24 de dezembro de 2014

Espírito Natalino


Hoje é dia 24 de dezembro uma das noites mais esperadas do ano,  pelo menos para as crianças que nos cercam. Elas esperam  um velhinho, gordo, de vermelho, barbudo e que dirige um trenó puxado por renas. Ele deve  entrar pela chaminé  e dar os melhores presentes do ano. Uma loucura se pensarmos que estamos no verão e que a maioria das nossas casas sequer tem chaminé. Sonhos que acompanham as nossas vidas...

Para nós adultos um sonho um tanto caro, não só pelo custo mas pelos dias que o antecedem. Na sua semana o comandante dos dias é o estresse, a agitação, muita euforia e tudo de difícil que acompanha estes estados.

Mas aqui estamos nós, preparando nossas casas para receber nossas famílias, pensando no presentinho que mais agradaria aquela sobrinha amada, no embrulho mais bonito para uma grande amiga, nos detalhes de decoração para o prato principal e em fantásticos acompanhamentos que incluem a melhor bebida do ano.

Tudo de bom! Principalmente na intenção de confraternização que acompanha esta noite. Poderíamos julgar este festejo? Sem dúvida que sim. Talvez para tentar transformá-lo em algo menos comercial, com um pouco mais de criatividade e menos custos. Eu mesma fiz com o meu filho uma árvore de Natal reciclada de tampinhas, não seria difícil de repensarmos as formas de presentear e também de viver estes últimos dias.

Contudo olhemos para o que está aí hoje, a promessa de uma noite onde a vontade é de confraternizar.  É incrível, mas a partir de certa hora do dia parece que todo o tumulto dos últimos dias se vai e as pessoas começam sentir um tipo de energia permeada de boas intenções e isso, que inicia em cada um de nós, passa  para o coletivo e em cadeia afeta a todos.

Do que se trata?  Do tão falado espirito do Natal!

Portanto, o meu desejo para vocês 
é que este espirito de amor possa afeta-los!

Que todos nós possamos experimentar uma noite de paz percebendo que este pode ser possível além da própria festa.
Que possamos nos contaminar por o espirito natalino de aceitação de diferenças, de gentilezas, de cuidado, de respeito, da vontade de dar o seu melhor e aceitar o melhor do outro. 
E que as dificuldades se diluam nessa energia!
Que Jesus esteja em nossos corações e 
siga presente durante o próximo ano!  

Ou que a força esteja conosco! Como diria um bom Mestre Jedai que não é cristão, mas é do bem.  

8 de dezembro de 2014

Desilusão

Ultimamente tenho falando bastante da ilusão do ideal e junto com isso de desilusão. São coisas que andam juntas, centre-se em um ideal ou algo perfeito e logo virá a desilusão.

Porem ter um ideal não é ruim, ao contrário pode ser bem bom como referência do que se deseja. Uma ideia bem completa do que se quer ou gostaria pode levar a muitas  realizações.  O problema está em prender-se a sua exatidão.

O seu ideal, seja de pessoa ou situação, é fruto do seu desejo, da sua visão. A realidade pode ser bem diferente ou até bem parecida, mas não voltada ao que você deseja. 

Por isso a desilusão e ela dói, mas nos ajuda a aceitar as "ricas" possibilidades da realidade.   

“Sonhar é maravilhoso, desejar é estimulante, realizar gratificante e flexibilizar é possibilitar viver tudo isso”.



Abaixo uma crônica de Ivan Martins sobre desilusão. Muito boa!

Desilusão é uma experiência terrível. Num momento qualquer, você está cheio de esperança. No outro, seu mundo veio abaixo. Como uma repentina bofetada, a desilusão machuca, desnorteia e humilha. É o evento dramático que, na vida amorosa, separa a realidade do sonho, os homens dos meninos e os tolos dos sábios. A desilusão é nosso diploma. Quem não passou por ela é um inocente. Ainda não sabe de nada.

Você, apaixonado, sugere à namorada que talvez seja hora de fazer planos e morar juntos. Ela responde, cheia de dedos, que talvez não esteja assim tão envolvida com você. Pleft!

Encantada com o sujeito, você pergunta, toda bonitinha, se o que rola entre vocês é um namoro – e ele diz, sem hesitar, que também sai com outra garota e não quer compromisso. Pleft!

Depois de cinco anos de casamento, as coisas esfriaram ao ponto de congelamento. Você tem esperança e propõe uma segunda lua de mel – então seu marido conta que tem saído com uma colega, que está apaixonado e vinha se preparando para contar que pretende morar com ela. Pleft!
Com essas histórias, quero dizer, ao contrário das lamúrias frequentes, que desilusão é bom. Quem nos desilude nos abre os olhos e nos descortina o mundo verdadeiro. Por isso, nos presta um grande serviço.

O iludido acredita, essencialmente, que o outro sente por ele o mesmo que ele sente pelo outro. Vive a fantasia de ser amado ou, pelo menos, tem esperança de um dia ser correspondido. É um sonhador que pode passar anos caminhando no interior do seu sonho, vendo apenas o que deseja ver. A desilusão é o despertar. Deveria ser saudada como libertação, mas costuma ser recebida com ressentimento. A pena de si mesmo é maior que a gratidão.
Na verdade, o inimigo é quem nos ilude. Faz mal aquele que, por fraqueza ou piedade – muitas vezes por vaidade – alimenta nossos sentimentos infundados. Quem nos olha nos olhos e diz a verdade merece nosso respeito. Demonstra respeito por nós, ainda que nos magoe.

A verdade, é importante que se diga, nem sempre é nítida. Quando se trata de afeto, somos criaturas confusas, habitadas por dúvidas e contradições. Por isso, mais importante que aquilo ouvimos é o que vemos. Mais importante que sentimentos, são ações. Se o sujeito parece ter por você o maior carinho, mas é sua amiga que ele chama para sair, parece que é da amiga que ele gosta – embora talvez nem saiba. As decisões dele contam tudo que você precisa saber, desde que você as conheça. Quem diz o que sente, mas esconde o que faz, ilude.

Eis uma boa máxima: não me diga o que você sente, me conte o que você faz.
Da minha parte, tendo vivido ilusões e desilusões, prefiro as últimas. Elas me salvaram de vexames profundos, me tiraram de enganos demorados, me abriram portas que eu desconhecia e me puseram no caminho certo. Tem sido assim com todos que eu conheço. Os mais tristes, os mais dignos de piedade, são os que se agarram a ilusões que todos em volta reconhecem, menos eles. A esses faz falta uma desilusão. Uma boa bofetada – pleft! – que os devolva de volta à vida.


Ivan Martins escreve às quartas-feiras para a Época 

27 de novembro de 2014

Falando de sexo


Um dos problemas mais comuns das pessoas com dificuldades sexuais esta relacionado a falta de desfrute pleno das diversas zonas erógenas do corpo. Nossos corpos nos oferecem muitas possibilidades de prazer erótico, porem estas são pouco exploradas, ou melhor, desfrutadas. 

