30 de março de 2012

Mestre Millôr















Em homenagem ao grande Millôr Fernandes que nos deixa a sua obra, tão rica quanto o seu jeito de ser!

por  Salomão Schvartzman

Atenção, você que me ouve neste instante através do Diário da Manhã. Pare o carro, desligue a esteira. Aproveite os próximos dez minutos ou doze ou quinze, se possível grave, porque vou conversar com um brasileiro genial: Millôr Fernandes, o maior dos filósofos vivos. E quem leu Millôr Definitivo, a Bíblia do Caos, quem leu os 5.142 pensamentos, máximas e "desaforismos", sabe que alguma coisa lá em cima inspirou esse homem. Eu, que faço parte da geração Hidrolitol, da velha Lapa do Rio de Janeiro, para mim, Millôr é a própria humanidade. O genial Millôr está agora em Ipanema, oito horas e trinta e três minutos, tentando entender o Oceano Atlântico à sua frente e, de telefone na mão, aguardando a minha saudação e a minha reverência. 

SALOMÃO - Bom dia, mestre Millôr.

MILLÔR -
Bom dia Salomão. (risos)

SALOMÃO - Agora Millôr, como eu não consegui me formar pela sua Universidade do Méier, onde você, aliás, fez o PHD, só me restou socorrer na sua Bíblia, e transformar suas máximas em perguntas. Não sei se você vai se divertir, mas eu e os ouvintes do Diário da Manhã vamos. Acho até que você, provavelmente, não vai nem se lembrar de algumas frases que você mesmo escreveu. Por exemplo: "De Gaulle disse na França: é absolutamente impossível governar um país com 452 espécies de queijo." E se eu replicasse dizendo, Millôr, que impossível mesmo é governar um país que só tem queijo de Minas e Catupiry?

MILLÔR -
Olha Salomão, esta por acaso eu me lembro, entendeu, porque como eu tenho muitos amigos mineiros, eu uso essa frase até para gozá-los. Agora, com referência a Minas, eu vou te dizer uma outra. Eu estava em Portugal, com o meu amigo José Aparecido, Chico Caruso, Paulo Casé, numa sala, numa reunião com o Mario Soares, então, de repente eu falei: olha aqui, presidente, o senhor não sabe de uma coisa - apontando para o José Aparecido, mineiro - os mineiros são muito malandros, porque o senhor vê, o senhor conhece uma expressão que é brasileira e portuguesa ao mesmo tempo, que se chama assim: "pão pão, queijo queijo". É uma frase afirmativa, de uma pessoa que não hesita: eu sou isso. É uma pessoa direta: pão pão, queijo queijo". Agora, você veja, os mineiros misturaram as coisas e fizeram o pão de queijo, né? (risos)

SALOMÃO - Millôr, lendo as suas "Notas com h", no Jornal do Brasil, eu chego à conclusão que o seu humor é muito facilitado pela atuação dos nossos políticos, não é assim, não, Millôr?

MILLÔR -
É..., a gente, se quiser fazer realmente, faz um retrato realista. Você faz um retrato realista e aí é realmente muito engraçado. Porque é tão fora de qualquer realidade, de qualquer, vamos dizer pomposamente, pacto social ou de uma coisa que você espere de um político em relação ao povo, e aí fica engraçado. Tanto que, já no outro dia, eu encontrei dois colegas meus me imitando. Me imitando e me excitando, porque quando eu faço uma coisa elogiando um político, eu tenho que botar entre parênteses: (ironia).

SALOMÃO - Ironia é.

MILLÔR -
Ironia. A gente põe (ironia) porque senão a pessoa pensa que é um elogio, né?.

SALOMÃO - E que você elogiou o Paulo Maluf...

MILLÔR -
É! Exatamente isso, o Paulo Maluf.

SALOMÃO - E você disse do Sarney, que quando você largou de ler o Marimbondos de Fogo, você não conseguiu mais pegar.

