30 de setembro de 2013

Cotidiano Relacional

Alguém especial

Ficar com muita gente é fácil”, diz um amigo meu, com pouco mais de 25 anos. “Difícil é achar alguém especial”.
Faz algum tempo que tivemos essa conversa. Ele tentava me explicar por que, em meio a tantas garotas bonitas, a tantas baladas e viagens, ele não se decidia a namorar.

Ele não disse que estava sobrando mulher. Não disse que seria um desperdício escolher apenas uma. Não falou em aproveitar a juventude ou o momento e nem alegou que teria dificuldade em escolher. Disse apenas que é difícil achar alguém especial.
Na hora, parado com ele na porta do elevador, aquilo me pareceu apenas uma desculpa para quem, afinal, está curtindo a abundância. Foi depois que eu vim a pensar que existe mesmo gente especial, e que é difícil topar com uma delas.

Claro, o mundo está cheio de gente bonita. Também há pessoas disponíveis para quase tudo, de sexo a asa delta. Para encontrar gente animada, basta ir ao bar, descobrir a balada, chegar na festa quando estiver bombando. Se você não for muito feio ou muito chato, vai se dar bem. Se você for jovem e bonita, vai ter possibilidade de escolher. Pode-se viver assim por muito tempo, experimentando, trocando de gente sem muita dor e quase sem culpa, descobrindo prazeres e sensações que, no passado, estariam proibidos, especialmente às mulheres.

Mas talvez isso tudo não seja suficiente.

Talvez seja preciso, para sentir-se realmente vivo, um tipo de sensação que não se obtém apenas trocando de parceiro ou de parceira toda semana. Talvez seja preciso, depois de algum tempo na farra, ficar apaixonado. Na verdade, ficar apaixonado pode ser aquilo que nós procuramos o tempo inteiro – mas isso, diria o meu jovem amigo, exige alguém especial.

Desde que ele usou essa fatídica expressão, eu fiquei pensando, mesmo contra a minha vontade, sobre o que seria alguém especial, e ainda não encontrei uma resposta satisfatória. Provavelmente porque ela não existe.

Você certamente já passou pela sensação engraçada de ouvir um amigo explicando, incansavelmente, por que aquela garota por quem ele está apaixonado é a mulher mais linda e mais encantadora do mundo – sem que você perceba, nela, nada de especial. OK, a garota é bonitinha. OK, o sotaque dela é charmoso. Mas, quem ouvisse ele falando, acharia que está namorando a irmã gêmea da Mila Kunis. Para ele ela é única e quase sobrenatural, e isso basta.

Disso se deduz, eu acho, que a pessoa especial é aquela que nos faz sentir especial.

Tenho uma amiga que anda apaixonada por um sujeito que eu, com a melhor boa vontade, só consigo achar um coxinha. Mas o tal rapaz, que parece que nasceu no cartório, faz com que ela se sinta a mulher mais sensual e mais arrebatada do planeta. É uma química aparentemente inexplicável entre um furacão e um copo de água mineral sem gás, mas que parece funcionar maravilhosamente. Ela, linda e selvagem como um puma da montanha, escolheu o cara que toma banho engravatado, entre tantos outros que se ofereciam, por que ele a faz sentir-se de um modo que ninguém mais faz. E isso basta.

É preciso admitir que há gente que parece especial para todo mundo. Não estou falando de atores e atrizes ou qualquer dessas celebridades que colonizam as nossas fantasias sexuais como cupins. Falo de gente normal extremamente sedutora. Isso existe, entre homens e entre mulheres. São aquelas pessoas com quem todo mundo quer ficar. Aquelas por quem um número desproporcional de seres humanos é apaixonado. Essas pessoas existem, estão em toda parte, circulam entre nós provocando suspiros e viradas de pescoço, mas não acho que sejam a resposta aos desejos de cada um de nós. Claro, todo mundo quer uma chance de ficar com uma pessoa dessas. Mas, quando acontece, não é exatamente aquilo que se imaginava. Você pode descobrir que a pessoa que todo mundo acha especial não é especial para você.