Quem nunca ouviu falar nos poderes das preliminares? Hoje já se sabe que estas fazem uma enorme diferença na qualidade do encontro sexual e que podem inclusive ser o prazer suficiente para algumas pessoas.

Faz bastante tempo que me dedico a sexualidade, terminei meu curso de psicologia com um trabalho de conclusão na área da psicossomática. Pesquisei e analisei conteúdos e causas que envolviam algumas disfunções sexuais, desde então tenho batido na tecla da importância das preliminares. 

Porem, é verdade, que  são inúmeras as questões que envolvem as relação sexuais satisfatórias e prazerosas. Questões físicas, químicas, fatores de aprendizagem, crenças, valores e mais um montante de componentes que acompanham as fantasias e a possibilidade de "brincar". Tudo muito particular e único. 

Mas neste universo de tantas questões uma certeza você pode ter: em matéria de sexo não existe certo e errado e sim o que dá prazer e este pode ir muito alem da genitália. Experimente!

Abaixo trouxe um texto bem esclarecedor da colega Dra. Jaqueline Brendler. Ela escreve mensalmente para o caderno Vida do jornal Zero Hora e sempre traz coisas muito interessantes. 

"A anatomia, o prazer e as práticas sexuais"

O corpo humano é riquíssimo no seu potencial erótico, sendo muitas as formas de se obter prazer. São pré-requisitos para o prazer sexual a existência da permissão para viver essa experiência, a prática sexual habitar o imaginário erótico, haver saúde sexual, além de o outro ser percebido e comportar-se como um ser erótico. O prazer originado em áreas corporais distintas irá proporcionar diferentes sensações eróticas, sendo o efeito aditivo quando várias regiões forem simultaneamente estimuladas.

O pênis faz parte de três sistemas: o aparelho reprodutor, o urinário e o sexual/erótico. O corpo da mulher é o mais evoluído da espécie humana, não somente pela capacidade de gerar filhos, mas também porque possui um órgão exclusivamente com finalidade prazerosa, o clitóris. Este tem uma grande extensão interna, não visível. Contudo, a sua parte externa e menor — a glande — é a parte mais ricamente inervada do corpo humano.

 Se o objetivo da sexualidade fosse somente a reprodução ou o prazer ligado à penetração vaginal, única prática aceita por algumas religiões, a glande do clitóris, por sua riqueza em nervos que irão conduzir o estímulo erótico, estaria localizada no fundo da vagina, e não na genitália externa. Quais as vantagens de a glande do clitóris estar fora da vagina? Propicia à mulher apreciar e atingir o clímax com as carícias íntimas realizadas com a mão e por meio da boca (sexo oral). Se o clitóris externo for massageado durante o sexo anal, facilita a mulher ter prazer e erotizar essa prática, o mesmo pode ocorrer durante o coito vaginal. Em um contexto amplo, a presença do prazer na vida das mulheres tem marcos político, cultural e científico, mas não devemos menosprezar as possibilidades que a anatomia feminina nos oportuniza experienciar.

O autoconhecimento erótico lembra antigas práticas sexuais que aumentam a chance de ter prazer, ao passo que a curiosidade ajuda a revelar novas descobertas que irão enriquecer a vida sexual. Em mulheres, há relatos de orgasmos atípicos envolvendo outras áreas como as mamas ou os pensamentos, mas o modo mais fácil de atingir o clímax é por meio do estímulo do genital.

Em relacionamentos de longa duração, o uso de diferentes práticas e posições sexuais ajuda a manter o desejo sexual ativo em ambos do par, pois a variedade no ritual sexual é afrodisíaca. O oposto, um roteiro fixo e com restrições sexuais, um "mapa de áreas proibidas", empobrece a intimidade.

A anatomia feminina é perfeita. Sabemos que o prazer e a satisfação sexual do outro é objetivo da maioria dos parceiros, mas o sinal verde para usufruir a plenitude das possibilidades eróticas depende muito mais da mulher do que do outro, pois o homem desde criança aprendeu a ser mais livre sexualmente. Você nunca pensou em incorporar novas práticas a sua vida íntima? Bem, sempre é tempo de mudar.

12 de novembro de 2014

A sabedoria chinesa do cuidado: o Feng Shui

Uma das vantagens da globalização que não é só econômico-financeira mas também cultural, é permitir-nos colher valores pouco desenvolvidos em nossa cultura ocidental. No caso, temos a ver com o Feng-Schui chinês. Literalmente significa vento (feng) e água (shui). O vento leva o Chi, a energia universal e a água o retem. Personalizado significa “o mestre das receitas”: o sábio que, a partir de sua observação  da natureza e da fina sintonia com o Chi indicava  o rumo dos ventos e o veios d’água e assim como bem montar a moradia.

         Beatriz Bartoly,  em sua brilhante tese em filosofia na UERJ, da qual fui orientador, escreve: “o Feng Shui nos remete para uma forma de zelo  carinhoso” – nós diríamos cuidadoso e terno – “com o banal de nossa existência, que no Ocidente, por longo tempo, tem sido desprestigiado e menosprezado: cuidar das plantas, dos animais, arrumar a casa, cuidar da limpeza, da manutenção dos aposentos, preparar os alimentos, ornamentar o cotidiano com a prosaica, e, ao mesmo tempo, majestosa beleza da natureza. Porém mais do que as construções e as obras humanas é a sua conduta e a sua ação que é alvo maior desta filosofia de vida,  pois mais do que os resultados, o Feng-Shui visa o processo. É o exercício de embelezamento que importa, mais do que o belo cenário que se quer construir.  O valor está na ação e não no seu efeito, na conduta e não na obra.” 

         Como se depreende, a filosofia Feng-Shui visa antes o sujeito que o objeto,  mais a pessoa do que ambiente e a casa em si.  A pessoa precisa envolver-se no  processo, desenvolver a percepção do ambiente, captar os fluxos energéticos e os ritmos da natureza. Deve assumir uma conduta em harmonia com os outros, com o cosmos e com os processos rítmicos da natureza. Quando tiver criado essa ecologia interior, está capacitado para organizar, com sucesso, sua ecologia exterior.

