastante.

A vida é bem “caótica”, no  bom sentido da palavra, e não é possível controlar o seu seguimento. Portanto ter o ideal é impossível, sempre terá algo diferente.

O que precisamos ter é clareza do que gostamos e queremos, da vida e das relações. Mas não dá para transformarmos as pessoas nos seres que esperamos encontrar, querer que a paixão permaneça para sempre e sair por aí agindo com intolerância e descartabilidade ao imperfeito. Bem, até dá, mas...

Eu não me atrevo a recomendar isso ou aquilo para os sucessos nas suas relações amorosas, porem você tem estas referências que fiz no texto acima.

O que posso lhe dizer é que cada um é único e que, tanto para alguém só, quanto para um casal é muito bom conhecer os seus “engates” de sofrimento e repetições “errôneas”.  Isto ajuda a fazer escolhas claras e conscientes e estas tem grandes chances de levar a muitos momentos de amor e alegria.

28 de outubro de 2014

Diferença? Sim!

Uma homenagem as possíveis diferenças nas relações amorosas. E.. Quem um dia irá dizer que não existe razão nas coisas feitas pelo coração!


Parabéns a todos aos corajosos que se aventuram a se experimentar, deixando-se conhecer, julgando menos e aceitando mais,  trocando experiências... Vivendo!

Eduardo e Monica

Quem um dia irá dizer
Que não existe razão
Nas coisas feitas
Pelo coração
E quem irá dizer
Que não existe razão?…
Eduardo abriu os olhos
Mas não quis se levantar
Ficou deitado
E viu que horas eram
Enquanto Mônica
Tomava um conhaque
No outro canto da cidade
Como eles disseram…
Eduardo e Mônica um dia
Se encontraram sem querer
E conversaram muito mesmo
Prá tentar se conhecer…
Um carinha do cursinho
Do Eduardo que disse:
-Tem uma festa legal
E a gente quer se divertir…
Festa estranha
Com gente esquisita
-Eu não tou legal
Não agüento mais birita
E a Mônica riu
E quis saber um pouco mais
Sobre o boyzinho
Que tentava impressionar
E o Eduardo, meio tonto
Só pensava em ir prá casa
-É quase duas
Eu vou me ferrar…
Eduardo e Mônica
Trocaram telefone
Depois telefonaram
E decidiram se encontrar
O Eduardo sugeriu
Uma lanchonete
Mas a Mônica queria
Ver o filme do Godard…
Se encontraram então
No parque da cidade
A Mônica de moto
E o Eduardo de camêlo
O Eduardo achou estranho
E melhor não comentar
Mas a menina tinha
Tinta no cabelo…
Eduardo e Mônica
Era nada parecidos
Ela era de Leão
E ele tinha dezesseis
Ela fazia Medicina
E falava alemão
E ele ainda
Nas aulinhas de inglês…
Ela gostava
Do Bandeira e do Bauhaus
De Van Gogh e dos Mutantes
Do Caetano e de Rimbaud
E o Eduardo gostava de novela
E jogava futebol-de-botão
Com seu avô…
Ela falava coisas
Sobre o Planalto Central
Também magia e meditação
E o Eduardo ainda tava
No esquema "escola, cinema
Clube, televisão"…
E mesmo com tudo diferente
Veio neles, de repente
Uma vontade de se ver
E os dois
Se encontravam todo dia
E a vontade crescia
Como tinha de ser…
Eduardo e Mônica
Fizeram natação, fotografia
Teatro, artesanato
E foram viajar
A Mônica explicava pro Eduardo
Coisas sobre o céu, a terra
A água e o ar…
Ele aprendeu a beber
Deixou o cabelo crescer
E decidiu trabalhar
E ela se formou no mesmo mês
Que ele passou no vestibular…
E os dois comemoraram juntos
E também brigaram juntos
Muitas vezes depois
E todo mundo diz
Que ele completa ela
E vice-versa
Que nem feijão com arroz…
Construíram uma casa
Uns dois anos atrás
Mais ou menos quando
Os gêmeos vieram
Batalharam grana
Seguraram legal
A barra mais pesada
Que tiveram…
Eduardo e Mônica
Voltaram prá Brasília
E a nossa amizade
Dá saudade no verão
Só que nessas férias
Não vão viajar
Porque o filhinho do Eduardo
Tá de recuperação
Ah! Ahan!…
E quem um dia irá dizer
Que existe razão
Nas coisas feitas pelo coração?
E quem irá dizer
Que não existe razão?…


Legião Urbana

19 de outubro de 2014

Felicidade, ideal obrigatório


 “A felicidade é algo que muda de acordo com a pessoa, com a época e com a idade. Ela é fugidia por natureza, não vem quando a chamamos e às vezes chega quando menos esperamos”.  