Da minha parte, tendo pensado um pouco, acho que a pessoa especial é aquele que enche a minha vida. Ela é a resposta às minhas ansiedades. Ela me dá aquilo que eu nem sei que eu preciso – às vezes é paz, outras vezes confusão. Eu tenho certeza que ela é linda por que não consigo deixar de olhá-la. Tenho certeza que é a pessoa mais sensual do mundo, uma vez que eu não consigo tirar as mãos dela. Certamente é brilhante, já que ela fala e eu babo. E, claro, a mulher mais engraçada do mundo, pois me faz rir o tempo inteiro. Tem também um senso de humor inteligentíssimo, visto que adora as minhas piadas. Com ela eu viajo, durmo, como, transo e até brigo bem. Ela extrai o melhor e o pior de mim, faz com que eu me sinta inteiro.

Deve ser isso que o meu amigo tinha em mente quando se referia a alguém especial. Se for isso vale a pena. As pessoas que passam na nossa vida são importantes, mas, de vez em quando, alguém tem de cavar um buraco bem fundo e ficar. Essas são especiais e não são fáceis de achar.

(Ivan Martins escreve às quartas-feiras na Revista ÉPOCA)

27 de setembro de 2013

E se o outro fosse eu?

Para reflexão
Confúcio comunicou a seu discípulo Zengzi, cognominado Shen: “Shen, meus ensinamentos podem se abarcar em apenas um”. Zengzi disse: “Sim!” Tendo saído o Mestre, os outros discípulos perguntaram: “O que ele queria dizer?”. Zengzi respondeu: “Os ensinamentos do Mestre reduzem-se a fidelidade, em relação a si mesmo, e compreensão para com os outros”

Esta passagem tão famosa parece expressar a ideia central do ensinamento de Confúcio.

A resposta de Shen aos seus colegas foi a respeito de duas ideias, que parecem ser centrais:

O “Zhon” é a fidelidade a si mesmo, a lealdade consigo mesmo. O ideograma, muito sugestivo, mostra o centro de um coração: indicando a ideia de “estou dentro e no centro do Eu para ser fiel e sincero comigo mesmo”.


Já “Shu” é a compreensão para com os outros, o perdoar o outro. O ideograma sugere que o coração está em comparação com outro coração: é a ideia de “e se o outro fosse eu?”, de compreender o outro, se colocando no lugar do outro, e de "não fazermos aos outros o que não gostaríamos que fizessem conosco".

Para ilustrar melhor esta ideia, encontramos na oração cristã, “Pai-Nosso”, as melhores palavras. Ao rezarmos: “... Perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos aqueles que nos tenham ofendido...”; não é a expressão mais perfeita desta ideia? Pois o que pedimos não é que sejamos perdoados conforme a capacidade que cada um de nós tivermos para perdoar o outro?(1)


Nota (1)  Prof. Sylvio R. G. Horta.
Fonte: http://www.dhnet.org.br/dados/livros/memoria/mundo/confucio.htm

Obrigada a todos que cruzam o meu caminho e me ensinam sobre mim e sobre as pessoas.
  

20 de setembro de 2013

Para quem tem insônia - Dicas para um bom dormir


Segundo a Medicina Tradicional Chinesa (MTC), a  qualidade do sono depende do estado de alguns sistemas, especialmente o Sistema  Coração e o Sistema  Fígado.  Para identificar o tipo de insônia é importante avaliar as deficiências e excessos que afetam o sono, podendo o sintoma ser de excesso, mas a síndrome de deficiência.  

Como sempre, na MTC, há um relacionamento entre o corpo e a mente e o estresse emocional  é o campeão das causas.