      Mais que uma ciência e arte, o Feng Shui é fundamentalmente uma sabedoria, uma ética ecológico-cósmica de como cuidar da correta distribuição do Chi em nosso ambiente inteiro.
          Nas suas múltiplas facetas o Feng Shui representa uma síntese acabada do cuidado na forma como se organiza o jardim, a casa ou o apartamento, com harmoniosa integração dos elementos presentes. Podemos até dizer que os chineses como os gregos clássicos são os incansáveis buscadores do equilíbrio dinâmico em todas as coisas.
         O supremo ideal da tradição chinesa que encontrou no   budismo e no taoismo sua melhor expressão,  representada por Laotse (do V-VI século a.C.)  e por  Chuang Tzu (século IV-V a.C.), consiste em procurar a unidade mediante um processo de integração  das diferenças, especialmente das conhecidas polaridades de yin/yang, masculino/feminino, espaço/tempo, celestial/terrenal entre outras. O Tao representa essa integração, realidade inefável com a  qual a pessoa busca se unir.
         Tao significa caminho e método, mas também a Energia misteriosa e secreta que produz todos os caminhos e projeta todos os métodos. Ele é inexprimível em palavras,  diante dele vale o nobre silêncio. Subjaz na polaridade do yin e do yang  e através deles se manifesta. O ideal humano é chegar a uma união tão profunda  com o Tao que se produza o satori, a iluminação. Para os taoistas o bem supremo não se dá no além morte como para os cristãos, mas ainda no tempo e na história, mediante uma experiência de não-dualidade e de integração no Tao. Ao morrer a pessoa mergulha no Tao e se uni-fica  com ele.
        Para se alcançar esta união,  faz-se imprescindível a sintonia  com  a energia vital que perpassa o céu e a terra: o  Chi.  Chi é intraduzível, mas equivale ao ruah  dos judeus, ao pneuma dos gregos,  ao spiritus dos latinos e ao axé  dos yoruba/nagô, ao vácuo quântico dos cosmólogos: expressões  que designam a Energia suprema e cósmica que subjaz e sustenta todos os seres.
         É por força do Chi que todas as coisas se transformam (veja o livro I Ching, o livro das mutações) e se mantém permanentemente em processo. Flui no ser humano através dos meridianos da acupuntura. Circula na Terra  pelas veias telúricas subterrâneas, compostas pelos campos eletro-magnéticos distribuidos ao longo de meridianos da ecopuntura que entrecruzam a superfície terrestre. Quando o Chi se expande significa vida, quando se retrái, morte. Quando ganha peso, apresenta-se como matéria, quando se torna sutil, como espírito. A natureza é a combinação sábia dos vários estados do Chi, desde os mais pesados até os mais leves.
         Quando o Chi emerge num determinado lugar, surge uma paisagem aprazível com brisas suaves e águas cristalinas, montanhas sinuosas e vales verdejantes.  É um convite para o ser humano instalar ai  sua morada. Ou encontra um apartamento no qual se sente “em casa”.
         A visão chinesa  do mundo privilegia o espaço, à diferença do Ocidente que previlegia o tempo. O espaço para o taoismo é o lugar do encontro, do convívio, das interações de todos com todos, pois todos são portadores da energia Chi que empapa o espaço. A suprema expressão do espaço  se realiza na casa, no jardim ou no apartamento bem cuidado.
         Se o ser humano quiser ser feliz deve desenvolver a topofilia, o amor ao lugar onde mora e onde constrói sua casa e seu jardim ou mobilia seu apartamento. O Fen Shui é a arte e  técnica de bem construir a casa, o jardim e decorar o apartamento com sentido de harmonia e beleza.
         Face ao desmantelamento  do cuidado e à grave crise ecológica atual, a milenar sabedoria  do Feng-Shui nos ajuda a refazer a aliança de simpatia e de amor para com a natureza. Essa conduta  reconstrói a morada humana (que os gregos chamavam de ethos), assentada sobre o cuidado e a suas múltiplas ressonâncias como a ternura, a carícia e a cordialidade.

Leonardo Boff 
Leia também  Virtudes para um outro mundo possivel,3 vol. Vozes 2006.

11 de novembro de 2014

Eu, você e os modelos éticos


Outro dia ouvi no rádio uma entrevista que me fez pensar.

“Oito em cada dez brasileiros concordam com a afirmação de que é fácil desobedecer às leis. O mesmo percentual também tem a percepção de que, sempre que possível, o brasileiro escolhe "dar um jeitinho" para burlar alguma regra”.

A entrevista relatou os objetos da pesquisa, apontou percepções e resultados e o que me chamou mais a atenção foram os altos índices  de  descumprimentos de regras e  valorização do velho “jeitinho brasileiro” de burlar a lei.

Mas, para mim, o mais relevante foi a observação de  que muitos entrevistados se referiam a influência de modelos  de desonestidade no seu comportamento e por consequência da  sociedade. Modelos como os da nossa classe política e muitos dos nossos líderes, disse a pessoa que falava da pesquisa.  Parece que estes modelos reforçam a crença de que é esperto quem tira vantagem.

Outro dado foi que a pesquisa mostrou foi a descrença nos modelos éticos e na punição.   Algo como, se eles podem porque eu não?

Para mim, que sei pouco  de história do Brasil, mas o suficiente para me remeter a uma leitura sócio-cultural: um padrão historicamente alimentado, iniciado nos nossos primeiros dirigentes, reis e rainhas portugueses.

A pesquisa questiona sobre delitos, mas é claro as pessoas confessam seus “pequenos delitos”:  atravessar fora da faixa de segurança,  estacionar na vaga de idosos, furar filas, burlar os impostos, buscar benefícios próprios... mas que a mim envergonham muito.
 
Quem um dia não os cometeu? Eu sim, e você provavelmente também e esta talvez seja uma questão importante.  Por que os meus ou os seus são menos condenáveis?

Um tipo de comportamento que costuma me repudiar, especialmente ao perceber tentativas de tirar vantagens,  em situações que não as definem como as de direito.  Mas relativamente aceitáveis, dependendo do caso?

Bem eu sou psicóloga e o meu trabalho  é feito de leituras compreensivas e não pede, nem estimula julgamentos, deixo esta parte aos que se preparam para esta  tarefa.
 
Por isso o meu interesse com este texto é despertar. Para mim esta pesquisa serve para chamar a nossa atenção a questão e nos fazer pensar sobre a nossa parcela na manutenção destes comportamentos. Somos modelos também!

Teria eu mais direito de burlar a lei? Teria você, o seu filho e amigos o direito de ter mais vantagens?

Aqui o link para a pesquisa:

29 de outubro de 2014

Amor ideal e seu estado de permanência


Por que o “amor ideal” parece tão difícil de ser vivido nos dias de hoje? Porque o veneramos como a uma divindade, por ter se tornado, assim como a felicidade, o alfa e o ômega das sociedades ocidentais.

Esta pergunta está no livro: Fracassou o Casamento por Amor? de Pacal Bruckner . Ela questiona e nos ajuda a pensar no que está acontecendo com os nossos jeitos de nos  relacionar.

Eu acompanho e vejo por aí muitas pessoas que sofrem por amor. Seja por não terem vivido o "seu grande amor” ou por  já não o reconhecer em seus casamentos. E no contraponto moderno aqueles que nem se permitem se envolver, por conta do mesma primeira questão que os impede: a idealização.

Idealização do grande amor, idealização de um estado de permanência da intensidade em suas relações e idealização do seu ideal de companheiro. Um enrosco e tanto, que nem os antigos filósofos deram conta e nem a modernidade consegue dar.