MILLÔR -
É... não, eu generalizei. É um livro que, quando se larga, não se consegue mais pegar, né? (risos). É um livro que tem cinqüenta páginas. Mas, eu estava escrevendo um livro e me indaguei: isto é realmente um livro ou não é um livro? Pela Unesco, livro é uma publicação não periódica, de cinqüenta páginas ou mais. E é verdade, porque o Sarney fez um esforço tremendo para escrever o livro e quando chegou à qüinquagésima página, ele pôs o ponto final e gritou para dona Quiola. - Mãe, acabei! (risos)

SALOMÃO - Millôr, você sabe que esse papo nasceu quando eu soube da premiação do seu site www.millor.com.br, como o mais elogiado da internet. Sei que são cinqüenta e cinco mil visitantes/mês, e que acaba de ganhar dois importantes prêmios por parte do Ibest. Um, como melhor Site de Personalidade e um segundo, Prêmio Especial Imprensa, como o melhor site entre todos os escolhidos. Você também acessa www.millor.com.br?

MILLÔR -
Olha, Salomão, (risos) a minha megalomania não chegou a esse ponto, você entende? (risos). Eu sou uma pessoa que não vejo entrevista a meu respeito. Quando me dão os vídeos, eu não vejo. Sabe por quê? Porque a verdade é que nós todos vivemos em torno do próprio umbigo. Então, a gente tem que ter consciência disso e não alimentar essa coisa fundamental em torno de nós mesmos. Senão, você vê, você vira o Fernando Henrique Cardoso. É espantoso o umbigo do Fernando Henrique, né? (risos). Ele gira em torno daquilo o tempo todo, né? E fala besteira, uma atrás da outra, e todo mundo cita as besteiras e isso não se integra à personalidade do Fernando Henrique, porque ninguém acha que aquilo é besteira, porque é o Fernando Henrique, é o grande "osciólogo" como eu chamo, né? Agora, se o pobre do Lula disser duas besteiras, ou duas frases assim... sem concordância, todo mundo cai em cima dele.

SALOMÃO - Millôr, as eleições estão chegando e eu lhe passo o boato, ouvido ontem, num domingo frio aqui de São Paulo, que o Serra será acusado de pedofilia porque esta se encostando no Garotinho. Sabia disso?

MILLÔR -
É, sabia que estava assim o tempo. Mas, o Garotinho, na verdade, nunca me enganou, sabe? Nem ele nem o Moreira Franco. (risos)

SALOMÃO - Votar é preciso?

MILLÔR -
Olha, é fundamental. Você sabe que eu sou uma pessoa que não acredita nessas coisas, mas eu acho que a pessoa não pode abdicar de votar de maneira nenhuma. Eu digo, de brincadeira, que eu vou votar... ironia, hein? Avisando! Que eu vou votar no Enéas, porque é o único coerente que eu conheço. Ele quer fazer a bomba atômica, quer jogar bomba atômica no Paraguai, não é? Nunca abriu mão disso.

SALOMÃO - Pau neles, né?

MILLÔR -
É pau neles, exatamente isso.

SALOMÃO - Claro! Millôr, o Brasil é o país do futuro ou o país do faturo?

MILLÔR -
Olha, é uma coisa e outra. Você vê, é o país do faturo, evidentemente. Mas, olha aqui, a gente não precisa, também, ficar muito desolado com a corrupção no Brasil, porque a corrupção é eterna e universal. Dizem, por exemplo, que na Nigéria a corrupção chega a 80% do PIB. Do que entra, né? Para o governo. Então eles chegam, pegam 80%, distribuem entre eles e com 20% eles fazem uma pontezinha aqui, calçam uma rua ali e a vida continua, né? Hoje, já são bons jogadores de futebol. Ou seja, o mundo vai acabar disputando quem joga melhor futebol.

SALOMÃO - Sabe, Millôr, qual é o meu medo? Meu medo é saber que a corrupção anda tão generalizada que já tem político ofendido ao ser chamado de incorruptível. O que você acha?

MILLÔR -
Isso é verdade, porque incorruptível, hoje, passou a ser uma coisa que é sinônimo de inépcia, de incompetência, né? Não conseguiu receber o seu? O que você está pensando? Mas agora, quando eu fiz a crítica ao livro do Sarney, eu estive até pesquisando com alguns antropólogos - aí tem gente séria no meio também - e sabe qual a diferença entre os índios Guajas e os índios Guajaras, aquela coisa? E um deles me alertou para um negócio que ainda é absolutamente verdadeiro, sabe? Pode ser que comece a acabar, que é o seguinte: o povo está de acordo - no Maranhão, por exemplo - que a pessoa roube. O nepotismo, nem falar! Porque como é que você foi eleito presidente da República e não deu nenhum cargo a seu primo, que sempre esteve a seu lado? Como é que você não pegou seu sobrinho e não botou ele num ministério, ou pelo menos numa embaixada? Isso é uma concepção popular.