Estas são as palavras de Pascal Bruckner,  filósofo e escritor francês, conferencista no Fronteiras do Pensamento do dia 22 Outubro em Porto Alegre.
O filósofo conhecido por suas análises duras sobre a sociedade francesa, o entendimento ocidental sobre o amor e a felicidade, o multiculturalismo e o marxismo,  acredita na felicidade não idealizada.

"Sempre detestamos o sofrimento, é normal. A novidade é que agora as pessoas não têm mais o direito de sofrer. Então, sofre-se em dobro. Querer que as pessoas se calem sobre a dor física ou psicológica é apenas agravar o mal."

Seu livro A euforia perpétua (Ed. Bertrand Brasil) denuncia a fragilidade e a crueldade de uma sociedade que transformou a felicidade em ideal coletivo e obrigatório. 'No mundo ocidental, quem não é feliz se sente excluído e fracassado', afirma o escritor. 'A felicidade é extremamente individual e efêmera por definição. Por isso, as pessoas obcecadas em conquistá-la, como a uma propriedade, sofrem em dobro e se distanciam das pequenas alegrias da vida.'

Abaixo você pode conferir a esclarecedora entrevista dada por Bruckner à revista Época:

Época: Como a felicidade se tornou uma tirania?
Pascal Bruckner: No século XVIII, felicidade já deixara de ser um direito para se tornar um dever. Mas essa inversão de valores só se consolidou no século XX, depois de 1968, quando se fez uma revolução em nome do prazer, da alegria, da voluptuosidade. A partir do momento em que o prazer se torna o principal valor de uma sociedade, quem não o atinge vira um indivíduo fora-da-lei.

Época: Se é natural ao ser humano buscar a felicidade, onde está o erro?
Pascal Bruckner:
O erro é esquecer que ninguém pode dizer o que o outro deve procurar, muito menos coletivamente. É perigoso achar que a existência só tem validade se a pessoa encontrar a felicidade. Essa é apenas uma das possibilidades na vida. Há várias outras, como a paixão e a liberdade. Recuso a noção de felicidade como objetivo maior da humanidade.

Época: O problema não é o que se considera felicidade hoje?
Pascal Bruckner:
O problema é a procura. Todos os que buscam a felicidade ficam mais infelizes, porque não se trata de uma caça ao tesouro ou à pedra filosofal. A busca da felicidade está fadada ao fracasso. É como procurar o príncipe encantado. Acabamos por nos privar dos pequenos prazeres e das pequenas alegrias, e ficamos com uma insatisfação permanente.

Época: A felicidade transformada em objetivo coletivo é uma questão política?
Pascal Bruckner:
Muitos países querem se colocar como paraísos terrestres. Enquanto isso, um monte de gente morre de fome. Todos os Estados fascistas ou comunistas queriam padronizar a felicidade do povo. Isso é perigoso. Nenhum governo, patrão ou chefe de Estado tem o direito de nos dizer onde está nossa felicidade.

Época: Confunde-se felicidade e bem-estar?
Pascal Bruckner:
Dinheiro compra bem-estar, conforto, mas nada compra a felicidade. Nos países em que o Estado falha em suprir as necessidades básicas do cidadão, é compreensível que a felicidade seja vista como a ausência da tristeza. Mas ela não deve ser reduzida a uma definição pela negação. Nos países ricos, em que as pessoas dispõem de certa renda, têm casa e comem normalmente, a felicidade não é compulsória. Prova disso é que na França se consome uma enorme quantidade de antidepressivos.

Época: Sofrimento virou doença?
Pascal Bruckner:
Sempre detestamos o sofrimento, é normal. A novidade é que agora as pessoas não têm mais o direito de sofrer. Então, sofre-se em dobro. Querer que as pessoas se calem sobre a dor física ou psicológica é apenas agravar o mal.