Na minha opinião? Se não nos livrarmos dos aprisionamentos que as idealizações nos colocam estaremos, sendo românticos ou pós modernos, nos colocando em situações de sofrimento.

“Estabeleça um ideal e você imediatamente estará engendrando milhões de inadaptados, incapazes de alçar a esta atitude que se imaginam, então, deficientes”. Até mesmo o corpo tem que tomar seu lugar, ser demonstrado: a comoção se torna um aprendizado, um exercício.  Diz Bruckner.

Se seguirmos nesta ótica do perfeito, o que deveria gerar bem estar e momentos felizes se torna aflição e angustia. Existem inúmeras explicações para que tenhamos chegado a esta maneira de desejar a vida e pensar as relações tão idealizadas, para uns a compreensão ajuda, para outros é melhor deter-se em tentar observar as suas idealizações. Tudo pode ser revisto e mudar o conceito já pode ajudar bastante.

A vida é bem “caótica”, no  bom sentido da palavra, e não é possível controlar o seu seguimento. Portanto ter o ideal é impossível, sempre terá algo diferente.

O que precisamos ter é clareza do que gostamos e queremos, da vida e das relações. Mas não dá para transformarmos as pessoas nos seres que esperamos encontrar, querer que a paixão permaneça para sempre e sair por aí agindo com intolerância e descartabilidade ao imperfeito. Bem, até dá, mas...

Eu não me atrevo a recomendar isso ou aquilo para os sucessos nas suas relações amorosas, porem você tem estas referências que fiz no texto acima.

O que posso lhe dizer é que cada um é único e que, tanto para alguém só, quanto para um casal é muito bom conhecer os seus “engates” de sofrimento e repetições “errôneas”.  Isto ajuda a fazer escolhas claras e conscientes e estas tem grandes chances de levar a muitos momentos de amor e alegria.

28 de outubro de 2014

Diferença? Sim!

Uma homenagem as possíveis diferenças nas relações amorosas. E.. Quem um dia irá dizer que não existe razão nas coisas feitas pelo coração!


Parabéns a todos aos corajosos que se aventuram a se experimentar, deixando-se conhecer, julgando menos e aceitando mais,  trocando experiências... Vivendo!

Eduardo e Monica

Quem um dia irá dizer
Que não existe razão
Nas coisas feitas
Pelo coração
E quem irá dizer
Que não existe razão?…
Eduardo abriu os olhos
Mas não quis se levantar
Ficou deitado
E viu que horas eram
Enquanto Mônica
Tomava um conhaque
No outro canto da cidade
Como eles disseram…
Eduardo e Mônica um dia
Se encontraram sem querer
E conversaram muito mesmo
Prá tentar se conhecer…
Um carinha do cursinho
Do Eduardo que disse:
-Tem uma festa legal
E a gente quer se divertir…
Festa estranha
Com gente esquisita
-Eu não tou legal
Não agüento mais birita
E a Mônica riu
E quis saber um pouco mais
Sobre o boyzinho
Que tentava impressionar
E o Eduardo, meio tonto
Só pensava em ir prá casa
-É quase duas
Eu vou me ferrar…
Eduardo e Mônica
Trocaram telefone
Depois telefonaram
E decidiram se encontrar
O Eduardo sugeriu
Uma lanchonete
Mas a Mônica queria
Ver o filme do Godard…
Se encontraram então
No parque da cidade
A Mônica de moto
E o Eduardo de camêlo
O Eduardo achou estranho
E melhor não comentar
Mas a menina tinha
Tinta no cabelo…
Eduardo e Mônica
Era nada parecidos
Ela era de Leão
E ele tinha dezesseis
Ela fazia Medicina
E falava alemão
E ele ainda
Nas aulinhas de inglês…
Ela gostava
Do Bandeira e do Bauhaus
De Van Gogh e dos Mutantes
Do Caetano e de Rimbaud
E o Eduardo gostava de novela
E jogava futebol-de-botão
Com seu avô…
Ela falava coisas
Sobre o Planalto Central
Também magia e meditação
E o Eduardo ainda tava
No esquema "escola, cinema
Clube, televisão"…
E mesmo com tudo diferente
Veio neles, de repente
Uma vontade de se ver
E os dois
Se encontravam todo dia
E a vontade crescia
Como tinha de ser…
Eduardo e Mônica
Fizeram natação, fotografia
Teatro, artesanato
E foram viajar
A Mônica explicava pro Eduardo
Coisas sobre o céu, a terra
A água e o ar…
Ele aprendeu a beber
Deixou o cabelo crescer
E decidiu trabalhar
E ela se formou no mesmo mês
Que ele passou no vestibular…
E os dois comemoraram juntos
E também brigaram juntos
Muitas vezes depois
E todo mundo diz
Que ele completa ela
E vice-versa
Que nem feijão com arroz…
Construíram uma casa
Uns dois anos atrás
Mais ou menos quando
Os gêmeos vieram
Batalharam grana
Seguraram legal
A barra mais pesada
Que tiveram…
Eduardo e Mônica
Voltaram prá Brasília
E a nossa amizade
Dá saudade no verão
Só que nessas férias
Não vão viajar
Porque o filhinho do Eduardo
Tá de recuperação
Ah! Ahan!…
E quem um dia irá dizer
Que existe razão
Nas coisas feitas pelo coração?
E quem irá dizer
Que não existe razão?…


Legião Urbana

19 de outubro de 2014

Felicidade, ideal obrigatório


 “A felicidade é algo que muda de acordo com a pessoa, com a época e com a idade. Ela é fugidia por natureza, não vem quando a chamamos e às vezes chega quando menos esperamos”.  

Estas são as palavras de Pascal Bruckner,  filósofo e escritor francês, conferencista no Fronteiras do Pensamento do dia 22 Outubro em Porto Alegre.
O filósofo conhecido por suas análises duras sobre a sociedade francesa, o entendimento ocidental sobre o amor e a felicidade, o multiculturalismo e o marxismo,  acredita na felicidade não idealizada.

"Sempre detestamos o sofrimento, é normal. A novidade é que agora as pessoas não têm mais o direito de sofrer. Então, sofre-se em dobro. Querer que as pessoas se calem sobre a dor física ou psicológica é apenas agravar o mal."

Seu livro A euforia perpétua (Ed. Bertrand Brasil) denuncia a fragilidade e a crueldade de uma sociedade que transformou a felicidade em ideal coletivo e obrigatório. 'No mundo ocidental, quem não é feliz se sente excluído e fracassado', afirma o escritor. 'A felicidade é extremamente individual e efêmera por definição. Por isso, as pessoas obcecadas em conquistá-la, como a uma propriedade, sofrem em dobro e se distanciam das pequenas alegrias da vida.'

Abaixo você pode conferir a esclarecedora entrevista dada por Bruckner à revista Época:

Época: Como a felicidade se tornou uma tirania?
Pascal Bruckner: No século XVIII, felicidade já deixara de ser um direito para se tornar um dever. Mas essa inversão de valores só se consolidou no século XX, depois de 1968, quando se fez uma revolução em nome do prazer, da alegria, da voluptuosidade. A partir do momento em que o prazer se torna o principal valor de uma sociedade, quem não o atinge vira um indivíduo fora-da-lei.