“Se o Coração for saudável e o Sangue abundante, a Mente (Shen)  é enraizada e o sono profundo”.  “Quando o Fígado está equilibrado a Alma Etérea (Hun) mantém o sono tranquilo e harmônico”.

Bem, todas estas expressões só fazem sentido a luz  da  MTC e aqui a minha intenção não é lhe explicar estes conceitos, mas lhe oferecer dicas que possam contribuir para um sono melhor.   Porem, como sempre, não esqueça de considerar as suas particularidades.

Para um bom dormir:

Observe o seu ritual de sono.

Atenção ao seu ritual de sono, este pode ser ajustado para facilitar o relaxamento, o equilíbrio da energia e favorecer a tranquilidade da Mente.
Para aqueles que não param nunca de trabalhar, atenção: seu sono depende da Mente tranquila. Tente desligar-se das questões de trabalho e também das técnicas, no mínimo, uma hora antes de deitar-se. Tanto o excesso de preocupação, como de esforço mental contribuem para o desequilíbrio do sono. As vezes uma música para dormir pode dar uma boa ajuda. Também uma leitura leve  pode ajudar a distrair, mas nada de livros técnicos ou informativos.

Outro recurso pode ser as práticas meditativas que são  realizadas antes de dormir e no meio da noite, aquelas que tem objetivo  de relaxar o corpo e trazer a atenção para o presente. Estas funcionam muito bem para os “dorme e acorda” noturnos.  Em casos de Mente muito agitada eu recomendo procurar profissionais da meditação, existem pessoas que se dedicam ao estudo da meditação. Eu conheço alguns.

Se o caso for estresse emocional

Aos que estão vivendo algum desequilíbrio emocional, especialmente aqueles que envolvem  mágoa e ira, saiba que  estes  agem desfocando a atenção e consumindo a energia de tal forma que o desequilíbrio pode afetar todo o organismo.  O melhor sempre é tratar o problema pois, nestes casos, a insônia é só um dos sintomas. Mas existem outros desequilíbrios emocionais que geram insônia por provocarem sintomas de excesso e  consumirem energia demasiada. Estes são diversos e, normalmente, se relacionam a dificuldades de lidar com o que a vida apresenta.
    
Bem,  enquanto as questões ainda não se resolvem,  ao ir dormir, tente achar jeitos de se desligar dos pensamentos que alimentam o processo.  Algumas pessoas, que passam por processos emocionais difíceis se beneficiam  com um bom romance que distrai e até gratifica.  Para aqueles que tendem a remoer  ira, exigência pessoais ou tentam prever o imprevisto, eu gosto de indicar música. Tenho até uma frase: experimente, com música tudo pode ficar melhor. Selecione algumas boas músicas, tente e se esforce. Toda vez que os pensamentos vierem, volte-se a música.
 
Nos casos que se referem ao emocional é bom lembrar que o principal afetado com a manutenção deste tipo de desequilíbrio é você mesmo.   A sua melhora depende de você desejar “dar a volta por cima” e achar jeitos de estar de bem com a vida.

Cuide a alimentação

Não coma em excesso a noite e evite alimentos muito “pesados” , estes normalmente agitam o interno e não contribuem para o relaxamento. Procure comer com um bom intervalo da hora de dormir, mas se não for possível evite as carnes.  Alimentos leves como folhas verdes claras, frutas claras ajudam a tranquilizar, em especial a maçã descascada.

Você se lembra do antigo chá da vovó? Aquela que ela dizia que acalmava? Pois, existem alguns chás que ajudam a tranquilizar mesmo:  erva cidreira, capim cidró, camomila, maçã.  Café e chimarrão a noite, nem pensar.

A alimentação contribui bastante para as insônias e, se seu caso for de muita desorganização alimentar, eu recomento que você procure um profissional da nutrição. Este pode lhe ajudar a organizar a sua rotina e lhe indicar uma boa orientação alimentar. Na MTC o que fazemos é indicar alimentos que restabeleçam o equilíbrio da energia, estimulando ou sedando sistemas.

