27 de agosto de 2014

Paul Bloom no Fronteiras do Pensamento

Quero compartilhar com vocês, um pouco do que pude presenciar na ultima conferência do Fronteiras do Pensamento. Nesta o Psicólogo pesquisador canadense Paul Bloom abordou temas relacionados a natureza humana dual, suas reflexões e pesquisas a respeito do julgamento moral em bebes, questões a respeito do preconceito no humano e, especialmente, como as nossas conceituações tanto de objetos como de pessoas interferem nas nossas escolhas e nos nossos julgamentos. 

Escolhi para compartilhar esta entrevista realizada pelo jornal Zero Hora, pela sua simplicidade em abordar o tema. 

Somos, por natureza, indiferentes, e até mesmo hostis, a desconhecidos: temos uma propensão ao bairrismo e à intolerância. Antes de andar ou falar, os bebês já são capazes de discernir entre a bondade e a maldade. O preconceito é natural e tem uma dimensão positiva, cabendo à racionalidade superar as injustiças em que pode resultar. 

Zero Hora - O senhor diz que o preconceito é natural, muitas vezes racional e moral, e que ajudou a proteger a espécie. Como o preconceito pode ser algo positivo?
Paul Bloom - Penso no preconceito como o ato de fazer julgamentos sobre as pessoas baseado nos grupos aos quais elas pertencem. Em alguns casos, é uma coisa boa e racional, porque generalizações sobre grupos-estereótipos são com frequência precisas. Se estou caminhando na rua e preciso pedir orientações, não vou perguntar a um bebê, porque meu estereótipo diz que eles não são bons em dar indicações, e se eu preciso de ajuda para mover um sofá, não vou pedir a alguém de 90 anos, porque meu estereótipo é de que pessoas mais velhas têm problemas para levantar peso. Se eu ouvir falar de um assassino ou de um estuprador à solta, minha expectativa é de que seja um homem, porque embora possa eventualmente ser uma mulher, as estatísticas sobre crimes violentos tornam isso pouco provável. Os indivíduos se apoiam em estereótipos, e assim o fazem as sociedades. Estereótipos a respeito de idades, por exemplo, são necessários ao criar leis que determinam quando alguém tem permissão para dirigir um carro, casar ou ir para o serviço militar. Mas questões sérias aparecem quando chegamos aos grupos étnicos e raciais. Nós fazemos generalizações sobre esses grupos também, e muitas delas são precisas. Mas, ainda assim, há uma razão moral para não usarmos essas informações em determinadas circunstâncias. Há uma forte intuição moral (que eu compartilho) que nos diz que, em muitos domínios, as pessoas merecem ser julgadas como indivíduos, não como membros das categorias a que pertencem. Mesmo que meu grupo étnico seja estatisticamente mais propenso a cometer certos crimes, por exemplo, a polícia não deve presumir que sou culpado. Devido a aspectos da história e da sociedade, deveríamos tratar raça e etnia diferente de categorias como idade e sexo, e, nestes casos, temos muitas vezes que optar por permitir que os princípios morais substituam a eficiência.

ZH - O senhor diz que certos fundamentos morais não são adquiridos pela aprendizagem, mas produtos da evolução biológica. Assim, a moralidade não seria uma invenção humana. Quando a moralidade nasce?
Bloom - Há muitas evidências de que grande parte de nossa moralidade é criada pela seleção natural, e assim, em um sentido profundo, nossos instintos morais são tão biológicos quanto a nossa capacidade de ver ou falar. Podemos pensar na moralidade como um instinto evoluído. Agora, isso não significa que os recém-nascidos serão criaturas morais - muito provavelmente, as áreas do cérebro envolvidas na moralidade precisam se desenvolver. Mas isso sugere que ela emerge cedo, e você pode encontrar um senso moral em bebês. Na pesquisa que faço em Yale com minha mulher, Karen Wynn, exploramos essa questão. Em alguns desses estudos, usamos espetáculos de marionetes. Mostramos a bebês personagens que interagem de determinadas maneiras - como um indivíduo ajudando outro ou um indivíduo batendo em outro - e, em seguida, vemos com quais deles os bebês querem interagir, quais querem recompensar ou punir. Usando esses métodos, descobrimos que até bebês muito novos têm a capacidade de julgamento moral. Outros experimentos sugerem que eles nascem com empatia e compaixão, com a capacidade de julgar as ações dos outros, e com uma compreensão rudimentar de justiça e equidade. A moralidade é profundamente enraizada.

