9 de janeiro de 2013

Uma pitada de brincadeira

Outro dia, a caminho do consultório com muito tempo para divagar pois o percurso é longo, eu me lembrava de alguns eventos e me perguntei: quando é mesmo que nós adultos paramos de brincar? Por que isto de repente deixa de ser bem visto? É tão bom! Que diacho é esse tanto de realidade no nosso dia a dia? 

Em meio a estas ideias olhei para fora do carro e a cena que se fazia a minha frente era uma destas impaciências que vemos no transito todos os dias. Neste momento botei uma música e voltei ao meu refugio favorito. Depois com um pouco de pesquisa me propus a compartilhar estas ideias, aí vai.
  
Acho pertinente, quando falo em adultos brincando, pensar em ousadia, já que brincar é algo tido como feio na adolescência e levado muito a sério pelos grandões. Para um adulto brincar é preciso se permitir, se experimentar em algo nem tanto lógico e “adequado” e deixar-se levar. Difícil para alguns durões, mas não impossível. Se você tentar pode acabar percebendo que é mais fácil do que parece, pois brincar nada mais é do que aceitar os próprios desejos lúdicos e se deixar levar sem medo do “olhar critico”, eleito por nós mesmos.

Para mim o fato das pessoas se permitirem brincar significa dar pitadas de saúde ao cotidiano, nutrir as suas vidas de um alimento muito escasso, um tipo de ilógico fantasioso do qual nenhum adulto deveria precisar de álcool ou outros tipos de substancias para poder deixar vir a tona e assim justificar o seu ilógico.

Quando o lúdico e a criatividade de cada um pode se expressar de boa forma nós estamos dando espaços para experimentar o não ao “ Todo dia ela faz tudo sempre igual...” de Chico Buarque e isso pode ser um toque de cor ao dia a dia e, talvez, um diferencial nas muitas rotinas estressantes.
    
Eu gosto de pensar que associada a toda a novidade temos uma ampliação de fronteiras e uma re-significação de conceitos e visões. Trata-se de um conceito da Gestalt, que estimula o experimento, a vivencia do criativo, do brincar e um certo olhar curioso na vida. Neste sentido, aceitar o que se oferece evitando a rigidez do estabelecido pode ser uma escolha saudável.

Isto é explicado por alguns pensadores da psique humana como processo de auto-regulação.  No trabalho Criatividade em Gestalt-terapia de Patrícia Albuquerque Lima, encontrei referencias a teoria de Kurt Goldstein sobre a auto-regulação organísmica. Nestas ele explicava que todos nós temos um forte potencial para a auto–regulação e que esta é uma forma do organismo interagir com o mundo, segundo a qual o organismo pode se atualizar, respeitando a sua natureza do melhor modo possível.

Porem ele destacava que quando uma pessoa é confrontada a realizar algo que se considera sem condições de fazer, isto gera uma experiência de grande ansiedade. Os comportamentos desordenados resultantes são comportamentos desarmônicos, tanto do ponto de vista do organismo, quanto do meio ambiente. Isto faz com que a pessoa evite, de todos os modos possíveis, se expor às situações que lhe gerem ansiedade. Na observação de seus pacientes notou, que nestas situações, vinha a tona uma tendência em buscar comportamentos padronizados de ordem e uma evitação a experiências que pudessem gerar qualquer sensação de vazio, de desordem.

Penso que esta pode ser uma das fontes da resistência dos adultos para brincar ou exercer o seu potencial criativo, pois se uma nova ação na vida já é algo que pode representar ameaça, brincar pode ser um grande desafio.

Porem no livro O Processo Criativo em Gestalt–terapia Zinker diz que: “O ato criativo é uma necessidade tão básica quanto respirar e fazer amor. Somos impelidos a criar”. Deste modo, o que impedirá então que uma pessoa usufrua da possibilidade de ser criativa e se veja embotada neste recurso, que lhe é tão fundamental no seu processo de auto–regulação?

O que poderia justificar o surgimento de um “impedimento” na auto–regulação de uma pessoa? Se um indivíduo é forçado a conviver com uma situação de restrição por muito tempo, o seu modo de funcionamento é afetado, e este passa a se comportar de um outro modo não harmônico. Isto poderia ser explicado simplesmente por um pai ou mãe mais autoritários, um colégio muito rígido, uma experiência de trabalho em uma instituição muito restritiva. Fica a pergunta para que cada um responda a sua.

E depois de escrever demais, fecho a telinha para voltar para casa, entro no carro, ligo o som porque com música tudo fica mais colorido e deixo a mais uma pergunta: Porque não experimentar? A  proposta aqui não é fechar e sim abrir espaço, para, instigar.

Brincar, ouvir música, fantasiar, falar besteira, dar risada... pode ser tão bom!

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