Época: Se é natural ao ser humano buscar a felicidade, onde está o erro?
Pascal Bruckner:
O erro é esquecer que ninguém pode dizer o que o outro deve procurar, muito menos coletivamente. É perigoso achar que a existência só tem validade se a pessoa encontrar a felicidade. Essa é apenas uma das possibilidades na vida. Há várias outras, como a paixão e a liberdade. Recuso a noção de felicidade como objetivo maior da humanidade.

Época: O problema não é o que se considera felicidade hoje?
Pascal Bruckner:
O problema é a procura. Todos os que buscam a felicidade ficam mais infelizes, porque não se trata de uma caça ao tesouro ou à pedra filosofal. A busca da felicidade está fadada ao fracasso. É como procurar o príncipe encantado. Acabamos por nos privar dos pequenos prazeres e das pequenas alegrias, e ficamos com uma insatisfação permanente.

Época: A felicidade transformada em objetivo coletivo é uma questão política?
Pascal Bruckner:
Muitos países querem se colocar como paraísos terrestres. Enquanto isso, um monte de gente morre de fome. Todos os Estados fascistas ou comunistas queriam padronizar a felicidade do povo. Isso é perigoso. Nenhum governo, patrão ou chefe de Estado tem o direito de nos dizer onde está nossa felicidade.

Época: Confunde-se felicidade e bem-estar?
Pascal Bruckner:
Dinheiro compra bem-estar, conforto, mas nada compra a felicidade. Nos países em que o Estado falha em suprir as necessidades básicas do cidadão, é compreensível que a felicidade seja vista como a ausência da tristeza. Mas ela não deve ser reduzida a uma definição pela negação. Nos países ricos, em que as pessoas dispõem de certa renda, têm casa e comem normalmente, a felicidade não é compulsória. Prova disso é que na França se consome uma enorme quantidade de antidepressivos.

Época: Sofrimento virou doença?
Pascal Bruckner:
Sempre detestamos o sofrimento, é normal. A novidade é que agora as pessoas não têm mais o direito de sofrer. Então, sofre-se em dobro. Querer que as pessoas se calem sobre a dor física ou psicológica é apenas agravar o mal.

Época: Felicidade virou símbolo de status?
Pascal Bruckner:
Mais que o dinheiro, ela é a nova ostentação dos ricos. Eles estão na mídia e exibem seus carros de luxo, sua vida amorosa extraordinária, seu sucesso social, financeiro ou mesmo moral, quando colaboram com instituições beneficentes. A felicidade virou parte da comédia social

Época: Isso aumenta a crença de que ela pode ser conquistada?
Pascal Bruckner:
Há pessoas que correm a vida inteira atrás dela, e então a felicidade vira uma inquietação permanente. Ou seja, o sujeito já entrou no território da angústia. A felicidade vira uma prisão.

Época: E o papel da religião em tudo isso?
Pascal Bruckner:
O cristianismo coloca a felicidade como o paraíso perdido ou por vir. É a noção da felicidade perfeita, ao pé de Deus. Praticamente todas as religiões falam do sofrimento e nos prometem a felicidade depois desta vida. No catolicismo, o sofrimento é tamanho que o Deus sangra e agoniza. Por outro lado, há cada vez mais religiões que se ocupam da felicidade na Terra, como evangélicos, budistas e hinduístas, por exemplo. Na verdade, nos tornamos todos crentes laicos: tentamos cumprir na Terra o ideal que o cristianismo nos propõe para o céu. Queremos fazer nossa felicidade como os penitentes de outros tempos se flagelavam. Nós nos penitenciamos nas academias de ginástica, no esforço permanente para emagrecer, nos regimes, na obrigação de ter orgasmo.

Época: Então nossa busca de felicidade não nos aproxima do hedonismo nem traz uma ruptura com certos valores religiosos?
Pascal Bruckner:
Curiosamente, todas as revoluções feitas nesse sentido, inclusive a Francesa, desembocam em um ideal ainda muito impregnado de religião. Nosso hedonismo acaba nos mortificando. Agredimos nosso corpo para torná-lo perfeito, musculoso, imortal. As salas de ginástica cada vez mais se parecem com salas de tortura. Carregamos a Inquisição conosco, e ela é o espelho. Continuamos no universo da mutilação, que é medieval.

Época: Isso ocorre também no Oriente?
Pascal Bruckner:
Para os povos orientais, existe a noção de reencarnação. Por um lado, pode-se esperar que a próxima vida seja melhor. Por outro, é preciso viver de forma a evitar as reencarnações e, assim, poder ir ao encontro da alma imortal de Brahma ou Buda. No Ocidente moderno, a vida se tornou uma sequência de gozos. E nossa busca frenética por essa verdade parece a saga de Dom Quixote. É patética.

Época: No século XIX, havia o 'mal do século'. Era lindo sofrer. Estamos vivendo isso às avessas?
Pascal Bruckner:
O 'mal do século' era uma estratégia do individualismo. O burguês era contente e satisfeito, ao passo que o artista exibia sua tristeza para se distinguir da massa. Até a doença se tornou uma forma de singularização. Hoje, a estratégia é a mesma: se distinguir, escapar da miséria comum.

Época: Por isso muita gente adota a atitude de ver alegria e perfeição em cada refeição, cada objeto, cada momento?
Pascal Bruckner:
É a estratégia dos estoicos, de fazer tudo como se fosse a última vez. É uma revalorização da vida cotidiana. É interessante, mas pode ser um mecanismo de autopersuasão, de se convencer da felicidade da própria existência, de evitar ser pego no 'erro'. Essas são pessoas que decidiram imperativamente ser felizes. Isso é muito suspeito, porque todo ser humano tem momentos de tristeza. Tentar esconder isso é se enganar.

Época: Os livros de autoajuda reforçam que só não é feliz quem não quer?
Pascal Bruckner:
Esse tipo de literatura sempre existiu. São livros contra as pequenas misérias do cotidiano: como se livrar de uma febre, remover uma mancha. Hoje, no entanto, os temas são mais amplos: promete-se a felicidade. Deepak Chopra, guru das estrelas de Hollywood, faz vários livros sobre o mesmo tema: como ganhar dinheiro, como fazer sucesso. Há sempre um ou dois conselhos que funcionam, mas esse tipo de receita vive muito próximo do charlatanismo.

Época: As pessoas felizes são menos interessantes?
Pascal Bruckner:
Ninguém é feliz ou infeliz o tempo todo. A vida não se divide entre essas duas polaridades. Muito mais importante que a felicidade é a liberdade, a capacidade de enfrentar problemas. A felicidade é um valor secundário, e é bom enfatizar isso para que não se sintam culpadas as pessoas que não chegam a ser felizes.