ZH - Esse estudo conduzido por sua mulher e colega mostrou que os bebês tendem a preferir fantoches que compartilham o mesmo gosto para comida e punir aqueles com gosto diferente. Qual a principal conclusão a respeito disso?
Bloom - Esse tipo de constatação mostra que também há um lado desagradável em nossa natureza. Há muitas evidências de que até os bebês muito jovens definem o mundo em termos de "nós contra eles", e são fortemente inclinados a favorecer o "nós". Somos seres muito tribais. Nossa natureza não é apenas gentil; também é cruel e egoísta. Nós favorecemos aqueles que se parecem conosco e somos naturalmente indiferentes em relação a estranhos. E essas trágicas limitações são ilustradas pelos estudos de Karen Wynn e seus colegas nos quais bebês não só evitam aqueles que são diferentes deles, querem vê-los punidos.

ZH - Como essa noção de pertencimento a um grupo ("nós contra os outros") é construída?
Bloom - A experiência social realmente importa nesse caso. Podemos começar dividindo o mundo em "nós contra eles" - mas quem somos nós e quem são eles? Parte dessa noções é adquirida pela experiência cotidiana, como os bebês que separam o mundo entre aqueles que são familiares e aqueles que são estranhos, mas outra parte é aprendida por meio da cultura. Notavelmente, só muito tarde no desenvolvimento - por volta de cinco anos na maioria dos estudos nos Estados Unidos - algumas crianças começam a usar a cor da pele para decidir suas amizades e preferências. Antes disso, elas não sabem que raça é uma questão, e assim, se as crianças serão racistas ou não, depende de como elas são criadas, do tipo de ambiente social em que se encontram. Podemos ser naturalmente paroquiais, mas não somos racistas natos.

ZH - A intolerância parece estar se fortalecendo em nosso mundo - racismo nos estádios de futebol, ataques na internet, conflito militar em Gaza, terrorismo. Por que é tão difícil ter compaixão?
Bloom - Uma coisa para se ter em mente é que (como Steven Pinker narra em seu livro recente Os Anjos Bons da Nossa Natureza) o mundo vem experimentando um declínio da violência a longo prazo. De modo geral, somos muito melhores com relação aos outros hoje do que costumávamos ser. Nos Estados Unidos, por exemplo, há muito menos racismo e sexismo do que havia 50 anos atrás, e temos uma aceitação muito maior das minorias sexuais. Acho que parte da solução para um mundo melhor é usar nossa inteligência para lutar contra nossos piores instintos. Somos criaturas inteligentes, o suficiente para suprimir nossos impulsos e preconceitos quando pensamos que eles são inadequados. Depois de aprender sobre os aspectos feios de nossa natureza, podemos passar a combatê-los. Podemos criar tratados e organizações internacionais destinadas a proteger os direitos humanos universais. Podemos utilizar procedimentos como revisão e audiências às cegas, projetadas para impedir julgadores de serem tendenciosos, consciente ou inconscientemente, com relação à raça ou a qualquer outro aspecto da pessoa que não aquele que está sob avaliação. E podemos moldar nossas culturas para que a intolerância seja vista como feia e inaceitável.

