18 de novembro de 2012

Identidade sem fronteiras: a travessia da alteridade


“O palco não é lugar do escritor, mas aqui me sinto em casa”. Estas foram as palavras iniciais da conferência de Mia Couto na ultima edição do Fronteiras do Pensamento.
Abaixo parte do resumo, enviado pela UNIMED, da uma boa visão da sua fala.
  
Identidade sem fronteiras: a travessia da alteridade
Por Sonia Montaño
Mia Couto começou refletindo sobre as relações entre pensamento e fronteiras. “O pensamento é uma forma, uma fronteira, mas ao mesmo tempo foi feito para superar as fronteiras, é uma visita ao impossível. Toda criatura pede uma capa, uma proteção, a vida tem fome de fronteiras. Essas fronteiras naturais não fecham, foram feitas como entidades vivas, permeáveis, delimitam e negociam.” Para ele, o pensamento tem, ao mesmo tempo, o movimento contrário: facilmente se encerra em si próprio. “Temos medo da mudança, do imprevisível. Temos medo dos que pensam diferente e também dos que pensam como nós, vivemos em estado de guerra com essa alteridade”, salientou, lembrando que termos como o de universo estão sendo repensados, já que há um pluriverso que habita o mundo e que nos habita. Aprender a recriar fronteiras flexíveis foi uma das necessidades apontadas pelo escritor.
Ele convidou a plateia a fazer um exercício de viagem, uma espécie de travessia de fronteiras. “Se perder de si mesmo e encontrar o outro; o Brasil é o melhor destino que eu conheço para viver essa experiência”, referindo‐se à experiência de deixar que os outros habitem em nós. Ao definir o País como nação que teve de costurar etnias, culturas e raças diversas, diz que o mesmo apresenta afinidades e diferenças com Moçambique, apesar da língua em comum.
Divertindo a plateia, Mia listou termos que designam significados diversos num país e em outro. Ele descreveu seus diversos encontros com o Brasil, um lugar de poesia, uma fronteira entre a realidade da poesia e a poesia da realidade. Vidas, sonhos, ambivalências próprias das sociedades colonizadas, como a publicidade que apresenta uma modelo feminina com características bem diferentes das mulheres daquela região: fronteiras entre o corpo sonhado e a realidade vivida. “Sei que é uma nação feita de contrastes. Moçambique e Brasil sofrem das mesmas doenças em diversos graus e temos as mesmas virtudes. Não temos medo de nos tocar, não temos medo do corpo. Nós não cabemos em receitas puritanas, o discurso do politicamente correto é uma hipocrisia, um crime contra a nossa originalidade”, insistiu. Defende que os brasileiros não pertencem a uma identidade só, cada brasileiro é mais que sua raça, mais que sua etnia; é muito difícil achar um brasileiro típico, porque em cada um estariam todos.
Exemplos não faltaram para compreender a ideia que o escritor tem sobre o Brasil, a terra que não lhe permite ficar “sangado”, na qual pensou que terminaria seus dias quando seu anfitrião lhe ofereceu uma “bala” ou quando pediu a um brasileiro que traduzisse sua fala ao francês. Com esses, o conferencista insiste na ideia de que a identidade – neste caso, a brasileira – é múltipla e não tem fronteiras fixas. “As fronteiras não são imutáveis. Os animais ocuparam os vídeos, as canções, os cinemas para nos trazer lições de humanidade. O homem decretou que
a natureza existe apenas fora dele, que aí ela começa e que ele é o topo da criação. Para nós moçambicanos a fronteira entre humanidade e animalidade é outra.”
Quando trabalhava como biólogo em Moçambique e soube de uma pessoa que foi morta e devorada por um leão, percebeu seu medo. Lembra de quando o leão já não mais rugia, mas sua respiração dominava a aldeia, a governava. “Foi uma lição de minha própria fragilidade. Para aqueles camponeses a linha entre leões e homens era muito tênue”, constatou.
Para ele, há um grande desconhecimento por parte da ciência ainda. “Somos feitos sobretudo de células não humanas, de cada dez células, nove são micro‐organismos, bactérias. Se tivéssemos uma eleição em nós mesmos, o humano seria minoritário. A fronteira entre o animal e o humano deve ser redesenhada e não estamos tão longe dessa aldeia”, explicou o biólogo, defendendo que a fronteira entre o sagrado e o profano, o humano e o animal, não é precisa.
Segundo Mia, o pensamento não nasceu como uma prisão, mas sim para voarmos além de nossos limites. “Falo desta ansiedade que temos de nos cercar de uma fortaleza definitiva. A tecnologia nos permite usufruir de um tempo fantástico, mas temos a tendência de confundir ideias novas com informações recentes. As ideias funcionam como esposas ciumentas que encerram o marido e fecham as cortinas. Cada vez mais somos quem já fomos”, enfatiza. Precisamos vencer essa prisão, questionar criticamente o mundo que dizem que é nosso mas não nos pertence e reinventar a nossa aldeia. A aldeia é o pequeno lugar onde nos inventamos.
Para encerrar, relatou seu encontro com um jovem analfabeto que o esperava na porta de sua casa. “Eu regressava para casa de noite e encontrei um jovem sentado em um muro. Como estava escuro, fiquei com receio. Ele tirou de trás das costas um livro e me disse: ‘Venho devolver esse livro. Numa escola, uma moça tinha esse livro e eu reconheci o senhor na foto. Perguntei a ela se o livro era de Mia Couto, e ela disse que sim. Arranquei‐lhe o livro e vim devolver’, disse.” Destacou como o incidente o levou a pensar sobre o papel do escritor, deu aquele livro de presente ao jovem, apesar de não saber ler. Tempo depois, o jovem o procurou no trabalho, e dessa vez lhe devolveu o livro com versos escritos por ele próprio, pois tinha aprendido a ler e escrever. “‘É o livro que tenho a lhe oferecer’, me disse o jovem. Ele escreveu na fronteira da esperança”, concluiu.
Aplaudido de pé, Mia Couto permaneceu no palco para responder às dezenas de perguntas enviadas pelo público. Foi questionado sobre as relações entre a busca pela identidade e a memória; sobre a ausência de riso em seus livros; o clima que o leva a escrever; sobre a linguagem e a língua; o português e a lusofonia, assim como sua opinião sobre a eleição de Barack Obama nos Estados Unidos e, também, sobre a forma como o Brasil olha para Moçambique e vice‐versa.
Para o escritor, a memória é feita do que lembramos e do que esquecemos, sendo essa uma decisão voluntária, como se alguém dentro de nós escolhesse. Várias identidades disputariam nosso próprio ser, por isso seria necessária uma assembleia dos vários “eus”.
Mia disse que é necessário um estado de tristeza para que escreva; “uma tristeza boa, não derrotada”, explicou, já que se estivesse muito feliz não estaria escrevendo naquele momento. Sobre a língua, disse ser algo criado na história, e a lusofonia, uma invenção nascida em um
certo Portugal na busca de reviver o império perdido. “A língua portuguesa tem uma vitalidade no Brasil, que teve que produzir diferenças e fez com que a língua se tornasse plástica, todos ganhamos com isso e acrescentamos vivacidade e plasticidade”, defendeu. Sobre poesia, lembrou que em casa tinha livros que seu pai trazia escondidos de contrabando. “Ser poeta é ter um olhar sobre o mundo”, definiu o autor, que está trabalhando em mais um livro de poesias. Perguntado sobre os elos entre o escritor e as personagens e destas entre um livro e outro, disse que deve matar as personagens de um livro para criar de outros, senão estas não saem mais de sua cabeça, dada a intensa experiência de convivência.
Mia vê a necessidade de que o Brasil supere as ideias feitas, os clichês no modo de olhar para a África. “Eu devo explicar o Moçambique para o brasileiro, já que encontro ideias muito erradas. É natural que o Brasil olhe muito para si. Agora esse olhar passa mais pela África por razões de economia e outras. Nós, moçambicanos, com nossa ignorância, sabemos o que é o Brasil. Reconhecemos música, novela. O Brasil se exportou, a África tem que se entregar ao mundo e não esperar que olhem para ela.” Há um projeto de moçambicanidade, para a recuperação dos vários países dentro de seu próprio país, embora este não tenha mais de trinta anos.
Para concluir, explicou sua dificuldade para escrever Terra sonâmbula. “Eu não sofro para escrever, é o prazer maior que tenho. Mas durante a guerra não podia escrever sobre a guerra, não acreditava que iríamos sair daquele ciclo de violência, e de repente era como se me visitassem durante a noite. Foi muito sofrido, amigos meus foram mortos, precisava construir uma espécie de paz comigo próprio. Foi um livro que despertou muitos fantasmas dentro de mim.”

Nenhum comentário:

Postar um comentário