SALOMÃO - Eu sei que você está ai no Rio de Janeiro, você está aí em Ipanema. Agora, no Rio de Janeiro o medo de assaltos, seqüestros e tiroteios me parece estar mudando os hábitos noturnos do Rio, né? A violência impôs à cidade um toque de recolher informal. Os cariocas estão indo mais cedo para casa, trocando o carro pelo táxi e até mesmo deixando de sair à noite. O que está acontecendo com seu Rio de Janeiro, Millôr?

MILLÔR -
É o que está acontecendo em todos os lugares por inépcia. Inépcia dos governos dos estados e pela interferência na vida comum, desastrosa, do judiciário. Porque acontece o seguinte, eu vou lhe dizer uma coisa, e não é de hoje não, tem vinte anos eu já dizia isso, consegui aprovar lá com Dom Eugênio, num simpósio que houve lá, eu e alguns amigos, nós conseguimos aprovar a legislação liberando toda a droga. É a única maneira que se tem de acabar com o tráfico, e desviar todo o esforço do estado para tratar das pessoas que são drogadas. E não isso que esta aí, porque se alimenta. Agora, hoje é praticamente impossível você suspender isso, porque a droga domina o mundo. A droga domina o judiciário, domina o executivo, domina o legislativo e domina a polícia, conforme nós sabemos. Como é que você vai fazer isso, com esse tipo de ação que o estado está tomando agora? Em toda a parte do mundo, não só aqui? Não vai conseguir, não. Você tem é que liberar e tratar das pessoas. Vai ficar muito mais barato, inclusive.

SALOMÃO - Você registra que a violência, tanto no Rio quanto em São Paulo, já é tratada com banalidade. Isso é dramático. Agora você ensina que jamais se deve conversar com policial, a não ser em legítima defesa.

MILLÔR -
Isso é verdade.

SALOMÃO - A coisa está brava, hein, Millôr?

MILLÔR -
É, isso é verdade. (risos)

SALOMÃO - A verdade, Millôr, é que você me disse, eu vejo aqui, que em política nada se perde e nada se transforma. Tudo se corrompe. É isso mesmo?

MILLÔR -
É isso mesmo, exatamente.

SALOMÃO - Millôr Fernandes, você sente saudades do Hidrolitol da Lapa?

MILLÔR -
Tenho, tenho muita. Foi uma das bebidas mais idiotas do mundo. (risos). Chegava lá, botava aquele negócio e tomava, eu não sei para que. Eu acho, eu não me recordo de tomar, não. E outra coisa - para não tomar mais o seu tempo - outra coisa é o seguinte: na Rua da Lapa é que se criou esse mito, né? Eu, de repente, voltei para trás e me lembrei que eu morei na Rua das Marrecas, realmente, junto da Lapa. Então, de noite, eu ia para a Cinelândia, a gloriosa Cinelândia - era a Via Veneto da época porque só tinha confeitarias, mulheres passeando de chapéu. Ou eu estava ali, ou estava na Lapa, quatro anos isso. Nunca vi uma bofetada, nunca vi um tiro. Depois se inventou uma literatura toda em torno da Lapa que não era a minha experiência.

SALOMÃO - Millôr Fernandes, o meu abraço agradecido por esse privilégio de conversar com o maior filósofo vivo desse país. (risos). Indo ao Rio, quem sabe possamos, juntos, procurar na Lapa o saudoso Hidrolitol que eu tomava depois da aula da Escola Nacional de Música, da Rua do Passeio. Marcado isso, Millôr?

MILLÔR -
Muito bom! Muito bom dia para você e te agradeço muito o fato dessa conversa. Só que eu acho que nós temos conversas muito constantes demais. Acho que já conversamos há quanto tempo, um ano?

SALOMÃO - Um ano, é.

MILLÔR -
É, pois é, um grande abraço para você.