Faça exercícios físicos

A prática de exercícios pode contribuir bastante para a qualidade do sono.  Estes sempre favorecem o equilíbrio do organismo e alguns tem uma grande ação em acalmar a Mente. Observe quais são os exercícios indicados para você, isto vai depender da sua constituição.  Pessoas muito agitadas costumam se beneficiar de exercícios que acalmam, mas podem precisar gastar um pouco de energia. Apenas preste atenção para não praticar exercícios estimulantes na tardinha e noite. Outras pessoas precisam, mesmo que se sintam sem energia, de exercícios estimulantes. Estes devem ser praticados pela manhã.

Com a MTC o que podemos fazer é observar  se o paciente sofre de uma insônia de excesso ou deficiência e se deveria buscar exercícios estimulantes ou tranquilizadores. Mas a condução do exercício fica a cargo do profissional da área da educação física ou das artes marciais.
  
Observe a sua postura ao dormir

A melhor indicação quanto a posição, segundo a MTC,  é deitar sobre o lado direito, com as pernas levemente curvados e o braço esquerdo repousando sobre a coxa esquerda.

É isso, aproveite as dicas e bons sonhos !

16 de setembro de 2013

Cotidiano relacional


Estou, cada vez mais, me dedicando aos relacionamentos. Amores, paixões, namoros, casamentos, impossibilidades, desejos de,  solidão, separações etc... Aos poucos vou trazendo algumas novidades sobre os meus estudos, traçando paralelos com as formas de ver o mundo da filosofia oriental.

Hoje trouxe uma crônica do jornalista Ivan Martins, da revista Época. Considero muito boas as suas observações do cotidiano  relacional. 

Ele não tem pretensão de analise em seus textos, apenas traduz o que esta se passando ai fora. 

Aqui a proposta é observarmos e criticarmos o que anda acontecendo por ai, ver se nos serve e o que podemos fazer com a informação. 

Esta crônica abaixo me  remeteu a alguns jovens que acompanho.  Sei que cada caso é um caso, mas vale a reflexão.

Aquele Casamento Ruim – Casar cedo pode ser um bom atalho para a decepção

Um dos meus escritores favoritos, o americano Philip Roth, escreveu uma frase que me persegue desde que a li. Nela, o personagem de um de seus romances constata que fez “aquele casamento ruim que muita gente faz aos 20 anos” – com graves consequências para o resto da sua vida. 


Antecipo que esta é uma daquelas ocasiões em que muitas leitoras e leitores irão reclamar das minhas generalizações e alegar, com alguma razão, que seu próprio exemplo sugere o contrário. Ainda assim, tenho de dizer que concordo inteiramente com o teor pessimista do comentário de Roth e, mais do que isso, tendo a me identificar com ele. Casamentos precoces são a última e devastadora doença da infância. 

O sujeito passou incólume pela catapora e pela caxumba, está deixando para trás as dores de adolescência, mas então resolve, sem qualquer fundamento, que já é homem – ou mulher o bastante – para começar uma nova família, e mergulha de cabeça no desconhecido, acompanhado de um estranho ou de uma estranha. 

O que uma pessoa sabe sobre si mesmo antes dos 24 ou 25 anos? Pouco. Ao redor dos 20, cada um de nós ainda caminha no vale das sombras da infância, assustado e esperançoso com o que vem pela frente. É um momento difícil para escolher parceiros de longo prazo porque nós mesmos estamos em mudança e ebulição. Corpo e mente pedem experimentação, não repouso. O casamento nessa idade pode ser uma fuga de algo que nem sabemos o que é. 

Por razões que não vem ao caso discutir, eu periodicamente sou forçado a pensar na qualidade das escolhas que alguém pode fazer aos 20, 21, 22 anos de idade. Nesse momento sabemos quase nada sobre a pessoa com quem decidimos viver “o resto da vida”. Elegemos parceiros ou parceiras como base em vivências pífias. Essa inexperiência, somada às inseguranças juvenis, faz com que nos liguemos a qualquer tipo de pessoa. Pode ser alguém bom ou especial. Mas pode, do mesmo jeito, ser gente de má índole, ruim. Ou simplesmente oca e egoísta. 