Época: Felicidade virou símbolo de status?
Pascal Bruckner:
Mais que o dinheiro, ela é a nova ostentação dos ricos. Eles estão na mídia e exibem seus carros de luxo, sua vida amorosa extraordinária, seu sucesso social, financeiro ou mesmo moral, quando colaboram com instituições beneficentes. A felicidade virou parte da comédia social

Época: Isso aumenta a crença de que ela pode ser conquistada?
Pascal Bruckner:
Há pessoas que correm a vida inteira atrás dela, e então a felicidade vira uma inquietação permanente. Ou seja, o sujeito já entrou no território da angústia. A felicidade vira uma prisão.

Época: E o papel da religião em tudo isso?
Pascal Bruckner:
O cristianismo coloca a felicidade como o paraíso perdido ou por vir. É a noção da felicidade perfeita, ao pé de Deus. Praticamente todas as religiões falam do sofrimento e nos prometem a felicidade depois desta vida. No catolicismo, o sofrimento é tamanho que o Deus sangra e agoniza. Por outro lado, há cada vez mais religiões que se ocupam da felicidade na Terra, como evangélicos, budistas e hinduístas, por exemplo. Na verdade, nos tornamos todos crentes laicos: tentamos cumprir na Terra o ideal que o cristianismo nos propõe para o céu. Queremos fazer nossa felicidade como os penitentes de outros tempos se flagelavam. Nós nos penitenciamos nas academias de ginástica, no esforço permanente para emagrecer, nos regimes, na obrigação de ter orgasmo.

Época: Então nossa busca de felicidade não nos aproxima do hedonismo nem traz uma ruptura com certos valores religiosos?
Pascal Bruckner:
Curiosamente, todas as revoluções feitas nesse sentido, inclusive a Francesa, desembocam em um ideal ainda muito impregnado de religião. Nosso hedonismo acaba nos mortificando. Agredimos nosso corpo para torná-lo perfeito, musculoso, imortal. As salas de ginástica cada vez mais se parecem com salas de tortura. Carregamos a Inquisição conosco, e ela é o espelho. Continuamos no universo da mutilação, que é medieval.

Época: Isso ocorre também no Oriente?
Pascal Bruckner:
Para os povos orientais, existe a noção de reencarnação. Por um lado, pode-se esperar que a próxima vida seja melhor. Por outro, é preciso viver de forma a evitar as reencarnações e, assim, poder ir ao encontro da alma imortal de Brahma ou Buda. No Ocidente moderno, a vida se tornou uma sequência de gozos. E nossa busca frenética por essa verdade parece a saga de Dom Quixote. É patética.

Época: No século XIX, havia o 'mal do século'. Era lindo sofrer. Estamos vivendo isso às avessas?
Pascal Bruckner:
O 'mal do século' era uma estratégia do individualismo. O burguês era contente e satisfeito, ao passo que o artista exibia sua tristeza para se distinguir da massa. Até a doença se tornou uma forma de singularização. Hoje, a estratégia é a mesma: se distinguir, escapar da miséria comum.

Época: Por isso muita gente adota a atitude de ver alegria e perfeição em cada refeição, cada objeto, cada momento?
Pascal Bruckner:
É a estratégia dos estoicos, de fazer tudo como se fosse a última vez. É uma revalorização da vida cotidiana. É interessante, mas pode ser um mecanismo de autopersuasão, de se convencer da felicidade da própria existência, de evitar ser pego no 'erro'. Essas são pessoas que decidiram imperativamente ser felizes. Isso é muito suspeito, porque todo ser humano tem momentos de tristeza. Tentar esconder isso é se enganar.

Época: Os livros de autoajuda reforçam que só não é feliz quem não quer?
Pascal Bruckner:
Esse tipo de literatura sempre existiu. São livros contra as pequenas misérias do cotidiano: como se livrar de uma febre, remover uma mancha. Hoje, no entanto, os temas são mais amplos: promete-se a felicidade. Deepak Chopra, guru das estrelas de Hollywood, faz vários livros sobre o mesmo tema: como ganhar dinheiro, como fazer sucesso. Há sempre um ou dois conselhos que funcionam, mas esse tipo de receita vive muito próximo do charlatanismo.