Época: O que seria a felicidade real, não-idealizada?
Pascal Bruckner: Um sentimento sem objeto preestabelecido, algo que muda de acordo com a pessoa, com a época e com a idade. Nós a encontramos em alguns momentos, mas ela é fugidia por natureza, não vem quando a chamamos e às vezes chega quando menos esperamos. Há dois erros básicos na forma como a encaramos atualmente. Um é não reconhecê-la quando acontece ou considerá-la muito banal ou medíocre para acolhê-la. O segundo erro é o desejo de retê-la, como a uma propriedade. Jacques Prévert tem uma frase linda sobre isso: 'Reconheço a felicidade pelo barulho que ela faz ao partir'. A ilusão contemporânea é a da dominação da felicidade. Um triste erro.

17 de outubro de 2014

Alzheimer - acompanhando de perto

Hoje quero compartilhar com vocês um pouco do meu aprendizado destas ultimas semanas. Vocês devem ter notado a minha ausência no blog e ela tem uma boa justificativa.

Nestes últimos dias estive acompanhando a minha querida sogra que tem Alzheimer. Foram dias de muito aprendizado, pois conhecia a teoria mas nada como a presença no dia a dia para ensinar.

Para quem ainda não sabe o mal de Alzheimer é uma doença neurovegetativa sem cura, mas atualmente com chances de  controle. Seu sintoma maior e mais comum é a perda da memória, mas a doença compromete o pensamento, a orientação de tempo e espaço e o comportamento.  A pessoa afetada parece uma criança que ainda não desenvolveu uma serie de aprendizados. A diferença é que estamos falando de um adulto criança, que reage a algumas coisas que uma criança não reagiria, especialmente as orientações de rotina.

Com ela na minha casa tive a oportunidade de sentir de perto o que acontece com a minha sogra:  a sua desorientação, a  necessidade de auxilio permanente para as mínimas coisas e o seu esquecimento de fatos e das pessoas com quem conviveu e amou ao longo da vida. Vi a sua alegria em ser atendida com carinho e, mais ainda, em ser escutada. E como é importante ouvir! Seja lá o que for. Pude observar o seu grande ajuste criativo, representado pelas saídas da realidade. Uma ação tão necessária para a sobrevivência em meio a tanto esquecimento.

Não é simples para os familiares. É difícil ver aquela pessoa, com quem se compartilhava a vida e trocava ideias, se esquecendo e perdendo estes registros. Por vezes tão sem conexão com os fatos reais. É difícil não saber lidar com coisas como as frequentes necessidades de repetições e perguntas inesgotáveis do mesmo. Também as teimosias em pequenas coisas e “brabezas” com quem tenta orientar e cuidar de uma forma que não é a esperada pelo doente.

Com a minha sogra eu realmente vi o quanto é  preciso aceitarmos o fato e entendermos o processo. Só assim conseguimos a fundamental paciência para lidar com estas pessoas que hoje dependem tanto da nossa compreensão e apoio.

E já que a informação é tão vital para a saúde de todos os envolvidos deixo para vocês a dica de um livro de fácil leitura.  


“ Quem, eu?” escrito por Fernando Aguzzoli. Um rapaz de 22 anos que acompanhou de perto a doença da sua avó, dona Nilva e fez isso de uma forma exemplar. 
Neste livro você irá encontrar esclarecimentos de psicólogos, psiquiatras, neurologistas, geriatras e até advogados e arquitetos. “Todos falam sobre questões bem pertinentes para os pacientes a para a família. Os textos descrevem situações engraçadas, aventuras até fantasiosas – características de um paciente com Alzheimer – e, ao mesmo tempo, cheias de sensibilidade e amor.


Obrigada querida por me ensinar e parabéns a minha cunhada pela dedicação e presença constante. 

29 de agosto de 2014

Mia Couto - palestra aberta neste sábado

A quem interessar deixo a dica. 

AULA MAGNA COM MIA COUTO – HOMENAGEM DO FRONTEIRAS DO PENSAMENTO AOS 80 ANOS DA UFRGS
DATAS: 1o de setembro às 10h
LOCAL: Salão de Atos da UFRGS (Av. Paulo Gama, 110 – Porto Alegre/RS).
ACESSO: entrada franca – conforme ordem de chegada e capacidade do local
INFORMAÇÕES: Departamento de Difusão Cultural da UFRGS – fone (51) 3308.3034
COLETIVA DE IMPRENSA: após o evento, às 11h45, na Sala 2 do Salão de Atos
CREDENCIAMENTO: Assessoria de Imprensa UFRGS – fone 3308.4008 ou email imprensa@ufrgs.br
           
António Emílio Leite Couto. Autor publicado e traduzido em 24 países e único escritor africano membro da Academia Brasileira de Letras...

...Especialista em Ecologia e professor da Universidade Eduardo Mondlane, Mia Couto dirige a empresa Impacto, que presta serviços de avaliação de impacto ambiental, sobretudo na gestão de zonas costeiras e na recolha de mitos, lendas e crenças que intervêm na gestão tradicional dos recursos naturais. Já a carreira como escritor iniciou mais cedo: aos quatorze anos já tinha alguns de seus poemas publicados no jornal Notícias da Beira. É pela poesia que Mia Couto ingressa na literatura, com a publicação de seu primeiro livro Raiz de Orvalho, em 1983. O segundo livro de poesias, Tradutor de Chuvas, só seria editado mais de duas décadas depois, em 2011, após ter se revelado também um romancista e contista premiado – sobretudo por seu estilo que revelou uma nova maneira de falar, ou de “faliventar” o português, já posto em seu primeiro romance Terra Sonâmbula, de 1992, em suas antologias de contos como Estórias abensonhadas, de 1994. Entre seus últimos livros publicados no Brasil pela Companhia das Letras, estão A confissão da Leoa, Cada homem é uma raça, A menina sem palavra, Vozes anoitecidas e Contos do nascer da Terra.

28 de agosto de 2014

Questão de uma adolescente criativa

A Lu (16 anos) chegou ao meu consultório hoje com a seguinte questão: Tá, mas é um pato com crise de personalidade ou um atum poliglota????

Só ouvindo a música você pode entender a questão, mas a letra deu o que falar...

Muito legal! Obrigada querida!