Quem viveu tão pouco ainda não consegue distinguir comportamentos que, mais tarde, irão saltar aos olhos como fúteis, abjetos ou patológicos. É por isso que as relações nesse período deveriam ser transitórias. A gente vive, erra, aprende e avança. Mas o casamento precoce interrompe esse processo - e pode nos deixar estacionado por vários anos, em péssima companhia.  A  única certeza sobre a aparência e o caráter das pessoas é que nenhum deles melhora com o tempo.


Estou soando lúgubre? Desculpem. Também eu conheço dezenas de casamentos bonitos que começaram aos 20. Alguns deles, na verdade, iniciaram no colégio e continuam até hoje. Produziram filhos, patrimônio e lealdades profundas. São relações bem-sucedidas, ainda que tenham deixado de ser intensas na acepção romântica e erótica da palavra. 


Quando você casa aos 20 pode ter uma relação como essa aí de cima. Ou pode ter a da vizinha com cara de adolescente que insulta o marido aos berros e é tratada por ele com a mesma candura. Ao som dos gritos do bebê. Vocês já notaram que não há casamento desfuncional sem uma criança? Às vezes eu tenho a impressão que a pressa em fazer filhos é diretamente proporcional ao fracasso que vem pela frente. 

Claro, não há garantia de que ao adiar o casamento você vá evitar desastres, mas as chances de que eles ocorram são menores. Os casamentos depois dos 30 às vezes são efêmeros, mas raramente são trágicos. As pessoas se conhecem melhor e conhecem melhor os outros. Isso ajuda a selecionar com mais acerto. 

Naturalmente, eu falo de uma perspectiva masculina. Embaixo do meu umbigo não há um relógio biológico fazendo tic-tac. O urologista nunca me disse que a melhor idade para ser pai é entre os 16 e os 21 anos, como os ginecologistas dizem para as mulheres. Sei que há na vida feminina uma urgência que a masculina não tem, mas isso tem de ser relativizado pelo bem das próprias mulheres. Gente louca para casar e ter filhos se junta a qualquer babaca. Com péssimas consequências. 

Se ainda não ficou claro a importância de escolher sem pressa, vai um último argumento: você não quer chegar aos 30, aos 40 ou aos 50 ligado pela existência dos filhos a uma pessoa a quem despreza. Esse é o tipo de sentimento que suja e entristece a existência. Pelo menos é o que dizem os romancistas.



Ivan Martins em Alguém Especial 

8 de setembro de 2013

Poema









Na paisagem primaveril
não existe nada superior,
nada inferior;
os galhos em flor crescem por si mesmos,
alguns breves, alguns duradouros;
a ipoméia floresce por uma hora
e no entanto não é diferente de um pinheiro gigante
que vive por mil anos.


Autor desconhecido

4 de setembro de 2013

Meditando com o I Ching

Estou retomando as postagens dos meus jogos do I Ching.  Estas são um estímulo para que o leitor possa encontrar, dentro de si mesmo, as respostas para as suas dúvidas, receios, comportamentos e para as práticas do seu dia a dia.

Este foi o jogo de hoje.
Boas reflexões!  

DIFICULDADE / OBSTRUÇÃO
Hexagrama 39 (Chien)

Acima: Kan, a água, as complicações
Abaixo: Ken, a montanha,as dúvidas, o parar, a calma

Apesar de existirem diferenças entre as pessoas, existem muitas oportunidades de solucioná-las, mas se estas diferenças não podem ser harmonizadas no seu devido tempo, os obstáculos serão cada vez maiores.
Desde o momento que os problemas existem também existem maneiras de sobrepassá-los: por conseqüência encontramos no julgamento estas observações:

“O sudeste é favorável”. O sudeste é a região da alegria, da harmonia, da clareza de pensamento, e isto nos mostra que qualquer problema não é tão sério como parece. Na verdade nossos apegos aos estados aflitivos é que nos tornam tristes e melancólicos. No sudeste deve o homem superior resolver os problemas de forma calma, tranqüila e realista, usando sua consciência.