Época: As pessoas felizes são menos interessantes?
Pascal Bruckner:
Ninguém é feliz ou infeliz o tempo todo. A vida não se divide entre essas duas polaridades. Muito mais importante que a felicidade é a liberdade, a capacidade de enfrentar problemas. A felicidade é um valor secundário, e é bom enfatizar isso para que não se sintam culpadas as pessoas que não chegam a ser felizes.

Época: O que seria a felicidade real, não-idealizada?
Pascal Bruckner: Um sentimento sem objeto preestabelecido, algo que muda de acordo com a pessoa, com a época e com a idade. Nós a encontramos em alguns momentos, mas ela é fugidia por natureza, não vem quando a chamamos e às vezes chega quando menos esperamos. Há dois erros básicos na forma como a encaramos atualmente. Um é não reconhecê-la quando acontece ou considerá-la muito banal ou medíocre para acolhê-la. O segundo erro é o desejo de retê-la, como a uma propriedade. Jacques Prévert tem uma frase linda sobre isso: 'Reconheço a felicidade pelo barulho que ela faz ao partir'. A ilusão contemporânea é a da dominação da felicidade. Um triste erro.

17 de outubro de 2014

Alzheimer - acompanhando de perto

Hoje quero compartilhar com vocês um pouco do meu aprendizado destas ultimas semanas. Vocês devem ter notado a minha ausência no blog e ela tem uma boa justificativa.

Nestes últimos dias estive acompanhando a minha querida sogra que tem Alzheimer. Foram dias de muito aprendizado, pois conhecia a teoria mas nada como a presença no dia a dia para ensinar.

Para quem ainda não sabe o mal de Alzheimer é uma doença neurovegetativa sem cura, mas atualmente com chances de  controle. Seu sintoma maior e mais comum é a perda da memória, mas a doença compromete o pensamento, a orientação de tempo e espaço e o comportamento.  A pessoa afetada parece uma criança que ainda não desenvolveu uma serie de aprendizados. A diferença é que estamos falando de um adulto criança, que reage a algumas coisas que uma criança não reagiria, especialmente as orientações de rotina.

Com ela na minha casa tive a oportunidade de sentir de perto o que acontece com a minha sogra:  a sua desorientação, a  necessidade de auxilio permanente para as mínimas coisas e o seu esquecimento de fatos e das pessoas com quem conviveu e amou ao longo da vida. Vi a sua alegria em ser atendida com carinho e, mais ainda, em ser escutada. E como é importante ouvir! Seja lá o que for. Pude observar o seu grande ajuste criativo, representado pelas saídas da realidade. Uma ação tão necessária para a sobrevivência em meio a tanto esquecimento.

Não é simples para os familiares. É difícil ver aquela pessoa, com quem se compartilhava a vida e trocava ideias, se esquecendo e perdendo estes registros. Por vezes tão sem conexão com os fatos reais. É difícil não saber lidar com coisas como as frequentes necessidades de repetições e perguntas inesgotáveis do mesmo. Também as teimosias em pequenas coisas e “brabezas” com quem tenta orientar e cuidar de uma forma que não é a esperada pelo doente.

Com a minha sogra eu realmente vi o quanto é  preciso aceitarmos o fato e entendermos o processo. Só assim conseguimos a fundamental paciência para lidar com estas pessoas que hoje dependem tanto da nossa compreensão e apoio.

E já que a informação é tão vital para a saúde de todos os envolvidos deixo para vocês a dica de um livro de fácil leitura.  


“ Quem, eu?” escrito por Fernando Aguzzoli. Um rapaz de 22 anos que acompanhou de perto a doença da sua avó, dona Nilva e fez isso de uma forma exemplar. 
Neste livro você irá encontrar esclarecimentos de psicólogos, psiquiatras, neurologistas, geriatras e até advogados e arquitetos. “Todos falam sobre questões bem pertinentes para os pacientes a para a família. Os textos descrevem situações engraçadas, aventuras até fantasiosas – características de um paciente com Alzheimer – e, ao mesmo tempo, cheias de sensibilidade e amor.


Obrigada querida por me ensinar e parabéns a minha cunhada pela dedicação e presença constante.