30 de junho de 2014

Sobre os medos

Nos últimos meses estive me dedicando ao estudo do medo, algo que tem afetado por demais as pessoas que acompanho. No inicio estava atrás de melhores formas para ajudar aos adolescentes, mas hoje vejo o quanto esta visão deve se estender, especialmente,  as questões relacionais.

“As oportunidades de ter medo estão entre as poucas coisas que não se encontram em falta na nossa época, altamente carente de matéria de certezas, segurança e proteção”. Diz Zygmunt Bauman em seu livro Medo líquido.

Os medos são muito variados e imprevisíveis e isso é uma das dificuldades de lidarmos com eles.  O mais evidente e permitido é o medo da morte. Mas o medo não se apresenta assim tão claramente e que bom se fosse, assim seria bem mais fácil.

Outra dificuldade em lidar com os medos é quando estes não fazem sentido tão claramente. Eles desafiam a quem quer  ajudar e, também a aqueles que acompanham aos que sofrem de seus males, especialmente aos familiares.

Quando o sofrimento é mais explicito e pode ser visto e trabalhado, conseguimos alívios mais rápidos e temos algo mais palpável a trabalhar. Quando está mascarado temos algo realmente sofrido e difícil. Lidar com o desconhecido é sempre mais complicado.

Em busca de pistas o psicólogo precisa ler as entrelinhas, observar bloqueios, impedimentos, fugas e ter muito cuidado ao lidar, para que a pessoa não se assuste mais ainda e se feche em si.

E quando falamos em desafetos nos relacionamentos tenho visto algo terrível, sofrido e penoso para todos:  o poder do medo em despertar o pior em cada um dos envolvidos. Algo que aflora em defesa própria sem muitos limites racionais.

Bem este tema é vasto e não se esgota. São muitos os nuances do medo, na vivencia pessoal, nos relacionamentos e na moderna impotência social que nos afeta e inibe nosso potencial criativo e de vida.



O livro Ensaio Sobre a Cegueira de José Saramago nos faz refletir sobre o medo de uma forma muito criativa e lúcida. Deixo aqui um link para um texto
de Rafael Trindade sobre o livro. Abaixo algumas observações a respeito.
  

Observações 

Uma grande parcela de reconhecimento da própria potencia (sua força) está na capacidade de passar por uma experiência e se deixar tocar por ela, seja do jeito que for. Se afetar, acreditando que pode, que cresce ou que sobrevive a ela.  Quando nos afetamos nos atualizamos e podemos nos fortalecer ou não, podemos nos permitir ser tocados pela “vida”.

“O homem pode o quanto é capaz, se  está cego, metaforicamente ou não, precisa lidar com isso de modo lúcido e realista e é provável que cometa as maiores atrocidades e horrores em seus tempos de desespero”,  está no texto de Rafael.

O sistema que nos rege reduziu-nos à impotência” e precisamos nos esforçar para tornar a realidade diferente. É muito fácil ser pessimista, “nossa maior cegueira é não sabermos aonde nos levam e não mostrarmos nenhuma curiosidade em saber“, disse Saramago em uma entrevista.

23 de junho de 2014

Mudança de endereço


Já estou atendendo em novo endereço! 

Rua: Florêncio Ygartua n. 422, Bairro Moinhos de Vento. O telefone para agendamento de consultas continuará o mesmo (51) 33337052.   

Devo registrar que tenho muito a agradecer a todos que me acompanharam na Clínica Yucatan, neste período de nove anos. Anos que foram marcados por troca de experiências e conquistas, para mim e para muitos que acompanhei. Guardarei com carinho as lembranças deste período!

Espero que esta nova fase seja tão boa quanto a que findou e que eu possa continuar recebendo a todos com a mesma atenção de sempre.

Em breve conto as novidades do novo local. 

3 de junho de 2014

Para os "pobres" e felizes mortais

Poema em linha reta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado
[sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe — todos eles príncipes — na vida…
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos — mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
Fernando Pessoa