SALOMÃO - Obrigado, um obrigado do tamanho da torcida do Flamengo ou do Corinthians, você escolhe. Um abraço Millôr.
MILLÔR - Um abraço

22 de março de 2012

Em Palavras da Galera...

Conheça o Goldryn, ele está chegando para dar uma sacudida na galera...Olha só isso!

Dicas da Maria Eduarda

Meus queridos, olhem aí a minha convidada especial. Uma menina promissora como ela tinha que vir pra frente comigo! Ela vem para mostrar as coisas legais que passam nas cabecinhas das meninas que acompanhamos.

"Oi, eu sou Maria Eduarda, tenho 10 anos e estou na 5ª série. Como adoro ler, estou aqui para mostrar alguns livros para as meninas entre 8 e 12 anos. Bom, aqui vai a dica de alguns livros super legais:

Bat Pat, de Roberto Pavanello
Diário de Uma Garota Nada Popular, de Rachel R. Russel
Milla e Sugar, de Prunella Bat
Go Girl, de Rowan Mcauley
Querido Diário Otário, de Jim Benton
Lucy Detesta Cor-de-rosa, de Nancy Rue
Ligadas e Antenadas, de Inês Stanisiere

Se você é uma garota sem ter o que fazer, saca só essas dicas de livros para ler."











 

Bjs, Duda.

19 de março de 2012

Em Mulherada.com...

Confirmando os diferentes tons e cores de ser! Desta vez Cláudia Fagundes, em "ser essência muito mais", nos fala do seu olhar do reinício de ano.

16 de março de 2012

Em Palavras da Galera...

Venha conhecer as dicas de leitura da Maria Eduarda, uma estudante da 5ª série com apenas 10 anos de idade.

15 de março de 2012

Em Mulherada.com...

Carla Fontoura aborda o retorno à rotina na volta das férias. Será mesmo rotina ou o início de uma nova jornada? Confira no Mulherada.com.

14 de março de 2012

Meditando com o I Ching




Sobre
as pequenas
dificuldades
do dia a dia.


Hexagrama 39 (Chien) - Desde que os problemas existem também existe a oportunidade de sobrepassá-los; por conseqüência encontramos estas duas observações:

“O sudeste é favorável”. O sudeste é a região da alegria, da harmonia, da clareza de pensamento, e isto nos mostra que qualquer problema não é tão sério quanto parece. Na verdade nossos apegos aos estados mentais aflitivos é o que nos deixa tristes e melancólicos. O sudeste é o lugar da luz, assim é da natureza do homem superior resolver os problemas ocasionais que aparecem, de forma alegre e tranqüila à luz da sua própria consciência.

“É favorável ver o grande homem”. Este não se refere somente a pedir conselhos, embora algumas pessoas ainda precisem. Refere-se a aprender a usar os próprios poderes, os da nossa iluminação, com o propósito de resolver estes empecilhos de forma sábia.

Porem as pessoas que estão absorvidas no seu próprio mundo subjetivo de emoções perturbadas e desejos insatisfeitos, não percebem os perigos inesperados. Tomam-se envolvidas. Estão como cegos, e por isso, não podem parar para ver a realidade através da mente iluminada.

Mas, se você pode parar estando frente ao perigo, então pode chamar-se de pessoa “de conhecimento”.

Eu diria que uma boa ação é a postura do observador de si: parar, se distanciar, perceber-se e refletir. Quem se conhece um pouco sabe o que desencadeia a desarmonia. Reconhece-se em situações repetidas que refletem nos “perigos”.

Interpretado a partir do livro do I Ching – Roque Severino

13 de março de 2012

Palavras sábias













O dia mais belo: hoje
A coisa mais fácil: errar
O maior obstáculo: o medo
O maior erro: o abandono
A raiz de todos os males: o egoísmo
A distração mais bela: o trabalho
A pior derrota: o desânimo
Os melhores professores: as crianças
A primeira necessidade: comunicar-se
O que traz felicidade: ser útil aos demais
O pior defeito: o mau humor
A pessoa mais perigosa: a mentirosa
O pior sentimento: o rancor
O presente mais belo: o perdão
o mais imprescindível: o lar
A rota mais rápida: o caminho certo
A sensação mais agradável: a paz interior
A maior proteção efetiva: o sorriso
O maior remédio: o otimismo
A maior satisfação: o dever cumprido
A força mais potente do mundo: a fé
As pessoas mais necessárias: os pais
A mais bela de todas as coisas: O AMOR!!!