O Único

(Bem, o atum está cantando em uma tarde de atuns)
Você sabe que não é o único

Quando todos eles desabam, em pleno vôo
Você sabe que não é o único
Quando eles estão tão sozinhos, eles acham uma porta dos fundos da vida
Você sabe que não é o único

Estamos todos de luto
Perdidos e sangrando

Todas as nossas vidas temos esperado
Por alguém para chamar de nosso líder
Todas suas mentiras, eu não estou acreditando
Céu, brilhe uma luz sobre mim

Tanto medo de abrir os seus olhos, hipnotizados
Você sabe que não é o único
Nunca entendi essa vida
E você está certo, eu não mereço
Mas você sabe que eu não sou a única

Estamos todos de luto
Perdidos e sangrando

Todas as nossas vidas temos esperado
Por alguém para chamar de nosso líder
Todas suas mentiras, eu não estou acreditando
Céu, brilhe uma luz sobre mim

Não olhe para baixo, não olhe nos olhos do mundo abaixo de você
Não olhe para baixo, você irá cair, você irá em sacrificio
Certa ou errada, não posso me prender ao medo de ficar perdida sem você
Se eu não posso sentir, eu não me pertenço, eu não sou real

Todas as nossas vidas temos esperado
Por alguém para chamar de nosso líder
Todas suas mentiras, eu não estou acreditando
Céu, brilhe uma luz sobre mim

27 de agosto de 2014

Paul Bloom no Fronteiras do Pensamento

Quero compartilhar com vocês, um pouco do que pude presenciar na ultima conferência do Fronteiras do Pensamento. Nesta o Psicólogo pesquisador canadense Paul Bloom abordou temas relacionados a natureza humana dual, suas reflexões e pesquisas a respeito do julgamento moral em bebes, questões a respeito do preconceito no humano e, especialmente, como as nossas conceituações tanto de objetos como de pessoas interferem nas nossas escolhas e nos nossos julgamentos. 

Escolhi para compartilhar esta entrevista realizada pelo jornal Zero Hora, pela sua simplicidade em abordar o tema. 

Somos, por natureza, indiferentes, e até mesmo hostis, a desconhecidos: temos uma propensão ao bairrismo e à intolerância. Antes de andar ou falar, os bebês já são capazes de discernir entre a bondade e a maldade. O preconceito é natural e tem uma dimensão positiva, cabendo à racionalidade superar as injustiças em que pode resultar. 

Zero Hora - O senhor diz que o preconceito é natural, muitas vezes racional e moral, e que ajudou a proteger a espécie. Como o preconceito pode ser algo positivo?
Paul Bloom - Penso no preconceito como o ato de fazer julgamentos sobre as pessoas baseado nos grupos aos quais elas pertencem. Em alguns casos, é uma coisa boa e racional, porque generalizações sobre grupos-estereótipos são com frequência precisas. Se estou caminhando na rua e preciso pedir orientações, não vou perguntar a um bebê, porque meu estereótipo diz que eles não são bons em dar indicações, e se eu preciso de ajuda para mover um sofá, não vou pedir a alguém de 90 anos, porque meu estereótipo é de que pessoas mais velhas têm problemas para levantar peso. Se eu ouvir falar de um assassino ou de um estuprador à solta, minha expectativa é de que seja um homem, porque embora possa eventualmente ser uma mulher, as estatísticas sobre crimes violentos tornam isso pouco provável. Os indivíduos se apoiam em estereótipos, e assim o fazem as sociedades. Estereótipos a respeito de idades, por exemplo, são necessários ao criar leis que determinam quando alguém tem permissão para dirigir um carro, casar ou ir para o serviço militar. Mas questões sérias aparecem quando chegamos aos grupos étnicos e raciais. Nós fazemos generalizações sobre esses grupos também, e muitas delas são precisas. Mas, ainda assim, há uma razão moral para não usarmos essas informações em determinadas circunstâncias. Há uma forte intuição moral (que eu compartilho) que nos diz que, em muitos domínios, as pessoas merecem ser julgadas como indivíduos, não como membros das categorias a que pertencem. Mesmo que meu grupo étnico seja estatisticamente mais propenso a cometer certos crimes, por exemplo, a polícia não deve presumir que sou culpado. Devido a aspectos da história e da sociedade, deveríamos tratar raça e etnia diferente de categorias como idade e sexo, e, nestes casos, temos muitas vezes que optar por permitir que os princípios morais substituam a eficiência.

ZH - O senhor diz que certos fundamentos morais não são adquiridos pela aprendizagem, mas produtos da evolução biológica. Assim, a moralidade não seria uma invenção humana. Quando a moralidade nasce?
Bloom - Há muitas evidências de que grande parte de nossa moralidade é criada pela seleção natural, e assim, em um sentido profundo, nossos instintos morais são tão biológicos quanto a nossa capacidade de ver ou falar. Podemos pensar na moralidade como um instinto evoluído. Agora, isso não significa que os recém-nascidos serão criaturas morais - muito provavelmente, as áreas do cérebro envolvidas na moralidade precisam se desenvolver. Mas isso sugere que ela emerge cedo, e você pode encontrar um senso moral em bebês. Na pesquisa que faço em Yale com minha mulher, Karen Wynn, exploramos essa questão. Em alguns desses estudos, usamos espetáculos de marionetes. Mostramos a bebês personagens que interagem de determinadas maneiras - como um indivíduo ajudando outro ou um indivíduo batendo em outro - e, em seguida, vemos com quais deles os bebês querem interagir, quais querem recompensar ou punir. Usando esses métodos, descobrimos que até bebês muito novos têm a capacidade de julgamento moral. Outros experimentos sugerem que eles nascem com empatia e compaixão, com a capacidade de julgar as ações dos outros, e com uma compreensão rudimentar de justiça e equidade. A moralidade é profundamente enraizada.

ZH - Esse estudo conduzido por sua mulher e colega mostrou que os bebês tendem a preferir fantoches que compartilham o mesmo gosto para comida e punir aqueles com gosto diferente. Qual a principal conclusão a respeito disso?
Bloom - Esse tipo de constatação mostra que também há um lado desagradável em nossa natureza. Há muitas evidências de que até os bebês muito jovens definem o mundo em termos de "nós contra eles", e são fortemente inclinados a favorecer o "nós". Somos seres muito tribais. Nossa natureza não é apenas gentil; também é cruel e egoísta. Nós favorecemos aqueles que se parecem conosco e somos naturalmente indiferentes em relação a estranhos. E essas trágicas limitações são ilustradas pelos estudos de Karen Wynn e seus colegas nos quais bebês não só evitam aqueles que são diferentes deles, querem vê-los punidos.

ZH - Como essa noção de pertencimento a um grupo ("nós contra os outros") é construída?
Bloom - A experiência social realmente importa nesse caso. Podemos começar dividindo o mundo em "nós contra eles" - mas quem somos nós e quem são eles? Parte dessa noções é adquirida pela experiência cotidiana, como os bebês que separam o mundo entre aqueles que são familiares e aqueles que são estranhos, mas outra parte é aprendida por meio da cultura. Notavelmente, só muito tarde no desenvolvimento - por volta de cinco anos na maioria dos estudos nos Estados Unidos - algumas crianças começam a usar a cor da pele para decidir suas amizades e preferências. Antes disso, elas não sabem que raça é uma questão, e assim, se as crianças serão racistas ou não, depende de como elas são criadas, do tipo de ambiente social em que se encontram. Podemos ser naturalmente paroquiais, mas não somos racistas natos.