ZH - O senhor afirma que gostamos daquilo em que acreditamos, assim, um vinho barato com o rótulo de outro vinho mais caro parecerá mais saboroso para a pessoa que o beber. Como isso funciona no cérebro? O prazer é algo que aprendemos? E como podemos separar os prazeres inatos daqueles que se desenvolvem mais tarde na vida?
Bloom - Parte do prazer é programada em nós, não é adquirida pela imersão social. E alguns prazeres são partilhados por todos os seres humanos; a variedade que vemos pode ser compreendida como variações de um tema universal. A pintura é uma invenção cultural, mas o amor à arte não. Os gostos por comida e sexo diferem, mas não tanto assim. É verdade que podemos imaginar culturas nas quais os prazeres são bem diferentes, nas quais as pessoas esfregam alimentos em fezes para melhorar seu gosto e não têm interesse em pimenta, sal ou açúcar; ou onde se juntam para ouvir estática e se encolhem ao som de uma melodia. Mas isso é ficção científica, não a realidade. Uma forma de resumir isso é que os seres humanos começam com uma lista fixa de prazeres e não podemos acrescentar nada a essa lista. Isto pode soar como uma afirmação insanamente forte, uma vez que, é claro, pode-se introduzir novos prazeres no mundo, como no caso de invenções como televisão, chocolate, jogos de vídeogame, cocaína, vibradores, saunas, palavras cruzadas, reality shows, romances, e assim por diante. Mas o que eu queria sugerir é que tais prazeres são agradáveis porque não são assim tão novos; eles se conectam - de um modo razoavelmente direto - a prazeres que os seres humanos já possuem. Chocolate belga e costeletas assadas são invenções modernas, mas apelam para o nosso amor primordial por açúcar e gordura. Há novas formas de música criadas o tempo todo, mas uma criatura que fosse biologicamente despreparada para o ritmo nunca viria a gostar de qualquer uma delas; seriam sempre barulho. Mas há outro ingrediente aqui, um que torna o prazer consideravelmente mais complicado, e mais influenciado pela cultura. É que o prazer é profundo. O que mais importa não é o mundo como ele se apresenta aos nossos sentidos. Pelo contrário, o prazer que obtemos de algo deriva do que pensamos que aquilo é. Isso é verdade para prazeres intelectuais, como a apreciação de pinturas ou narrativas, e também para prazeres que parecem mais simples, como a satisfação da fome e da luxúria. Para uma pintura, o que interessa é quem foi o artista; para uma história, se ela é verdade ou ficção; para um bife, nos preocupamos em saber de que tipo de animal ele veio; para o sexo, somos fortemente afetados por quem pensamos que nosso parceiro sexual realmente é. E para o vinho, nos importamos com o preço.

ZH - Há mais fontes de prazer hoje em dia, mas há também um surto de depressão. Como o prazer e a felicidade se conectam?
Bloom - Penso no prazer conectado a experiências específicas. Assim, temos prazer ao olhar para um rosto bonito, ou ao ouvir uma música, ou ao comer certos alimentos. O sexo pode nos dar prazer, bem como o cinema, ou a participação em um ritual religioso, ou a criação de uma obra de arte. Agora, todas essas coisas podem nos fazer felizes, também, mas a felicidade é mais um estado duradouro, menos presa a alguma pessoa, coisa ou atividade específicas. Não é de surprender que o prazer e a felicidade tendam a ser relacionados, mas, quando você pensa nisso dessa forma, eles podem se separar. As pessoas podem ser muito felizes, mesmo se não houver muito prazer em suas vidas. Por outro lado, podem ter muitas experiências prazerosas de curto prazo e estar profundamente insatisfeitos com suas vidas
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ZH - Algumas pessoas, mesmo criadas em um mundo tecnológico e com uma abundância de evidências científicas, resistem a confiar na ciência. Não seria apenas por causa de religião, porque muitas dessas pessoas não são religiosas. Qual é a raiz disso? E, o mais importante, isso pode ser revertido ou ensinado? Se sim, como o senhor acha que isso poderia ser feito?
Bloom - Há muitas razões pelas quais as pessoas se rebelam contra a ciência. Uma delas é a religião; mesmo que as pessoas não sejam elas próprias muito religiosas, podem se sentir desconfortáveis endossando algo que veem como incompatível com sua fé. Outra é a política - alguns veem a ciência como um empreendimento partidário, relacionado com certos movimentos políticos (geralmente liberais) aos quais precisam se opor. Finalmente, a ciência não é algo muito natural. Ela nos diz coisas sobre o mundo que não fazem sentido intuitivo, e por isso são difíceis de absorver e entender. O relato cristão da origem dos seres humanos, por exemplo, é muito mais fácil de entender do que a teoria científica da seleção natural. Eu acho que parte da solução é mais educação científica, mas não do tipo comum. Não é o bastante ensinar os detalhes da biologia, da geologia, da física, e assim por diante - isso é o que temos feito até agora, e não está funcionando. Pelo contrário, acho que pelo menos parte de nossas energias deveria ser dedicada a ensinar mais sobre como os cientistas fazem o seu trabalho; menos sobre as teorias específicas, e mais sobre os métodos, tais como testes de hipóteses, replicação e assim por diante. Esses realmente são excelentes métodos, e podem levar a uma confiança mais racional na ciência e no trabalho que os cientistas fazem.

Entrevista completa em:  http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticias/proa/noticia/2014/08/paul-bloom-ate-os-bebes-definem-o-mundo-em-termos-de-nos-contra-eles-4581440.html

No site do Fronteira do pensamento você encontra outro resumo desta conferencia, mito interessante também. www.fronteirasdopensamento.com.br/canalfronteiras/entrevistas/?16,268




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