Madre Tereza de Calcutá

6 de março de 2012

8 de Março

Em Mulherada.com, Beatriz Fontana nos apresenta uma reflexão sobre o Dia Internacional da Mulher.

Sobre o Amor








Movida pelas discussões mais freqüentes desta semana deixo este texto, para todos que estão em paz com a vida ou não... 



Houve uma época em que eu pensava que as pessoas deviam ter um gatilho na garganta: quando pronunciasse — eu te amo —, mentindo, o gatilho disparava e elas explodiam. Era uma defesa intolerante contra os levianos e que refletia sem dúvida uma enorme insegurança de seu inventor. Insegurança e inexperiência. Com o passar dos anos a idéia foi abandonada, a vida revelou-me sua complexidade, suas nuanças. Aprendi que não é tão fácil dizer eu te amo sem pelo menos achar que ama e, quando a pessoa mente, a outra percebe, e se não percebe é porque não quer perceber, isto é: quer acreditar na mentira. Claro, tem gente que quer ouvir essa expressão mesmo sabendo que é mentira. O mentiroso, nesses casos, não merece punição alguma.

Por aí já se vê como esse negócio de amor é complicado e de contornos imprecisos. Pode-se dizer, no entanto, que o amor é um sentimento radical — falo do amor-paixão — e é isso que aumenta a complicação. Como pode uma coisa ambígua e duvidosa ganhar a fúria das tempestades? Mas essa é a natureza do amor, comparável à do vento: fluido e arrasador. É como o vento, também às vezes doce, brando, claro, bailando alegre em torno de seu oculto núcleo de fogo.

O amor é, portanto, na sua origem, liberação e aventura. Por definição, anti-burguês. O próprio da vida burguesa não é o amor, é o casamento, que é o amor institucionalizado, disciplinado, integrado na sociedade. O casamento é um contrato: duas pessoas se conhecem, se gostam, se sentem a traídas uma pela outra e decidem viver juntas. Isso poderia ser uma COisa simples, mas não é, pois há que se inserir na ordem social, definir direitos e deveres perante os homens e até perante Deus. Carimbado e abençoado, o novo casal inicia sua vida entre beijos e sorrisos. E risos e risinhos dos maledicentes. Por maior que tenha sido a paixão inicial, o impulso que os levou à pretoria ou ao altar (ou a ambos), a simples assinatura do contrato já muda tudo. Com o casamento o amor sai do marginalismo, da atmosfera romântica que o envolvia, para entrar nos trilhos da institucionalidade. Torna-se grave. Agora é construir um lar, gerar filhos, criá-los, educá-los até que, adultos, abandonem a casa para fazer sua própria vida. Ou seja: se corre tudo bem, corre tudo mal. Mas, não radicalizemos: há exceções — e dessas exceções vive a nossa irrenunciável esperança.

Conheci uma mulher que costumava dizer: não há amor que resista ao tanque de lavar (ou à máquina, mesmo), ao espanador e ao bife com fritas. Ela possivelmente exagerava, mas com razão, porque tinha uns olhos ávidos e brilhantes e um coração ansioso. Ouvia o vento rumorejar nas árvores do parque, à tarde incendiando as nuvens e imaginava quanta vida, quanta aventura estaria se desenrolando naquele momento nos bares, nos cafés, nos bairros distantes. À sua volta certamente não acontecia nada: as pessoas em suas respectivas casas estavam apenas morando, sofrendo uma vida igual à sua. Essa inquietação bovariana prepara o caminho da aventura, que nem sempre acontece. Mas dificilmente deixa de acontecer. Pode não acontecer a aventUra sonhada, o amor louco, o sonho que arrebata e funda o paraíso na terra. Acontece o vulgar adultério - o assim chamado -, que é quase sempre decepcionante, condenado, amargo e que se transforma numa espécie de vingança contra a mediocridade da vida. É como uma droga que se toma para curar a ansiedade e reajustar-se ao status quo. Estou curada, ela então se diz — e volta ao bife com fritas.