“O Nordeste não é favorável”. O nordeste sempre foi considerado o lugar do ruim, é, em termos psicológicos, a vacilação, a dúvida. O nordeste são os hábitos que não são mais necessários e que nos impedem de ir adiante e sobrepor os obstáculos.


Neste sentido é favorável ver o grande homem – ver o grande homem significa usar da sabedoria interior, da mente iluminada.Use da oportunidade, revise hábitos antigos que hoje são desnecessários, não dê demasiado valor! 


No texto elaborado por Wu Fang encontramos que quando percebemos os acontecimentos de forma equivocada, surge uma obstrução no nosso caminho. Várias atitudes podem ser causadoras de obstruções. Uma delas é a tendência a considerar as outras pessoas incorrigíveis e querer interferir no caminho delas, como se isso fosse fazer diferença, como se fosse fazer as coisas fluírem corretamente. Esquecemos, porém, que o grande homem também está presente naqueles que erram. Um erro não significa que todas as coisas boas tenham sido eliminadas.

O recebimento deste hexagrama indica que uma nuvem formada por emoções ocultas está obstruindo a visão e o resultado é que tudo deixa de funcionar como gostaríamos. Nessa situação, o principal é ter humildade e reconhecer que precisamos da ajuda do Sábio ( do grande homem citado acima)  a fim de encontrar e corrigir o elemento de obstrução. Com humildade, atrairemos a ajuda necessária.

Eu devo dizer: A obstrução deve ser corrigida, mas é preciso ser paciente. A paciência e a humildade são grandes virtudes do homem perseverante e sábio. Também não é aconselhável se culpar pelo que está obstruindo o caminho. Situações deste tipo fazem parte da ordem das coisas, do processo da vida. 
Precisamos das adversidades para ampliar e desenvolver nossas atitudes, corrigindo-as quando necessário. Sem elas, não perceberíamos nossos erros nem alcançaríamos a evolução. 

2 de setembro de 2013

Escolhas


Diálogo
No meio do rio, eu via a pedra. A única naquela extensão azul de água, o pico negro erguido em inesperada fragilidade na solidão. Eu não tinha instrumentos para caminhar até ela, a pedra, tomá-la nos braços, por um instante debruçar minha ternura sobre seu isolamento num absurdo desejo que em sua insensibilidade de coisa ela se fizesse sensível e, assim suavizada, contivesse o desespero amparando-se em mim. Por que ela se perdia assim e assim se assumia e se cumpria em pedra, dona de si mesma, dispensando qualquer afeto, qualquer comunicação? Ela se bastava. Parecia já ter ido além da própria estrutura num lento inventariar do mundo ao redor, como se seu pico tivesse olhos e esses olhos projetassem indagações em torno, avançando nas descobertas, constatações se fazendo certezas. E como se seu isolamento fosse deliberado, como se já não acreditasse em mais nada e tivesse escolhido o amparo apenas das águas, a precária proteção do azul _ como se tivesse escolhido o vento, a erosão, os vermes, os musgos que a roíam devagar. Assim, da mesma forma como outros escolhem o apoio das pessoas ou a nudez do campo, ela escolhera o desafio da entrega. O despojamento de ser, insolucionada e completa em suas fronteiras: pedra porque pedra fora, era e seria num sempre que a sustentava, frágil e absoluta.

ABREU, Caio Fernando. Diálogo. In: Caio 3D - o essencial da década de 1970. Rio de Janeiro: AGIR, 2005. p.77.