ZH - A intolerância parece estar se fortalecendo em nosso mundo - racismo nos estádios de futebol, ataques na internet, conflito militar em Gaza, terrorismo. Por que é tão difícil ter compaixão?
Bloom - Uma coisa para se ter em mente é que (como Steven Pinker narra em seu livro recente Os Anjos Bons da Nossa Natureza) o mundo vem experimentando um declínio da violência a longo prazo. De modo geral, somos muito melhores com relação aos outros hoje do que costumávamos ser. Nos Estados Unidos, por exemplo, há muito menos racismo e sexismo do que havia 50 anos atrás, e temos uma aceitação muito maior das minorias sexuais. Acho que parte da solução para um mundo melhor é usar nossa inteligência para lutar contra nossos piores instintos. Somos criaturas inteligentes, o suficiente para suprimir nossos impulsos e preconceitos quando pensamos que eles são inadequados. Depois de aprender sobre os aspectos feios de nossa natureza, podemos passar a combatê-los. Podemos criar tratados e organizações internacionais destinadas a proteger os direitos humanos universais. Podemos utilizar procedimentos como revisão e audiências às cegas, projetadas para impedir julgadores de serem tendenciosos, consciente ou inconscientemente, com relação à raça ou a qualquer outro aspecto da pessoa que não aquele que está sob avaliação. E podemos moldar nossas culturas para que a intolerância seja vista como feia e inaceitável.

ZH - O senhor afirma que gostamos daquilo em que acreditamos, assim, um vinho barato com o rótulo de outro vinho mais caro parecerá mais saboroso para a pessoa que o beber. Como isso funciona no cérebro? O prazer é algo que aprendemos? E como podemos separar os prazeres inatos daqueles que se desenvolvem mais tarde na vida?
Bloom - Parte do prazer é programada em nós, não é adquirida pela imersão social. E alguns prazeres são partilhados por todos os seres humanos; a variedade que vemos pode ser compreendida como variações de um tema universal. A pintura é uma invenção cultural, mas o amor à arte não. Os gostos por comida e sexo diferem, mas não tanto assim. É verdade que podemos imaginar culturas nas quais os prazeres são bem diferentes, nas quais as pessoas esfregam alimentos em fezes para melhorar seu gosto e não têm interesse em pimenta, sal ou açúcar; ou onde se juntam para ouvir estática e se encolhem ao som de uma melodia. Mas isso é ficção científica, não a realidade. Uma forma de resumir isso é que os seres humanos começam com uma lista fixa de prazeres e não podemos acrescentar nada a essa lista. Isto pode soar como uma afirmação insanamente forte, uma vez que, é claro, pode-se introduzir novos prazeres no mundo, como no caso de invenções como televisão, chocolate, jogos de vídeogame, cocaína, vibradores, saunas, palavras cruzadas, reality shows, romances, e assim por diante. Mas o que eu queria sugerir é que tais prazeres são agradáveis porque não são assim tão novos; eles se conectam - de um modo razoavelmente direto - a prazeres que os seres humanos já possuem. Chocolate belga e costeletas assadas são invenções modernas, mas apelam para o nosso amor primordial por açúcar e gordura. Há novas formas de música criadas o tempo todo, mas uma criatura que fosse biologicamente despreparada para o ritmo nunca viria a gostar de qualquer uma delas; seriam sempre barulho. Mas há outro ingrediente aqui, um que torna o prazer consideravelmente mais complicado, e mais influenciado pela cultura. É que o prazer é profundo. O que mais importa não é o mundo como ele se apresenta aos nossos sentidos. Pelo contrário, o prazer que obtemos de algo deriva do que pensamos que aquilo é. Isso é verdade para prazeres intelectuais, como a apreciação de pinturas ou narrativas, e também para prazeres que parecem mais simples, como a satisfação da fome e da luxúria. Para uma pintura, o que interessa é quem foi o artista; para uma história, se ela é verdade ou ficção; para um bife, nos preocupamos em saber de que tipo de animal ele veio; para o sexo, somos fortemente afetados por quem pensamos que nosso parceiro sexual realmente é. E para o vinho, nos importamos com o preço.

ZH - Há mais fontes de prazer hoje em dia, mas há também um surto de depressão. Como o prazer e a felicidade se conectam?
Bloom - Penso no prazer conectado a experiências específicas. Assim, temos prazer ao olhar para um rosto bonito, ou ao ouvir uma música, ou ao comer certos alimentos. O sexo pode nos dar prazer, bem como o cinema, ou a participação em um ritual religioso, ou a criação de uma obra de arte. Agora, todas essas coisas podem nos fazer felizes, também, mas a felicidade é mais um estado duradouro, menos presa a alguma pessoa, coisa ou atividade específicas. Não é de surprender que o prazer e a felicidade tendam a ser relacionados, mas, quando você pensa nisso dessa forma, eles podem se separar. As pessoas podem ser muito felizes, mesmo se não houver muito prazer em suas vidas. Por outro lado, podem ter muitas experiências prazerosas de curto prazo e estar profundamente insatisfeitos com suas vidas
.
ZH - Algumas pessoas, mesmo criadas em um mundo tecnológico e com uma abundância de evidências científicas, resistem a confiar na ciência. Não seria apenas por causa de religião, porque muitas dessas pessoas não são religiosas. Qual é a raiz disso? E, o mais importante, isso pode ser revertido ou ensinado? Se sim, como o senhor acha que isso poderia ser feito?
Bloom - Há muitas razões pelas quais as pessoas se rebelam contra a ciência. Uma delas é a religião; mesmo que as pessoas não sejam elas próprias muito religiosas, podem se sentir desconfortáveis endossando algo que veem como incompatível com sua fé. Outra é a política - alguns veem a ciência como um empreendimento partidário, relacionado com certos movimentos políticos (geralmente liberais) aos quais precisam se opor. Finalmente, a ciência não é algo muito natural. Ela nos diz coisas sobre o mundo que não fazem sentido intuitivo, e por isso são difíceis de absorver e entender. O relato cristão da origem dos seres humanos, por exemplo, é muito mais fácil de entender do que a teoria científica da seleção natural. Eu acho que parte da solução é mais educação científica, mas não do tipo comum. Não é o bastante ensinar os detalhes da biologia, da geologia, da física, e assim por diante - isso é o que temos feito até agora, e não está funcionando. Pelo contrário, acho que pelo menos parte de nossas energias deveria ser dedicada a ensinar mais sobre como os cientistas fazem o seu trabalho; menos sobre as teorias específicas, e mais sobre os métodos, tais como testes de hipóteses, replicação e assim por diante. Esses realmente são excelentes métodos, e podem levar a uma confiança mais racional na ciência e no trabalho que os cientistas fazem.

Entrevista completa em:  http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticias/proa/noticia/2014/08/paul-bloom-ate-os-bebes-definem-o-mundo-em-termos-de-nos-contra-eles-4581440.html

No site do Fronteira do pensamento você encontra outro resumo desta conferencia, mito interessante também. www.fronteirasdopensamento.com.br/canalfronteiras/entrevistas/?16,268