Mas às vezes não é assim. Às vezes o sonho vem, baixa das nuvens em fogo e pousa aos teus pés um candelabro cintilante. Dura uma tarde? Uma semana? Um mês? Pode durar um ano, dois até, desde que as dificuldades sejam de proporção suficiente para manter vivo o desafio e não tão duras que acovardem os amantes. Para isso, o fundamental é saber que tudo vai acabar. O verdadeiro amor é suicida. O amor, para atingir a ignição máxima, a entrega total, deve estar condenado: a consciência da precariedade da relação possibilita mergulhar nela de corpo e alma, vivê-la enquanto morre e morrê-la enquanto vive, como numa desvairada montanha-russa, até que, de repente, acaba. E é necessário que acabe como começou, de golpe, cortado rente na carne, entre soluços, querendo e não querendo que acabe, pois o espírito humano não comporta tanta realidade, como falou um poeta maior. E enxugados os olhos, aberta a janela, lá estão as mesmas nuvens rolando lentas e sem barulho pelo céu deserto de anjos. O alívio se confunde com o vazio, e você agora prefere morrer.

A barra é pesada. Quem conheceu o delírio dificilmente se habitua à antiga banalidade. Foi Gogol, no Inspetor Geral quem captou a decepção desse despertar. O falso inspetor mergulhara na fascinante impostura que lhe possibilitou uma vida de sonho: homenagens, bajulações, dinheiro e até o amor da mulher e da filha do prefeito. Eis senão quando chega o criado, trazendo-lhe o chapéu e o capote ordinário, signos da sua vida real, e lhe diz que está na hora de ir-se pois o verdadeiro inspetor está para chegar. Ele se assusta: mas então está tUdo acabado? Não era verdade o sonho? E assim é: a mais delirante paixão, terminada, deixa esse sabor de impostura na boca, como se a felicidade não pudesse ser verdade. E no entanto o foi, e tanto que é impossível continuar vivendo agora, sem ela, normalmente. Ou, como diz Chico Buarque: sofrendo normalmente.

Evaporado o fantasma, reaparece em sua banal realidade o guarda­roupa, a cômoda, a camisa usada na cadeira, os chinelos. E tUdo impregnado da ausência do sonho, que é agora uma agulha escondida em cada objeto, e te fere, inesperadamente, quando abres a gaveta, o livro. E te fere não porque ali esteja o sonho ainda, mas exatamente porque já não está: esteve. Sais para o trabalho, que é preciso esquecer, afundar no dia-a-dia, na rotina do dia, tolerar o passar das horas, a conversa burra, o cafezinho, as notícias do jornal. Edifícios, ruas, avenidas, lojas, cinema, aeroportos, ônibus, carrocinhas de sorvete: o mundo é um incomensurável amontoado de inutilidades. E de repente o táxi que te leva por uma rua onde a memória do sonho paira como um perfume. Que fazer? Desviar-se dessas ruas, ocultar os objetos ou, pelo contrário, expor-se a tudo, sofrer tudo de uma vez e habituar­se? Mais dia menos dia toda a lembrança se apaga e te surpreendes gargalhando, a vida vibrando outra vez, nova, na garganta, sem culpa nem desculpa. E chegas a pensar: quantas manhãs como esta perdi burramente! O amor é uma doença como outra qualquer.

E é verdade. Uma doença ou pelo menos uma anormalidade. Como pode acontecer que, subitamente, num mundo cheio de pessoas, alguém meta na cabeça que só existe fulano ou fulana, que é impossível viver sem essa pessoa? E reparando bem, tirando o rosto que era lindo, o corpo não era lá essas coisas... Na cama era regular, mas no papo um saco, e mentia, dizia tolices, e pensar que quase morro!...

Isso dizes agora, comendo um bife com fritas diante do espetáculo vesperal dos cúmulos e nimbos. Em paz com a vida. Ou não.

Ferreira Gullar

O texto acima foi extraído do livro "A estranha vida banal",  editora José Olympio - 1989, e consta da antologia "As 100 melhores crônicas brasileiras", Editora Objetiva, pág. 279 - Rio de Janeiro - 2005,  organização e introdução de Joaquim Ferreira dos Santos.

Palavras da Galera

Garotas indecisas não conseguem ser felizes. Será verdade? Confira no Espaço da Galera.