24 de abril de 2014

O impasse da idade avançada


Atender em casa não é algo que eu faça regularmente, só em situações especiais. Graças a uma delas tive o privilégio de iniciar esta reflexão.

Por algum tempo acompanhei um paciente de 90 anos em sua casa. Este de cama, por um período maior do que seu corpo deixasse de reclamar e o humor de se ressentir, se recuperava de uma doença. Eu o ajudava e   compartilhava da sua difícil e silenciosa adaptação a idade avançada.

Suas limitações físicas já o estavam impedindo de muitas tarefas, porem a sua lucidez permitindo realizar escolhas, que o traziam vida. Esta situação me fez notar o quanto a mesma  lucidez o impedia de se admitir em suas novas limitações e acabava o levando a uma postura rígida em relação as mudanças.  Eu observava o quanto ele tentava manter a conquistada independência da juventude e o que isso significava.
  
Já acompanhei vários casos que prevalecem os prejuízos cerebrais, doenças degenerativas diversas que levam a perda e controle das próprias vidas. Experiencia difícil para a pessoa e para os familiares, mas agora via outra versão do processo.

É, cada fase da vida tem seus desafios, assim como cada etapa pede os seus ajustes. Me parece que, independente do caso,  a maior dificuldade em envelhecer esteja relacionada ao fato de que agora os ajustes são mais regressivos do que progressivos e isso é dureza de aguentar.

Um dia, depois de tanto esforço, nos vemos adultos, plenos  e sabedores de tudo um pouco e aí temos que começar a nos conformar com os abandonos: de controle, de autonomia, de execução própria, de mando... Temos que entregar o comando para outros que, com sorte, levarão isto em conta e serão compreensivos com as resistências.

Por um lado a resistência deve ser compreendida, por outro a própria resistência é o pior dos embates, o mais destrutivo e, as vezes,  o vilão da paz de espirito de quem envelhece. E dos que participam deste momento.

Que impasse! La pelas tantas o jogo vira e sabedoria é conseguir se entregar, este passa a ser o desenvolvimento atingido na fase. Entrega essa que, em muitos casos, dita o equilíbrio necessário para um desfrute mais tranquilo.


Esta aí um desafio para quem envelhece e para quem acompanha.  Que deve ter como única regra o bem estar de todos. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário